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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Fernando Meirelles - 12/09/2008 às 17h00

No dia da estréia de "Ensaio Sobre a Cegueira", cineasta conversa o filme que traz no elenco nomes como Julianne Moore, Mark Rufallo, Gael García Bernal, Danny Glover e Alice Braga. A adaptação da obra homônima do escritor português José Saramago é uma produção entre Canadá, Japão e Brasil.

  • Teaser de "Ensaio Sobre a Cegueira"
  • Saramago emociona-se com o filme
  • Veja matéria do "Metrópolis" sobre o filme
  • Fotos das filmagens do longa em São Paulo
  • Julianne Moore diz que faria qualquer coisa a pedido de Meirelles
  • Assista à íntegra do bate-papo:

  • Participaram do Bate-papo 1046 pessoas


    (05:22:14) Cássia: Boa tarde,cm esta Meirelles?

    (05:22:43) carola: oi fernando, boa tarde

    (05:23:04) Antonio Bahia: boa tarde Fernando,é´um prazer falar com vc

    (05:26:34) Fernando Meirelles: Esse filme vai me surpreender, já me surpreendeu muito, vamos ver o que vai acontecer. Hoje é a estréia, provavelmente amanhã já devo ter alguns números. É sempre uma tensão quando se lança um filme. É como, um pouco, eleições, você fica vendo os primeiros três dias, vendo como está. A gente fala que nosso trabalho está feito, mas ficamos querendo ver como foi o primeiro fim de semana, a ocupação das salas e, principalmente, o segundo fim de semana, que é o que define o filme. Se cair mais que 50% a gente já faz o desenho da carreira dele, se cai pouco pode-se ter uma surpresa, enfim.

    (05:23:37) Marcello-Azolino: Fernando, como um aspirante a diretor pode galgar uma carreira cinematográfica como a sua?Quais fatores te encaminharam para seu sucesso?

    (05:28:06) Fernando Meirelles: Marcello-Azolino, eu nunca pensei em carreira na verdade, sempre fui fazendo as coisas que eu gostava. Comecei fazendo uns vídeos experimentais e coloquei nos festivais que ganhou uns premiozinhos. As pessoas foram me convidando e onde entrava era porque eu queria fazer. E uma coisa foi puxando a outra. Eu nunca planejei carreira, nunca pensei em como chegar lá. As oportunidades foram aparecendo e eu fui entrando. Fazer o que gosta é o truque.

    (05:25:34) carola: oi fernando, tudo bem? gostaria de saber sobre o blog que vc manteve durante as filmagens. vc acha que ter exposto esse processo foi positivo para o filme?

    (05:29:45) Fernando Meirelles: carola, o site Cinema em Cena do Pablo Villaça me convidou para fazer um blog do filme "O Jardineiro Fiel" onde eu ia escrevendo o que estava acontecendo enquanto eu fazia o filme. E neste filme eu resolvi fazer a mesma coisa. Fui escrevendo um blog sem pretensões, imaginando sempre que quem estava lendo eram estudantes de cinema, mas chegou uma hora que eu percebi que o texto estava sendo traduzido e sendo espalhado pelo mundo. Daí parei imediatamente. Os blogs expõem muito, a minha idéia era escrever o que penso, os meus medos e os meus conflitos, o que é muito interessante para estudantes, mas quando vai para um público muito grande vira uma exposição público, o que não era a minha intenção.

    (05:26:20) Minguita: José Saramago considerava "Ensaio sobre a Cegueira" infilmável, mas você aceitou o desafio e o levou às telas com o aval da crítica e do próprio Saramago. Quando teremos a obra de Érico Veríssimo sua versão de "Grande Sertão Veredas" nas telas?

    (05:26:25) Minguita: Como foram as negociações junto ao escritor José Saramago a fim de que ele vendesse os direitos apesar de ter declarado essa obra como infilmável?

    (05:33:06) Fernando Meirelles: Minguita, eu li o livro em 1997 e tentei comprar os direitos, mas o Saramago sempre recusou. Este produtor canadense foi recusado também, mas foi para as Ilhas Canárias por três dias e não sei como o convenceu. Daí me telefonou para saber se eu conhecia o livro e hoje estou lançando o filme. Sobre o "Grande Sertão Veredas" do Guimarães Rosa eu tenho um tratamento do roteiro para fazer o filme dado pelo George Walter Durst. Ele fez uma minissérie para a Globo, a melhor coisa que a televisão brasileira já produziu, foi dirigida pelo Walter Avancini. Mas ainda não tenho coragem de ousar esta história, ainda vou esperar uns dez anos.

    (05:26:59) Nana: vc mudou o filme depois que o saramago assistiu. Quais as principais mudanças?

    (05:35:01) Fernando Meirelles: Nana, eu apresentei o filme em Cannes e nesta versão o personagem Denny Glover fazia algumas considerações como uma narração em off. Quando a assisti achei que ela estava conduzindo muito o telespectador. Apresentei o filme para o Saramago e perguntei se deveria tirar esta narração que me disse que estava ótimo, mas acabei tirando.

    (05:27:39) Marcello-Azolino: Como você vê a incursão de diretores brasileiros no mercado cinematográfico do exterior?Como Walter Salles e seu "Darkwater" ou, mais recente, Vicente Amorin com "Good"?

    (05:37:14) Fernando Meirelles: Marcello-Azolino, o mercado internacional está se abrindo para o Brasil. E não só com diretores, está começando a ter um trânsito grande de maestros, fotógrafos e diretores também. Fora eu e o Walter Salles que estamos fazendo filmes internacionais, tem o Amorim, o Andruxa está com um projeto para filmar nos EUA. O Heitor Dalia está com projeto para filmar no Caribe. Está havendo um interesse de produtores por diretores brasileiros. Parece que o nosso cinema está se abrindo para o mundo finalmente. Isto é ótimo. Não existe mais cinema nacional ou fechado, ele já é uma coisa internacionalizada. O filme só se paga se tiver outros mercados. Fora isso, há uma linguagem internacional que é compreendido mais que literatura, é uma linguagem que conecta o mundo.

    (05:43:04) Geovanna/UOL:

    Fernando Meirelles conversa sobre a estréia de "Ensaio Sobre a Cegueira" (Flávio Florido/UOL)

    (05:28:29) johnny: Olá Fernando! Qual as vantagens e desvantagens qto a co-produções entre diferentes países?

    (05:38:41) Fernando Meirelles: johnny, o cinema está virando uma rede mundial e não só por meio das majors. Este filme, "Ensaio Sobre a Cegueira" é uma produção independente entre Canadá, Japão e Brasil. Depois que vendemos os direitos para a Miramax. Enfim fazer co-produções internacionais é uma grande saída para viabilizar projetos.

    (05:28:39) Minguita: Como foi a emoção de assistir ao "Ensaio sobre a Cegueira" ao lado do grande mestre José Saramago?

    (05:40:02) Fernando Meirelles: Minguita, se eu tivesse que revisitar as piores experiências de minha vida de um a dez, talvez esta seja a terceira. Porque a projeção que mostramos para o Saramago foi feito em Lisboa em um cinema muito antigo com uma tela imensa e o filme sendo projeto só no meio da tela, uma imagem lavada, as imagens escuras e claras não apareciam, o som vinha de duas caixinhas vagabundas. Enfim, foi a experiência mais terrível de minha vida. Fiquei com vergonha. Teve um ponto que achei que não dava para continuar, mas em respeito ao Saramago fui até o fim, foi terrível.

    (05:28:48) pink: fernando, há bastante tempo na época do cidade de deus fui numa exibição do filme com debate com vc. na época perguntei pq o brasil nao fazia filmes mais divertidos e sem necessariamente a msg social. na época, vc disse que o pais ja se via mto na novela, que a classe media era retratada diariamente nisso entao acabava nao tendo publico nos cinemas. ainda pensa isso?

    (05:41:19) Fernando Meirelles: pink, não sei se este é o motivo de não ter público, mas o fato de que a novela e um pouco a crônica da classe média brasileira não tenho dúvidas. Dos filmes de grande público no Brasil quase todos espelham a realidade brasileira. Não tem um filme da classe média entre os primeiros.

    (05:30:07) Rodrigo: Oi Fernando, meu nome é Rodrigo e sou presidente da Associação Mídia Acessível, que solicitou da O2 o pedido para fazer a audiodescrição do seu filme. Fizemos recentemente a audiodescrição do filme O Signo da Cidade, e lembro da Bruna Lombardi comentar que você foi a primeira pessoa a ver o filme dela. Por esta ocasião vc teria dito que o filme permanece na cabeça das pessoas por muito tempo e que se uma história não te envolve, logo em seguida vem uma que te pega. Um amigo meu que viu seu filme, disse o mesmo a respeito do seu, quanto a essa coisa do filme permanecer com vc. Ele disse que depois do filme, as idéias começaram a fervilhar na cabeça dele. Ainda não o vi, porque estamos esperando a vinda do filme e pretendemos assisti-lo de olhos vendados. Vc já teve o depoimento de algum cego que tenha acompanhado o filme?

    (05:43:20) Fernando Meirelles: Rodrigo, Tem uma associação no Canadá que faz uma transposição para cegos. O roteirista deste filme, Don McKellar, já fez isso e vai fazer em inglês a transposição deste nosso filme. Temos uma oferta de uma instituição de Belo Horizonte também. Em português é um pouco mais difícil, porque vamos ter que narrar o que está acontecendo e traduzir a voz dos autores que é em inglês.

    (05:32:51) cocota: fernando, boa tarde! gostaria de saber pq vc mudou o filme mesmo depois da aprovacao do saramago? fiquei sem entender, hehe... quero ver aquela versao tb!

    (05:30:19) Marcello-Azolino: Houve pressões, por parte do estúdio que está lançando "Blindness", para que você alterasse algo neste projeto ambicioso?Ou a versão que o Brasil assiste é 100% como você visualizou?

    (05:45:38) Fernando Meirelles: cocota e Marcello-Azolino, como disse antes, não temos nenhum estúdio, temos um distribuidor que é a Miramax que não tem nenhuma ascensão sobre o filme. Eu não ia mudar, somente remixar... Mas este negócio de filme é que nem reforma de casa, mexe em uma coisa, depois mexe em outra e vai indo. E foi o que aconteceu, comecei a mexer, fui testando e acabei dando uma mexidinha no filme chegando a esta versão final. Edição tem um pouco disso, quanto mais se vai trabalhando só melhora. O limite é a hora em que o filme tem que entrar no cinema.

    (05:45:41) Geovanna/UOL:

    Fernando Meirelles conversa sobre a estréia de "Ensaio Sobre a Cegueira" (Geovanna Morcelli/UOL)

    (05:33:50) LC ROCHA: Você disse uma frase hoje, na Folha, que achei interessantíssima: você faz filme para público, não pra crítico. Sou escritor e penso o mesmo. Você não acha que a esfera intelectual, especialmente a crítica, se destacou do público em geral?

    (05:46:56) Fernando Meirelles: LC Rocha, tem críticas e críticas, tem críticos que conseguem fazer uma apreciação do filme e ao mesmo tempo dialogar com o leitor. E tem críticos famosos por serem totalmente descolados do leitor e não estão se importando. Um clássico no Brasil é o Inácio Araújo. Tem uma piada entre os colegas que diz que se ele dá ótimo para um filme quatro estrelas o cara pergunta: "Onde eu errei?". Porque ele é um cara muito consistente, se ele gosta o público não gosta e se ele não gosta o filme será um sucesso. Mas cada caso é um caso, não dá para generalizar.

    (05:47:59) Fernando Meirelles: Eu cito críticos, por exemplo, o Merten é um cara que acho muito bacana. Acho interessante este crítico porque ele avalia o filme sem julgá-lo. Ele tenta expor a intenção do diretor naquilo e quais instrumentos que este tentou usar, também o que foi mais eficaz, o que funcionou. Acho isto muito esclarecedor, não ter um julgamento do filme.

    (05:34:39) ago: Fernando, como voce decidiu pra que a Julianne fizesse a protagonista do filme?Algo em especial ?

    (05:49:35) Fernando Meirelles: ago, todos temos na vida uma lista dos cinco atores favoritos e a Julianne Moore está entre os meus eles. Neste filme tive esta oportunidade, tudo funcionava, era um sonho e não custava arriscar. Ela foi a primeira atriz que pensei, mandei o roteiro por meio de seu agente e três dias depois ela me ligou dizendo que queria fazer o projeto. Dei pulos de alegria.

    (05:35:19) BOA TARDE! =): O filme retrata exatamente o livro ou há adaptações?

    (05:51:28) Fernando Meirelles: Boa tarde! =) e C.Biau, isto foi uma grande questão para mim, porque o livro tem uma história muito pesada. Muitas pessoas não aguentaram ler até o fim. E eu me questionei até onde eu deveria ir com a degradação. Tirei um pouco o peso da mão. É como um tempero, eu colocava um pouco mais, fui temperando e para o meu gosto chegou ao ponto. Mas evidentemente não dá para agradar a todos.

    (05:38:14) C.Biau: Fernando, um dos comentários sobre o filme foi que vc supostamente deu muita importancia às cenas escatológicas, o que acabou gerando críticas negativas. Vc concorda com isso?

    (05:45:04) Evandro Pereira: Oi Fernando no processo de estudo do filme voce fez pessoalmente alguma experiencia sensorial sobre a cegueira, vendou os olhos e fez rotinas como se fosse cego, para aprimorar sua direcao ! Grande abraco saudades dos nossos tempos ! Evandro Pereira

    (05:53:21) Fernando Meirelles: Evandro Pereira, fizemos várias sessões em uma oficina de atores para cegos, vendávamos os atores e ficávamos de quatro a cinco horas andando pelas ruas, experimentando cheiros e ouvindo música. Éramos submetidos a uma espécie de uma tortura com os olhos vendados. Começamos a fazer isto para os figurantes, depois a equipe inteira fez ate que pedi para a equipe principal fazer também. Foi muito bom porque aprendemos muito sobre a experiência de não enxergar. Na hora que se perde o estímulo externo o pensamento vai para dentro e você começa a viver as experiências mais intensamente. Convido todos a fazer isso, é muito legal, vale mesmo.

    (05:50:42) Geovanna/UOL:

    Cena do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", dirigido por Fernando Meirelles (Divulgação)

    (05:46:22) Marcello-Azolino: Fernando, você têm optado por transpor a linguagem literária para o cinema em seus trabalhos. Você tem planos para lançar um filme dirigido e roteirizado por você como você fez em "Domésticas"?

    (05:54:54) Fernando Meirelles: Marcello-Azolino, espero fazer roteiros, histórias originais no futuro. Não tenho problema em adaptar. Mas não sei se um dia vou escrever o meu próprio roteiro. O diretor não é roteirista, ele pode ter uma idéia do filme, uma visão. Eu não ousaria escrever um roteiro, posso dar todas as idéias, mas chamo um roteirista.

    (05:46:54) Dani Rocha: Como vc compõe sua equipe? Numa co-produção, vc tem liberdade de escolha da equipe?

    (05:56:11) Fernando Meirelles: Dani Rocha, sim, o diretor que escolhe a equipe, principalmente a equipe criativa, fotógrafo, montador, músico, roteirista. Depois a equipe de produção, isto evidentemente o diretor pode pedir, mas é a produção quem se encarrega. Mas a equipe de criação é uma das funções do diretor.

    (05:51:08) Marcello-Azolino: Fernando, qual critério você usa para escalar suas atrizes?E qual a sensação de ver uma escolha sua ser reconhecida pela Academia, como foi o caso da excelente Rachel Weisz e sua belíssima personagem Tessa Quayle?

    (05:57:33) Fernando Meirelles: Marcello-Azolino, ela é uma belíssima personagem bela, por sinal. É como seria o seu critério, atrizes que admiramos e que nos falam algo. Então, no fundo não é muito diferente de um fã. Fiquei muito feliz pelo prêmio da academia da Rachel. O filme foi premiado, mas não fui. Enfim, não fui para a entrega do Oscar, mas assim que ela saiu do palco liguei para ela e comemoramos muito.

    (05:53:11) Pri: Como foram feitas as escolhas das locações? Vcs fizeram pesquisas? Quanto tempo antes de iniciar as filmagens?

    (05:59:03) Fernando Meirelles: Pri, em geral o padrão é iniciar quatro meses antes de começar a filmar, pois pode ter problemas de logística etc. Em uma produção este é o primeiro estágio. Para mim, antes até, um ano antes, para entender o filme, para saber onde vou fotografar. É muito importante saber onde vou filmar.

    (05:53:58) Presuntela: O que foi mais tocante para voce, ter Julianne Moore no filme ou presenciar a emoçao de Saramago ao assistir?

    (05:59:30) Fernando Meirelles: Presuntela, são duas emoções distintas, sou grato pelas duas, mas não consigo hierarquizar.

    (05:55:14) roxane: sei que vc tá falando DESSE filme, mas tb sei que cinema demooora. existe algum projeto futuro já? ah! falando nisso, comente um pouco dao novo projeto que estreia na globo em breve. quero saber mais sobre ele

    (06:01:59) Fernando Meirelles: roxane, neste momento estamos rodando uma minissérie para a Globo chamada "Som e Fúria" que entra no ar em fevereiro. Fala sobre uma companhia de teatro que está encenando a peças de Shakespeare. Tem Andrea Beltrão, Felipe Camargo, Rodrigo Santoro, Paula Rangel, Paulo Beth, um grande elenco. É uma comédia dramática, um texto muito bom, estamos adorando. É a primeira minissérie que a Globo contrata independentemente, uma coisa rara. Já compraram série, mas uma minissérie é a primeira vez. Eles estão começando a perceber que a produção independente é uma belíssima saída, pois diminui o custo, pode ter uma variedade maior de fornecedores. Não é só com a O2, todos os programas da Regina Casé são feitos com a sua produtora.

    (05:57:58) Felipe: Fernando, no contexto artístico, no que "Blindness" se difere das obras "Jardineiro Fiel" e " Cidade de Deus"???

    (06:03:39) Fernando Meirelles: Felipe, em minha cabeça, tanto "Cidade..." como "Jardineiro..." tem um pé no documentário, são baseados na realidade, eu posso pesquisar, tenho uma referência muito clara do que estou fazendo, só estou transpondo uma realidade para a tela. Enquanto que o "Ensaio..." é uma metáfora, uma fábula, isto torna o filme mais difícil, pois é difícil relacionar uma história onde não temos nenhuma referência. É muito mais abstrato, esta foi a maior dificuldade deste projeto e a maior diferença entre os outros filmes que fiz. Também é mais formal, cada enquadramento é descomposto, é tudo muito planejado.

    (05:58:41) Guilherme: Como é sua interferência na fotografia do filme, e como você passa sua visão para o diretor de fotografia??

    (06:05:36) Fernando Meirelles: Guilherme, antes de começar a filmar, 15 dias antes de entrar no set ou um mês antes, por três vezes, ficamos de 10 a 12 dias para ler o roteiro. Ficamos das nove a manhã às seis da tarde fazendo este trabalho muito meticuloso, cena por cena. É um planejamento de duas semanas, depois ficamos um tempo indo a cada locação vendo se vai funcionar e aí roda. O César Charlone foi uma pessoa que me ensinou a fazer cinema, foi o meu professor, não só da coisa técnica, como o meu gosto pela fotografia. A maneira que filmo é 100% ensinada por ele. É mestre...

    (06:01:29) Luiz Soares: Bom todos os filmes que o Fernando Meireles acaba dirigindo tem um fundo muito politizado, uma visão politizada, a gente pode esperar o mesmo de Ensaio Sobre a Cegueira?

    (06:06:53) Fernando Meirelles: Luiz Soares, tem gente que vê este filme como um drama político, sobre liderança, um líder que é mais ético, outro que é mais agressivo pensando no bem estar do povo. Mas também é um drama filosófico, tem muitos dilemas morais. Esta história tem muitas maneiras de ser entendida, o que faz com que o filme fique um pouco solto, mas é muito rico.

    (06:08:25) Geovanna/UOL:

    Cena do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", dirigido por Fernando Meirelles (Divulgação)

    (06:01:40) Teca: Fernando, o que representa para vc ver o Quico, seu filho, seguindo seus passos e trabalhando junto com você nesse filme?

    (06:08:30) Fernando Meirelles: Teca, o Quico tem 19 anos e está fazendo escola de comunicações na Eca. Ele ficou no Canadá sendo assistente do assistente... tem uma figuraçãozinha. Mas não quero influenciá-lo, se ele for feliz basta. A minha filha começou a fazer artes plásticas este ano, ela começou a fazer as fotos de divulgação, tem um olho que é impressionante e resolveu passar para a fotografia.

    (06:02:15) Gisela: Sou muito fã do seu trabalho e espero ter oportunidade um dia de te conhecer. Meu sonho é fazer producao de cinema um dia. O que se ganha e o que se perde produzindo cinema hoje no Brasil? ah, tem uma vaguinha na sua equipe??? ;)

    (06:10:32) Fernando Meirelles: Gisela, para se fazer produção tem que ser apaixonado por isso, pois se perde horas e horas de sono e horas e horas de vida privada, é quase como um sacerdócio. O cara que estiver rodando só dorme de quatro a seis horas, tem que dar a vida ao cinema. E o que ganha é um prazer, pois é um trabalho muito desafiador. No cinema em um dia estamos fazendo um filme no meio de uma favela, outro dia no Himalaia etc. É um ciclo que gera um ganho que outras profissões não têm, mas é um sacrifício.

    (06:02:34) Rossa: Você era o Valdeci, câmera do Ernesto Varela. Fale um pouco sobre aquela época. Você participava do Crig Rá?

    (06:11:33) Fernando Meirelles: Rossa, eu era um dos diretores do Crig Rá, tinha cinco diretores e nós nos revezávamos. Eu apresentei muitas matérias, fazia o câmera, era o Valdeci. Nós pautávamos juntos, planejávamos as perguntas e com o tempo o Marcelo começou a ficar mais descolado.

    (06:04:09) pink: ainda falando desse debate vc comentou do filme do furtado "houve uma vez 2 veroes" que é super sensacional e tinha sido comprado por algum estudio gringo... lamentei pq achei que o projeto ia ficar tosco, americano nao ia captar a essencia "nacional" do filme. queria saber se vc sabe pq nao rolou, etc. tem noticias qto a isso?

    (06:12:38) Fernando Meirelles: pink, de fato houve interesse em comprar o roteiro para fazer o remake americano do filme. Mas discordo de você, tem diretores independentes americanos que tem capacidade de fazer o filme, poderia ser um filme bonito, mas não deu certo. Eu adoro o filme.

    (06:05:23) quiko: A sua parceria com Cesar Charlone é muito intensa...como você viu as críticas com relação à trepidação da câmera em o jardineiro fiel e algumas críticas à maneirismos e tiques de Blindness?

    (06:14:03) Fernando Meirelles: quiko, no "Jardineiro..." em alguns momentos tem a câmera solta. Tem gente que não gosta disso, principalmente quem sentar muito perto do cinema, pois é desagradável. Mas isto se deve um pouco às condições que filmamos. Se formos planejar cada figurante ficará tudo mais estável e perderá um pouco do calor do filme, é uma troca.

    (06:07:28) Marcello-Azolino: Como foi a reação de Cannes na abertura do festival ao término da primeira sessão de "Blindness" na sua ótica?Imagino que a pressão da abertura seja maior que lançar o filme na competição, já no meio do festival...

    (06:15:28) Fernando Meirelles: Marcello-Azolino, a abertura de Cannes é realmente uma batalha sangrenta, mas foi muito bem. A reação do público quando terminou o filme foi muito bonita. Teve muitos aplausos, uma resposta positiva. Depois começaram a sair as críticas francesas que foram bem mais duras do que as pessoas que foram ao cinema. Estou vindo de Toronto que teve uma resposta na sala muito bacana e as críticas foram muito boas.

    (06:09:03) cocota: fernando, na época do tropa de elite uma galera ficou com o discurso "ate que enfim deram voz pra policia e nao pros bandidos", "é o fim da cosmetica da fome" etc. queria saber se vc acha que o tropa de alguma maneira complementa o cdd.

    (06:16:41) Fernando Meirelles: cocota, o "Tropa..." conta um outro lado. O "Cidade de Deus" não tem muito de polícia, mas de como se formou o tráfico. Gosto muito do "Tropa...", é muito bem construído, ele envolve. Só o fato de ter provocados os debates é sensacional.

    (06:12:22) míope: Fernando, parabéns pelo seu filme: não o vi ainda mas percebo uma similaridade do trabalho com o de outro diretor latino (alejandro Gonzales Inarritu ?) de trabalhar com atores de vearias nacionalidades, um tema global, sem fronteiras. Acredita na força dessa estética para conquistar o espaço no cinema internacional?

    (06:17:53) Fernando Meirelles: míope, não penso muito em conquistar este espaço, na verdade, no processo de fazer um filme, primeiramente a história me pega, depois tento contá-la. E quando já a tenho esquematizada penso no público.

    (06:13:56) dani: fernando, você sentiu a responsabilidade pesando de fazer um bom filme de um otimo livro?

    (06:18:34) Fernando Meirelles: dani, é enorme. Quando se está adaptando um filme que as pessoas adoram e gera alta expectativa é uma tensão enorme, sofri muito com isso.

    (06:14:27) Luiz Soares: Fernando hoje já podemos dizer que você é um diretor conceituado, logico que por sua competencia e inteligencia, no que isso te abre portas e te ajuda, e se isso te atrapalha, por exemplo, nas escolhas de trabalhos? Qual é o beneficio e qual as dificuldades se é que elas existem?

    (06:20:31) Fernando Meirelles: Luiz Soares, evidentemente que a coisa de ter um reconhecimento facilita, pois quando for trabalhar com um diretor de arte ou ator eles já têm uma referência de seu trabalho e é mais fácil de aceitar. A parte ruim é a expectativa que colocam, eu sinto isto mais agora. Às vezes recebo roteiros cuja história não está boa, mas falam que como sou o diretor que sou ela irá ficar boa. Isto faz parte.

    (06:21:49) Geovanna/UOL:

    Fernando Meirelles fala sobre o filme "Ensaio Sobre a Cegueira" (Flavio Florido/UOL)

    (06:14:30) Marcelo Garcia: Boa noite Fernando ! Porque você deixou de postar em seu blog ? Você voltará a postar nele ?

    (06:22:23) Fernando Meirelles: Marcelo Garcia, manter uma comunicação como faz o Caetano Veloso eu não faria, é exposição demais, não é muito do meu jeito. Agora, outros blogs de produção eu posso fazer em outros projetos. Acho gostoso pensar dividindo, isto te dá uma noção do que se está fazendo. Se eu voltar para o blog hoje e ver o processo de escolha do elenco e criação do roteiro eu verei coisas que tinha esquecido. Isto me ajuda a prender. Escrever durante o processo é muito gostoso, eu gosto de escrever.

    (06:16:00) boing: gostaria de saber se voce achou o modo que o senhor buscavade evitar a decupagem?

    (06:24:24) Fernando Meirelles: boing, decupar é pensar em como quebrar a cena, isto é planejado, pode ser feito o story board, a história em quadrinhos dizendo como será filmado o filme. Quando comecei a fazer publicidade eu decupava os filminhos para pensar em fazer, hoje já não penso nada. Vou indo, meio que improvisando a decupagem no dia. Mas não gasto tempo, tenho uma racionalidade, filmo rápido. Faço isso sem planejar muito devido a minha experiência.

    (06:16:04) Oaxiac Odéz: "Ensaio Sobre a Cegueira" foi feito em película. Muitos filmes tem sido feito em outras mídias. Como vc vê a atual tecnologia ?

    (06:25:41) Fernando Meirelles: Oaxiac Odéz, estou fazendo a minissérie "Som e Fúria" para a Globo com uma nova câmera digital. Ela é menor que a câmera 35, reage exatamente como ela, mas é mais leve, não tem negativo, por isso evita que se leve para o laboratório. Não tem problema de riscar e é mais ágil...

    (06:19:55) Anderson: É verdade que você recusou dirigir o 007 Cassino Royale?

    (06:27:39) Fernando Meirelles: Anderson, não é isso. A família que detém os direitos do 007 pensavam em fazer uma história de como ele surgiu e me convidaram para dirigir o projeto. Eu conversei com eles e acabei saindo fora. Teria que ficar em Londres mais um ano. Nesta história o 007 tem 20 e poucos anos e descobre que a sua namorada é de uma organização criminosa. Ele está começando em uma agência e os seus amigos a matam. E ele fica um pouco revoltado...

    (06:19:57) Carlos Lira: Fernando como você avalia a arte de fazer filme no atual cenário norte-americano de mudanças? Onde os arrasas quarteirões perdem espaço para filmes independentes e de menor custo?

    (06:28:23) Fernando Meirelles: Carlos Lira, os filmes de menor custo perdem espaço para estes grandes. E os filmes pequenos para médio estão sumindo no mundo inteiro. Estão todos muito preocupados, o mercado vem caindo de 9% a 10% ano a ano.

    (06:23:14) Julio: Fernando, você não fica preocupado com o fato de toda a crítica estar ressaltando que o filme "não é facíl"? Não acha que isso vai acabar afastando o publico?

    (06:29:40) Fernando Meirelles: Julio, os críticos estão dizendo isto, mas estão sendo honestos. Este é um filme que você tem que pensar um pouco, mas isto é bom. As pessoas que se permitirem ver vão sair com alguma coisa. Ficarão emocionados, ser difícil não é algo negativo.

    (06:25:06) alê: fernando, tenho verdadeiro panico de ficar cega. acho que vai ser angustiante ver seu filme... mas estou bem curiosa. queria saber de vc. qual seu amior medo? de perder qual sentido?

    (06:30:34) Fernando Meirelles: alê, se me perguntasse isso antes de começar este filme eu diria que é perder a visão. Mas depois que fiz este filme e fiquei um tempo sem visão não tenho mais medo. A visão me parece uma coisa menos essencial do que me parecia há um ano e meio.

    (06:31:34) Fernando Meirelles: Lotem o cinema neste final de semana, por favor. Este filme tem pessoas que adora e pessoas que rejeitam, por isso váo ao cinema vê-lo, não vá na onda dos outros, vá na sua onda. Obrigado.

    (06:31:47) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Fernando Meirelles e de todos os internautas. Até o próximo!



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