(06:14:49) bia: Nossa! dirigir um documentário a seis mãos não deve ter sido a tarefa mais simples, né? como vcs dividiram esse trabalho?
(06:19:50) Claudio e Calvito: acho que começou a ficar mais simples quando começou a ficar a três cabeças. Quando eu comecei a pensar na pesquisa, tinha um projeto muito meu, não queria escrever um roteiro. Com a chegada deles, pudemos conversar e entrevistar as pessoas, precisamos desse pequeno nucleo de conversa para chegar a um resultado tão discutido (Claudio). O fato de seis mãos permitiu que o "nosso" filme tivesse cada corte muito discutido, foi uma democracia muito radical. O processo foi uma das coisas que mais me deu felicidade (Calvito)
(06:14:51) zeca: Claudio, você que começou a pesquisa para o documentário, certo? o que te motivou a querer fazer o filme sobre um personagem tão polêmico da história da MPB?
(06:21:48) Claudio e Calvito: Quando eu tinha uns 9-10 anos, o Simonal estava no auge, lembro das apresentações mitológicas dele. O despertar para fazer o documentário e me fazer lembrar das memórias foi o livro do Nelson Motta, Noites Tropicais, ele me fez lembrar dessas histórias e me deu a idéia de contar essa história que era inédita e maldita. (Claudio). Eu conhecia pouco do Simonal, estava vendo uma matéria na TV em 2004 que me despertou essa vontade, entrei em contato com o Claudio e resolvemos unir forças (Calvito).
(06:25:19) Claudio e Calvito: Zeca, foi isso que eu contei, do livro do Nelson Motta. E exatamente pelo personagem ser polêmico, esse vira um produto rico, atrativo, com pegada, diferente. Para mostrar o quão grave foi a queda, a gente precisava mostrar o quão alto ele foi como artista. Para gente foi muito legal pq fomos descobrindo a história a medida que fizemos a pesquisa. (Claudio) Ninguém queria fazer um filme chapa-branca, queríamos contar uma história (Calvito). A pena que a socidade aplicou ao Simonal foi de 29 anos, pouco menor que as penas por homicídio. Eu não encontrei nenhum parceiro, pq ou as pessoas não tinham nunca ouvido falar dele, tamanho ostracismo, ou não queriam tocar no assunto. Eu resolvi gastar do meu, exatamente por essa dificuldade de patrocínio.
(06:32:12) Claudio e Calvito: Ele era mainstream.
(06:17:26) beto: O Simonal era um cara politizado? Ou tudo o que aconteceu foi mais por sua inocência e boca grande?
(06:28:15) Claudio e Calvito: Beto, acho que tem um pouco de tudo. Ele não era politizado, era auto-engajado e engajado no movimento negro. (Calvito) O engajamento político da ditadura não fazia parte da vida do Simonal, ao contrário dos engajados da época. Na questão racial ele era vanguarda, assim como o Toni Tornado, ele fez o "Tributo a Martin Luther King" dois anos antes da morte dele. O número do palhaço negro, que tem no filme, é um número que parece um pouco com o filme do Spike Lee, 20 anos antes.
(06:18:36) rodrigo minas gera: esse documentario é parecido com os filme q vc fez junto com a turma do casseta ou é um projeto isolado?
(06:34:59) Claudio e Calvito: Rodrigo, é completamente diferente. Os longas que a gente fez no Casseta é humor. A única semelhança que pode haver é o primeiro filme, que é ambientado na mesma época. Mas não tem nada a ver com a coisa do Simonal, em si. Apesar de ser um projeto paralelo, ele não é autoral, e não afasta o telespectador. Eu comecei numa trip individual, mas acabei no coletivo, isso é similar ao Casseta. E a gente sempre teve um gosto mais pelo pop, a gente queria que a maior quantidade possível de pessoas tomassem conhecimento dessa história. Conseguimos agregar todos os sentimentos, vamos da risada, ao choro, à discussão.
(06:23:30) carlos20: Pude ver o documentário no É Tudo Verdade e queria que vcs comentassem a questão racial que abordaram...
(06:31:55) Claudio e Calvito: Carlos20, quando as pessoas nos falavam sobre o Simonal, diziam que ele era um "negão metido a besta", "arrogante", achei isso engraçado, se ele fosse não-negro, nunca se fala a raça. Ser crioulo e arrogante, parecia um crime a mais. Ele tinha essa coisa de ser muito revolucionário, ele era um negão pop na época da ditadura, como rappers, só que no Brasil em 1960's. Todos eles apanharam muito, porque não sabiam seu lugar na sociedade. Você não podia ser um cara que ameaçasse, ele tinha que ser humilde, então ele descombinava totalmente. Eu acho também que a queda de um ídolo como ele, já atrairia, sendo negro, então, é mais ainda. Ele incomodava bastante. Ele inventou o imaginário que a gente tem de sucesso, o showbusiness brasileiro teve seu início nisso. Ele virou um mega pop star.
(06:32:26) paula_rs: Oi Claudio, oi Calvito, tudo bem? Lembro de algumas músicas do Simonal pq minha mãe cantava em casa, principalmente "Meu Limão, Meu Limoeiro"... mas nunca soube dessa polêmica dele com a ditadura.. acho q pq não vivi o momento e tbem pq nunca tinha ouvido falar dele na mídia.. queria saber o q aconteceu na verdade nesse episódio? ele realmente delatou alguém? =S
(06:50:12) Claudio e Calvito: Paula, o que aconteceu foi o que contamos mais ou menos. O Simonal se sentiu lesado por alguma coisa contábil e o convenceram de que o contador o estava roubando. Ele demitiu o contador que o processou. Ele mandou então a dar uma surra no contador, desde então entrou um disse-me-disse, uma avalanche muito grande de informações. O o Pasquim entrou nessa história. É impossível você provar a delação, digamos que ele fosse realmente um delator, tinha que ter aparecido alguém para o acusar. A outra coisa é que delação nem é crime, dependendo do lado que você tiver você pode ser criminoso ou prestar serviço a socidade. Mesmo assim, a puniçao a ele houve, óbvio que teve um mistério, foi um prazer sádico odiar o Simonal. As pessoas passaram a criticar quem o contratavam, ele foi proibido de trabalhar. Ele foi o único que não foi anisitiado.
(06:32:48) caca: Claudio, tudo bem? vc se sentiu desmotivado quando as primeiras pessoas q entrevistou não demonstraram interesse em colaborar com o documentário?
(06:44:43) Claudio e Calvito: Caca, teve dois momentos. No primeiro momentinho dá quebra de auto-estima. Afinal eu tenho um programa de sucesso na televisão, pensei que algumas portas iriam se abrir, conseguia elencar várias reuniões e os seguidos nãos foram uma rejeição, o que ninguém gosta. Teve alguns episódios, duas ou três pessoas me aconselharam e então eu cheguei a conversar com minha mulher para decidir fazer por conta própria, no fim foi motivador.
(06:35:03) brunão: Oi caras, tudo bem? como vocês conseguiram localizar e convencer o tal do Raphael Viviani a falar para documentário? foi muito difícil?
(06:42:40) Claudio e Calvito: Brunão, todo o resto das pessoas são do mundo artístico, são fáceis de chegar. O Viviani não, ele foi um contador que migrou do trabalhista para o policial, para o político. A gente contratou um detetive e conseguiu achar o Raphael Viviani que é o pivô da história. A gente sabia que não ia contar a única verdade existente, mas sabiamos que já tinhamos uma história lá. A aproximação foi feita pelo Calvito e o Micael, pq eu já sou conhecido e causaria uma estranheza. (Claudio) Ele não estava esperando nossa chegada, a negociação foi muito mais interfamiliar do que da gente com eles. Eles ficaram receosos de tocar no assunto novamente. A gente estava preparado para ele não falar, mas ele realmente queria falar, até mesmo contra a família dele. A mulher dele já tinha jogado fora até as fotos. Mas ele queria contar essa história. O Simonal acabou virando o X9, mas o cara também virou o contador ladrão, nunca mais foi contratado como contador, todos caíram, as familias sofreram. São dois dramas. Quando você entra
(06:38:02) Claudio e Calvito: A gente sempre tentou tornar o produto pop, queríamos transportar esse apelo à época, a gente sempre quis mostrar isso de uma maneira legal, não queríamos mostrar fotos estáticas. As animações com fotos funcionam como respiros e transportam para a época, além de eu e o Micael sermos da área da publicidade (Calvito). A gente queria um jeito que a foto ficasse interessante, então encontramos uma parceira da Pavê, que tem bom gosto e ficou muito legal. Todas nossas parcerias entraram pelo projeto, ninguém entrou porque pagava bem. A galera entrou por estar a fim de estar no projeto. A gente agregou muita gente, como o Bernna Ceppas, que fez a trilha original. Todo mundo veio pelo negão. E fizeram um trabalho maravilhoso e muito elogiado. Tudo agregou valor.
(06:43:30) junior: Calvito, como as imagens do Simonal cantando para a Seleção Brasileira chegaram até vocês? Foi depois de o filme já estar pronto, né?
(06:46:01) Claudio e Calvito: Junior, sim! Foi a única alteração que fizemos desde que estreamos no É Tudo Verdade. A gente tinha fotos, mas conseguimos essas imagens do Canal 100. Para quem não sabe, o Simonal participou da delegação da Copa de 70, quando vimos essas imagens, tivemos que colocar.
(06:46:40) zeca: Além do torturado, qual entrevista foi mais complicada de ser conseguida? Pq?
(07:02:04) Claudio e Calvito: Zeca, boa pergunta. Acho que as mais complicadas foram as não conseguidas. Teve o Miele que estava com pneumonia, mas teve a maior boa vontade. O Pelé por causa da agenda. Acho que a galera do Pasquim foi "macha", o Ziraldo e o Jaguar, que eram antagonicos ao Simonal deram a cara, colocaram seus pontos de vista. Acho que a maior complicação mesmo foi tentar convencer essas pessoas, teve alguns que não cederam. O mais difícil na verdade foi encontrar as imagens de arquivo, fomos em todas as televisões, procuramos tudo. Encontrar é complicado, negociar é complicado, não há um mecanismo de negociação, tem que pedir todas as autorizações. Tem a participação da Sarah Vaughan, que necessitou de uma autorização com baseem legislação internacional. Para tudo existe muito empecilio, vc não consegue nada sem advogados.
(06:47:05) thiago: È verdade que o catálogo dos discos do Simonal será relançado? É uma ação conjunta ao lançamento do documentário?
(06:56:00) Claudio e Calvito: Thiago, o Max e o Simoninha pode falar mais sobre isso. Vamos ter o CD com a trilha do documentário. Mas tem um certo revival do Simonal ultimamente. Desde de "Cidade de Deus", que teve uma música dele, o Simonal pipoca aqui ali. Thiago, segundo EMI e Max de Castro que estão aqui, serão relançados os discos da EMI e mais algumas coisas.
(06:51:16) PATY: Documentário é um tipo de filme q parece pouco valorizado no Brasil. Vocês acham possível reverter essa situação?
(06:58:08) Claudio e Calvito: Paty, o documentário brasileiro não é tão pouco valorizado, temos muita coisa boa. Temos uma produção muito legal, mas falta espaço, mais de 90% das cidades brasileiras não têm cinema. Meu sobrinho veio para o lançamento do documentário, ele tem 15 anos, e ficou super empolgado, me pediu uma lista de bons documentários para a garotada ver, que são divertidos. Mas as pessoas ainda associam documentário a uma coisa chata, por isso tivemos essa preocupação de transformar esse filme numa coisa pop.
(06:58:38) gato23: qual foi o pior ano pra wilson na ditadura militar?
(07:04:15) Claudio e Calvito: Gato, acho que o ano que mais pegou foi a partir de 71, quando começa esse troço do contador. Em 72 ele foi julgado, cumpriu pena e depois saiu com habeas corpus. Depois de 74 a 90 ele apanhou muito. Foram mais de 30 anos de pena. Talvez 15 anos depois tenha sido mais complicado. Talvez tb depois que ele tentou voltar, já em 92, e sofreu tudo novamente.
(06:51:46) Claudio e Calvito: Todos que estiveram envolvidos na ditadura foram perdoados, ele foi esquecido. O Nelson Motta falou sobre isso no Jornal da Globo recentemente. O Simonal foi apagado da história, foi um processo muito único. Outro sintoma foi que os meios de comunicação estavam sob censura e, então, o execraram.
(06:53:39) Claudio e Calvito: A única denúncia que houve de tortura que se teve na imprensa em 1970 foi o caso do Viviani, o caso Simonal. Pra quem não sabe, nessa época era governo Médici, o governo mais duro, que mais repreendia e torturava pessoas. Em qualquer search na internet você pode perceber isso. Ninguém imaginou que a imprensa publicaria uma matéria contra o Dops, a idéia de dar uma surra no Viviani poderia ser ótima.
(07:05:32) Claudio e Calvito: Hoje tem a pre-estreia gratuita aqui em São Paulo, no Cine Bombril. Dia 15 de maio estreia em circuito. Vá no primeiro fim de semana!
(07:06:53) Moderador/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Claudio Manoel e Calvito Leal e de todos os internautas. Até o próximo!