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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Matheus Nachtergaele - 09/06/2009 às 17h00

Matheus Nachtergaele

Ator conversa sobre "A Festa da Menina Morta", que marca sua estréia na direção de cinema. O filme narra a história de Santinho (Daniel Oliveira), alçado à condição de líder espiritual numa comunidade ribeirinha do alto Amazonas, a partir de um "milagre" realizado por ele após o suicídio de sua própria mãe. O longa chega aos cinemas na sexta (13), mais de um ano após a exibição na mostra "Um Certo Olhar" do Festival de Cannes. Nachtergaele já atuou em cerca de 20 filmes desde o fim dos anos 90, entre os quais se destacam "O Auto da Compadecida", "Árido Movie", "Cidade de Deus" e "Amarelo Manga".

  • Assista ao trailer do filme
  • Metrópolis: Filme participa do Festival de Cannes 2008
  • Em Cannes, público sai da sala ao ver incesto no filme
  • Rito de fé inspira Nachtergaele em estréia na direção
  • Arquivo: revista "Trip", de 2003, traz entrevista com o ator
  • Participaram do Bate-papo 263 pessoas


    (05:01:09) carola: oi matheus, td bem?

    (05:01:12) Matheus: Olá pessoal, aqui é o Matheus Nachtergaele e é um grande prazer estar com vocês

    (05:01:15) cocota: oi, matheus! pq e como escolheu um tema tao diferente e regional pra fazer seu 1o longa? algum motivo especial? de onde surgiu a ideia?

    (05:01:53) Matheus: Cocota, eu sempre fiquei muito impressionado com a capacidade que as pessoas tem de acreditar. Eu acho que a religião é uma tentativa maravilhosa e terrível de dar sentido à vida e quis fazer um filme que fosse o retrato íntimo dos participantes de uma seita bem brasileira.

    (05:01:57) alice: vc ficou surpreendido por algumas pessoas terem saido da sala em cannes? esperava esse tipo de reaçao? alias, qual reaçao esperava qdo fez as cenas de incesto?

    (05:03:17) Matheus: Oi Alice, a cena é a única de amor do filme. Pai e filho foram abandonados pela mãe, por isso estão juntos. Em Cannes, algumas pessoas saíram durante a sessão, mas não especificamente nessa cena. A sala tinha 800 lugares e eu contei nos dedos... 6 pessoas sairam. Alice, continuando, em Cannes, muitos filmes são exibidos ao mesmo tempo. Às vezes alguém sai porque tem outro compromisso, para ir ao banheiro ou porque não gostou do filme. Não se pode agradar a gregos e troianos...

    (05:06:01) alice: matheus, assisti ao filme ja. fiquei chocada com algumas cenas como a do porco. foi intencional?

    (05:07:54) Matheus: Alice, eu sempre achei o som do grito do porco na hora do abate muito impressionante. Quis colocar no filme essa sensação de agonia. Gravamos o som dos gritos separadamente e colocamos na cena em que Tadeu vem falar com o Santinho e quer sair da seita. O som do porco ajuda a criar o clima de tensão entre os dois personagens.

    (05:08:09) Oaxiac Odéz: "A Festa da Menina Morta" tem toques de suspense e cenas fortes, realizar uma fita com essa temática ajuda na composição do cineasta José Mojica Marins em "Maldito"?

    (05:09:07) Matheus: Oaxiac, não vejo relação entre O Maldito e o meu filme. De qualquer forma, estou animado em viver no cinema o personagem do Mojica.

    (05:09:17) Minguita: Qual seu método a fim de compor um personagem?

    (05:10:52) Matheus: Minguita, cada personagem exige um processo próprio e particular. Também as diferentes mídias pedem processos diferentes, mas se eu pudesse resumir, preciso sempre encontrar um ponto forte de conexão entre personagem e eu mesmo. Cada papel tem uma casca, um sotaque etc. Mas todos se parecem comigo.

    (05:10:57) joca: boa tarde matheus! como vc encontrou essas pessoas? conhecia alguma "seita" como essa no amazonas ja ou escolheu o local independente disso?

    (05:12:32) Matheus: Joca, escolhi a Amazônia porque lá convivem, num lugar muito afastado de tudo, quase todas as religiões que formam a fé do povo brasileiro. Queria que a menina morta juntasse em si traços do catolicismo, do candomblé, das religiões evangélicas, do espiritismo e da pajelança indígena.

    (05:12:43) cocota: pq a demora pra sair o filme aqui no brasil? um ano apos ser exibido em cannes?

    (05:14:22) Matheus: Cocota, nós viajamos muito com o filme, pelo Brasil e por festivais internacionais e esperamos um momento em que eu estivesse disponível para lançar e acompanhar as estreias do filme. Claro que falta de dinheiro também nos fez esperar um pouco mais do que eu gostaria para estrearmos. Mas o filme fez uma linda carreira e isso deve atrair pessoas que gostam de cinema de arte.

    (05:14:29) cumplice: senti uma pegada glauber rocha. to viajando? vc se inspirou nele? gosta do cinema feito por ele?

    (05:15:22) Matheus: Cumplice, eu admiro o trabalho do Glauber e acho que meu filme também é barroco. É um épico. Mas não me inspirei em nenhum filme específico para fazer o meu.

    (05:15:24) CHACAL: Matheus, Boa tarde. QUal a sensação de assistir ao filme depois de ter tido tanta participação nele? Foi de orgulho, chocado, ou critico?

    (05:17:16) Matheus: Chacal, me sinto muito ansioso, orgulhoso, quando vejo uma sessão do filme. Tanta energia tem de ser movida, pra que um filme exista. Tantas pessoas se envolvem no processo... Chacal, acho que é isso: um misto de ansiedade, surto e alegria.

    (05:17:18) haroldo: oq sua experiencia como ator ajuda na hora de dirigir alguem? fica mais facil?

    (05:18:39) Matheus: Haroldo, fui um diretor de atores muito obsessivo. Trabalhamos durante quatro semanas, seis horas por dia. O fato de eu ser ator, criou uma exigência muito grande em mim e no elenco. Eles se entregaram de maneira maravilhosa. Foi a melhor parte do trabalho - dirigir os atores.

    (05:18:42) Maria bahiana: Admiro seu trabalho, acho super bacana o seu jeito de ser e interpretar, so gostaria de saber, com sinceridade, vc nao acha cedo demais pra esta atras das cameras??

    (05:20:14) Matheus: Maria Bahiana, faz dez anos que eu trabalho no filme. Dirigi quando me senti seguro. O filme também é um aprendizado para mim, mas não acho precoce. Fiz cerca de 30 longa-metragens nos últimos anos, me pareceu natural tomar coragem e contar uma história minha.

    (05:20:19) Minguita: Qual a maior diferença entre atuar e dirigir? Com a experiência em "A Festa da Menina Morta" qual dessas atividades é sua favorita?

    (05:21:38) Matheus: Minguita, são atividades distintas, mas complementares. Ambas me deram prazeres e sofrimento. Não saberia dizer se prefiro dirigir ou atuar, mas em ambas as posições eu procurei sempre ser honesto, estar entregue e atento.

    (05:21:39) haroldo: ainda falanod sobre a experiencia de dirigir... como foi trabalhar com atores profissionais e amadores (desculpe se algum daquela regiao era ator profissional mesmo, mas nao conhecia). é mais dificil lidar com esses diferentes "niveis de tecnica de atuacao"? prefere dirigir um ao outro?

    (05:23:16) Matheus: Haroldo, eu gostei muito de trabalhar com um elenco experiente misturado a um elenco estreante. E procurei, nos ensaios, transformá-los num grupo coeso... O resultado me pareceu bacana, todos, cada um a seu modo, estão visceralmente fazendo o mesmo filme.

    (05:23:22) Cris: Olá Matheus,voce acha que os filmes nacionais não são valorizados aqui no Brasil?

    (05:24:23) Matheus: Cris, acho que o cinema norte-americano, pro vários motivos, ocupa um espaço muito grande nas nossas vidas. Mas acho que o brasileiro, pouco a pouco, tem se apaixonado pelo cinema daqui.

    (05:24:45) dede: ola. Não vi o filme mas estou muito curiosa pelo que tenho ouvido falar. vai mesmo passar esta semana na tv paga? Onde?

    (05:26:06) Matheus: Dede, até onde eu saiba, estreamos dia 12 de junho nos cinemas. Em SP< RJ, BH, Brasilia e Porto Alegre. Não estou sabendo dessa história de TV aberta...

    (05:26:11) cumplice: oi, matheus! tudo bem... pode ser a unica cena de amor. ainda assim, é incesto. nao imaginou que as pessoas pudessem se chocar? especialmente fora do brasil onde, teoricamente, tudo é mais careta?

    (05:27:25) Matheus: Cumplice, imaginei, claro. Mas um filme, ou pelo menos, um bom filme, sempre carrega em si um escândalo. O cinema é um dos últimos lugares que nós temos para lidar com temas difíceis com coragem e liberdade. Foi o que eu fiz.

    (05:27:33) CHACAL: Matheu Boa Tarde. Já assisti Filmes em que participou. É notório a sua entrega ao personagem. Vc, como diretor deste, tentou passar a mesma "Devoção" ao personagem aos atuantes no longa?

    (05:29:39) Matheus: Chacal, é claro que o ator que eu sou acabou aparecendo na minha direção. Tive a sorte de ter comigo atores muito corajosos e com capacidade de se entregar visceralmente ao personagem. O ator que eu sou aparece sim no trabalho dos atores que dirigi.

    (05:29:42) lambe-lambe: Matheus, boa tarde! Você é um ator super preocupado com a realidade brasileira. Hoje, diante de tantos desabores, você acredita que continuamos a ser o país da delicadeza ou a perdemos?

    (05:31:03) Matheus: Lambe-lambe, o projeto humano me parece ainda muito longe de ser concretizado. Poderíamos viver muito mais felizes, mas, por algum motivo sombrio, o ser humano se machuca e magoa. Mas meu coração ainda tem esperanças de um dia ser tudo que quero...

    (05:31:21) Oaxiac Odéz: Vc só fez 2 novelas e algumas minisséries e especiais de tv sempre com personagens marcantes. Qual motivo de vc se dedicar pouco a atuar em tv?

    (05:32:53) Matheus: Oaxiac, eu fiz e faço muita televisão! Mas uma novela te retira do mundo por muito tempo, e eu gosto muito de fazer cinema e teatro. Procurei escolher com calma, trabalhos em TV que me dessem alegria, nos quais eu acreditasse, e guardar algum tempo para fazer outras coisas que eu considero importantes e urgentes.

    (05:32:56) capitao: li em uma entrevista na trip que sua mae morreu e me pareceu que hj vc lida bem com esse fato. em algum momento houve um paralelo seu com santinho?

    (05:34:26) Matheus: Capitão, Santinho é, de alguma forma, meu alterego. Ele e eu somos órfãos de mãe e também mestres de cerimônia. Um filme, é sempre um depoimento. Conto o mundo que vi e ainda busco superar o luto.

    (05:34:46) Giannini: Oi Matheus,td certo? Eu queria saber se como diretor vc usa algum tipo de preparação com os atores antes da filmagem.

    (05:35:29) Matheus: Giannini, além dos ensaios e da marcação de cena, na hora de filmar nos damos as mãos e ficamos alguns minutos em silêncio.

    (05:35:32) Paolo: Matheus, o que vc acha dessa onda de não-atores? isso prejudica classe dos atores?

    (05:37:13) Matheus: Paolo, nos últimos anos não-atores foram essenciais para o cinema brasileiro. Nosso cinema se arrisca numa trilha entre a ficção e a realidade. Vivemos num país múltiplo e com muitos problemas. Eu, pessoalmente, escolhi mesclar atores e não atores para o meu filme. Acho que podemos conviver...

    (05:37:18) Karina: Mateus, o que você acha que está faltando pra que todos os esados brasileiros possam ter acesso ao cinema, aos filmes produzidos no Brasil?

    (05:38:52) Matheus: Karina, realmente temos poucas salas de cinema, um país gigantesco e uma plateia ainda em formação. Isso tudo também me entristece e eu gostaria muito que cada cidade, por menor que fosse, tivesse seu cinema e visse nossos filmes.

    (05:39:04) Lucas Smitt: "Na Quadra das Águas Perdidas" é um projeto do qual vc tem muito carinho, como estão as negociações para ele se realizar?

    (05:40:40) Matheus: Lucas, Na Quadrada das Águas Perdidas é o filme de estreia de Wagner Miranda e Marcos Carvalho. Eles estão agora captando recursos para finalizar o material filmado. Eu estou torcendo pra que eles consigam fazer isso logo, mas sabe como é, estamos no Brasil...

    (05:40:43) lambe-lambe: Matheus, quais autores hoje te inspiram para voltar aos palcos do teatro?

    (05:41:45) Matheus: Lambe-lambe, gosto de tantos autores... Adoro Tchekov, Nelson Rodrigues, Samuel Beckett...

    (05:41:49) Bruninhah: matheus seus papeis são todos muito bons adoros todos principalmente o personagem "Quinzinho" no filme "tapete vermelho"...Mas e vc que personagem que vc fez mas te agradou ???

    (05:43:10) Matheus: Bruninha, gosto de todos os personagens! Seria como escolher entre filhos. Cada um me dá orgulho por algum motivo. Eu também adorei viver o Quinzinho e homenagear o Mazzaroppi.

    (05:43:14) isabela rodrigues: Matheus! Tudo beem ? Queria saber quanfo surgiu a ideia de dirigir um filme e como foi os planos até a ideia se concretizar ?

    (05:44:49) Matheus: Isabela, em 1999, depois de fazer O Auto da Compadecida, escrevi num caderno a primeira versão do roteiro. Vânia Catani leu esse texto, gostou e em 2001 inscrevemos o texto num edital do extinto ProCine. Ganhamos o primeiro dinheirinho e começamos a produzir o longa. Você vê, dez anos até chegarmos aqui...

    (05:44:57) Jose Francisco: O que você espera dos formadores de opiniões sobre o filme?

    (05:46:27) Matheus: Jose Francisco, espero que as pessoas assitam com carinho e com coragem o filme, e que consigam visualizar o lugar poético que ele ocupa. Também espero que me ajudem, todos vocês, na primeira semana de exibição, que é quando os exibidores decidem o tempo do filme em cartaz.

    (05:46:46) lucio queiroz: matheus boa tarde.. qual é o segredo pra tanto sucesso em sua carreira??

    (05:48:48) Matheus: Lucio, procurei estar apaixonado por cada projeto e esquecer do chamado capitalista. Procurei observar o sentido e a vocação de cada projeto, sem pensar somente em grana. Talvez seja isso, estar de coração aberto e se entregar a cada experiência escolhida.

    (05:48:52) beto: o que vc acha da revisão da Lei Rouanet e se acha correto uma divisão mais democra´tica de incentivos para a cultura de um modo geral, sob uma perspectiva de Brasil, saindo do eixo RJ SP?

    (05:50:47) Matheus: Beto, temos de abarcar o Brasil como um todo, distribuir as verbas por esse território imenso para que todos nós possamos ter direito de retratar esse país e nos comunicarmos artisticamente. A arte é um direito e sem leis de incentivo, os melhores trabalhos que fazemos não poderiam ser feitos.

    (05:52:47) Matheus: Um beijo pra todos, adorei o papo! E agora vou ter de ir para o cinema, que hoje tem pré-estreia aqui no Rio, no Unibanco Arteplex. E eu tenho de estar bonitinho e animado. Aguardoi vocês na Festa da Menina Morta, que entra em cartaz dia 12, no Rio, em São Paulo, em Porto Alegre, em BH e em Brasilia. Depois viaja para outras cidades. Um beijo e obrigado.

    (05:53:01) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Matheus Nachtergaele e de todos os internautas. Até o próximo!


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