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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Luiz Mendes - 11/07/2006 às 17h00

Luiz Mendes, o ex-detento teclou a respeito de seu novo livro:

Colunista da "Trip" falou sobre seu novo livro "Cela Forte", que reúne crônicas baseadas na realidade das ruas.

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  • (05:04:15) Luiz Mendes: Boa tarde para as pessoas que estão ligadas no ar. Vamos às perguntas. O que vocês têm pra perguntar?
    (05:05:13) ana: Oi Luiz, o que traz seu novo livro?
    (05:05:47) Luiz Mendes: ana, são 23 contos. Cada um tem começo, meio e fim. Todos eles falam sobre erotismo e violência.
    (05:06:34) joao pedro 10 anos: ola
    (05:07:06) Luiz Mendes: joao pedro 10 anos, devolvo o seu 'olá'. E um abraço... João Pedro? Não sei quem você é.
    (05:07:12) luluzinha: quanto tempo voce ficou preso
    (05:07:55) Ricardo: Luiz,olá, Te admiro pacas. Quando Cela Forte estará nas livrarias?
    (05:08:03) Luiz Mendes: luluzinha, fiquei preso por 31 anos e 10 meses. Na minha época, começava na Casa de Detenção, o extinto Carandiru.
    (05:08:25) Luiz Mendes: Ricardo, estimo que em agosto, segundo o cronograma da editora.
    (05:08:41) Felipe_Tijuca: Como é viver preso? Luiz Mendes e o que você tirou disso?
    (05:08:48) Luiz Mendes: Ricardo, e agradeço a sua estima.
    (05:10:17) Luiz Mendes: Felipe, viver preso é viver sem liberdade. Liberdade, em primeiro lugar, é ficar longe das pessoas que você gosta. Ficar preso é ficar juntos de pessoas que têm problemas como você tem. E as pessoas presas querem descarregar as suas angústias em você. Não dá pra tirar lição nenhuma do período em que fiquei preso, mas aproveitei o tempo para me formar como pessoa.
    (05:10:19) ana: Luiz, por que vc fala só de violência e sexo em seus livros?
    (05:11:17) Luiz Mendes: ana, provavelmente porque eu só vivi isso. Não dá pra falar de algo que a gente não vive. Em contra partida, estou vivendo coisas boas, agora. Aguarde que os próximos livros terão coisas boas.
    (05:11:27) Fofuri: Luizinho: onde ha mais solidao: no xis ou na sua casa, escrevendo?
    (05:12:14) Luiz Mendes: E, ana, ainda tem mais uma coisa: a violência é algo negativo, sim. Mas eu trabalho a violência para previnir a minha agressividade. E sexo é uma necessidade do ser humano. Falar de sexo é muito saudável. Falo de sexo sem ser pornográfico.
    (05:13:55) Luiz Mendes: Fofuri, na prisão a solidão é obrigatória. Muitas vezes, a solidão na cadeia é uma necessidade. Acho que vocês sabem que a cadeia é coletiva, hoje... Solidão na cadeia é bem-vinda, mas é bem rara. Eu gosto da solidão. Em liberdade, a solidão é uma opção. E quando eu escrevo, eu não estou sozinho. Estou com todos que me lêem.
    (05:14:02) Robson Canto: Luiz fale um pouco sobre o novo livro Cela Forte
    (05:16:34) Luiz Mendes: Robson, eu tinha um livro que eu chamada de 'Cela Forte'. Saí da cadeia com ele pronto, com 50 contos. Apresentei a obra ao meu editor. Ele gostou e dividiu os textos em duas partes. Ele dividiu em dois livros: 'Cela Forte', que sai agora. Mais tarde vai sair um provável 'Cela Forte 2'. Depende da pegada do primeiro livro, daí decidimos o nome do segundo livro. E estou trabalhando em cima destes textos para tranformar a obra numa peça de teatro.
    (05:16:45) Ricardo: Como você vê esse problema na cadeia de araraquara, que tem capacidade para 140 pessoas mas abriga mais de 1500?
    (05:21:17) Luiz Mendes: Ricardo, já estive preso em Araraquara. Passei por ela duas vezes, nos meus 30 anos de cadeia. E esta penitenciária era tido como modelo. Tinha celas individuais com oficinas para os presos trabalharem. Com o tempo, as celas individuais passaram a abrigar 2, 3, 5, 10 pessoas... Ontem vi uma cena dos homens amontoados no pátio, no frio. Estava chovendo, ontem, e eles só de cueca. Muita gente diz que eles destruiram o material do Estado. E o que o Estado faz com o homem?? É um problema de troca de violência. Para combater isso, era preciso melhorar a cultura social do preso. Isso vai estourar!! É como colocar um esparadrapo numa bola de futebol: o remendo não aguenta. Claro que isso vai resultar em mais violência. O que se faz com o regresso? O preso sai da cadeia e não tem para onde ir, onde trabalhar, o que comer... É um buraco. Daí vem o índice de reicidência, que é de 70%. Eu batalhei na cadeia e consegui uma profissão. Não sei o que seria de mim, se não fosse o meu trabalho que faço.
    (05:21:29) Felipe_Tijuca: Luiz Mendes você como leitor admira quem?
    (05:23:06) Luiz Mendes: Felipe_Tijuca, eu gosto muito de Bichoviski e Érico Veríssimo. Gosto de Satre, também. Adoro Rachel de Queirós e Clarisse Lispector. Tenho lido Douglas Rufato. Estou conhecendo alguns escritores novos do Brasil.
    (05:23:10) Luz Vermelha: A mente de um ser humano depois da prisão , nunca mais será a mesma ?
    (05:24:06) Luiz Mendes: Luz Vermelha, a mente de ninguém é mesma. Existia um filósofo que diz que a água de um rio nunca é a mesma. Tudo depende de como o detento se porta.
    (05:24:32) Homem: qual e o seu livro favorito
    (05:24:52) Luiz Mendes: Luz Vermelha, será que o seu pensamento é o mesmo quando me fez essa pergunta? Tudo se transforma. Somos seres acumulativos.
    (05:26:23) Romulo: O tempo q vc ficou preso, influi em q sentido nos seus livros?
    (05:26:34) Luiz Mendes: Homem, o meu é 'Memórias de um Sobrevivente', falando daqueles que eu escrevi. Tem um livro que me impressionou demais 'Escuta Zé Ninguém'. Também gosto de um livro chamado 'A Semente de Mostarda'. Satre escreveu uma trilogia de romances que eu adoro.
    (05:27:45) Luiz Mendes: Homem, também estou lendo "O Monge e o Executivo", e estou adorando. Eu vivo lendo. Leio, em média, 4 ou 5 livros ao mesmo tempo.
    (05:29:31) Gil: Luis Mendes na sua opinião e, parecendo bem informado e lúcido entende que os nossos políticos, os engravatados de brasília são muito diferentes daqueles homens que estão em araraquara ou em outros presídios?
    (05:29:41) Luiz Mendes: Romulo, influenciou totalmente, mas principalmente porque me deu maior compaixão ao sofrimento humano. Eu não tinha isso, aprendi isso na prisão.
    (05:30:38) Luiz Mendes: Romulo, ninguém ensinou a gente a sofrer. Cada um tem a sua reação e solução para suas dores. Queria estudar mais sobre isso. Queria saber mais como as pessoas reagem às suas dores.
    (05:32:29) jorge: vc tem outros projetos fora da literatura?
    (05:32:38) Luiz Mendes: Gil, há uma diferença enorme: no presídio de Araraquara tem gente que começou ontem, e logo foi criminalizado. Já os políticos não sofrem pelo que fazem. Vamos exemplificar: seria justo à pena de morte se a vítima também sofresse a pena, os anos de espera no corredor da morte. Não é justa à pena de morte sem esse artifício. É só pensar no que eu falei.
    (05:34:24) Kornfap: Oi! onde axo seu livro na net?
    (05:40:00) Luiz Mendes: jorge, puxa... Projeto é o que eu mais tenho. Estou trabalhando para cinema. Presto consultoria para um grupo chamado Estômago. Tem uma parte do texto do filme que fala sobre a prisão. O meu primeiro livro, 'Memórias de um sobrevivente' foi vendido para o cinema, e trabalharei como co-roterista dele. Estou no teatro, também, com a peça 'A Passagem'. O espetáculo vai ser dirigido pelo Mário Bortholoto e produzida pelo Mário Sérgio. A peça está prevista para 1 de março de 2007. E estou trabalhando com um outro diretor com o texto de 'Cela Forte'. Espero concluir em breve este trabalho. Agora televisão: acabo de receber um telefonema de um repórter que está dirigindo um programa chamado "Crônicas de São Paulo". Existe uma idéia de eu entrevistar pessoas envolvidas com projetos sociais. Eu vou entrar como repórter e o texto. O pessoal da rede Record quer ver o que já fizemos. Eu já vi umas partes, acho que ficou bem bacana. Entrevistei pessoas da rua, que recebem uma sopa toda semana. Quem quiser ler um pouco dos
    (05:40:00) Cid: Qual era sua profissão antes da prisão! você acha que o o que voce fazia antes da prisão te ajudou a melhorar como ser humano!
    (05:42:07) Luiz Mendes: Cid, eu era assaltante antes de ser preso. Isso só me ajudou a piorar como ser humano. Hoje, a coisa é diferente. Os detentos são ex-trabalhadores, que se envolvem em crimes pela situação da nossa sociedade. Os novos criminalistas estudam porque as outras pessoas não roubam, devido à situação que vivemos.
    (05:42:13) Felipe_Tijuca: Luiz Mendes você tem muitas lições de vida, qual você tira? para exemplo de si próprio?
    (05:44:16) Luiz Mendes: Felipe, vou contar uma pequena história: nunca pude falar para os meus filhos que eles poderiam me seguir, como todo pai almeja. Eu não queria desejar para os meus filhos que fossem bandidos. Conversando com o meu menino mais velho, ele disse que seria escritor, como o pai. Isso encheu o meu coração de alegria e gratidão. Estou cheio de algreia podendo reverter a minha vida. Nem todo mundo pode reveter o que fez, eu pude.
    (05:44:18) Robson Canto: Ler em média 4 ou 5 livros não confunde um pouco tua mente?
    (05:45:08) Luiz Mendes: Robson Canto, (risos) Robson, meu amigo, confundiria se eu tivesse uma mente só. Mas como sou várias pessoas, não me confunde nenhum pouco.
    (05:45:21) Ricardo: Luiz, pode nos contar se sente saudades de alguma coisa da época da cadeia? Acredito que a sua resposta seja não, mas pode ser que seja sim...
    (05:46:49) Luiz Mendes: Ricardo, eu tenho saudades, sim. Sinto falta dos meus amigos. Mesmo que eu lá estivesse, não poderia revê-los. A maioria deles, a polícia matou. Saudades impossíveis.
    (05:46:53) Alphaville ( H ): quando vai sair o livro dele
    (05:47:46) Luiz Mendes: Alphaville, o cronograma da editora fala em agosto, mas não sabemos o dia. O site da editora é www.geracaoeditorial.com.br. Pergunte para eles. Talvez já saibam a resposta.
    (05:47:55) Romulo: A pessoa qdo é presa na sua opinião, o estado consegue trazer ela devolta ao meio social? e se não consegue qual seria o melhor meio disso acontecer? Através de qual instituição ou órgão?
    (05:48:33) Luiz Mendes: Alphaville, o lançamento, segundo os editores, será feito na livraria FNAC da Av. Paulista. Na época, vamos falar a data e o horário.
    (05:50:01) Luiz Mendes: Romulo, se eu tivesse uma resposta pra isso, eu seria o gênio que resolveria o maior problema da sociedade atual. Mas há um caminho, que é sem violência. Para o caos que está agora, não sei. A prisão nada mais é que o reflexo do Brasil fora da prisão.
    (05:50:07) Alphaville ( H ): eu Sou o Agnaldo: ele vai autografar o livro dele aonde???
    (05:50:46) Luiz Mendes: Alphaville, na FNAC da Av. Paulista. Ainda não sabemos a data, mas na ocasião vamos anunciar.
    (05:52:51) Luiz Mendes: Para me despedir, gostaria de dizer para as pessoas que vão lê-lo, esquecerem que eu fui um detento. Quero que todos vejam a minha capacidade de escritor. Ter sido preso é um 'desvalor'. Isso não me coloca em nenhuma posição de glória. Eu ser conhecido como autor, é bem melhor, não é? Se não quiserem me ver como autor, leiam-me como se eu fosse uma pessoa normal e absorvam o que eu quero escrever. Desejo que todos sejam felizes.
    (05:53:34) Adriana/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Luiz Mendes e de todos os internautas. Até o próximo!
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