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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Fernando Morais - 10/06/2008 às 17h00

Escritor comentou o lançamento de "O Mago", a biografia de Paulo Coelho que traz a promessa de detalhes sórdidos e inéditos da vida do autor de "O Alquimista" e "Diário de um Mago". Lançado pela editora Planeta, o livro deve ser publicado em outros 40 países. O jornalista falou também sobre as adaptações de suas obras para o cinema e criticou a censura que Roberto Carlos impôs à sua biografia.

  • Morais descarta biografar outros artistas vivos
  • Leia mais sobre o livro "O Mago"
  • Biografia expõe vida sexual de Paulo Coelho
  • Fotos da trajetória de Paulo Coelho
  • Paulo Coelho comenta relação com críticos
  • Assista ao papo na íntegra:

    Participaram do Bate-papo 390 pessoas


  • (05:09:08) Fernando Morais: Eu já tinha feito dezenas de horas de gravação com o Paulo Coelho, tinha acompanhado ele pelo mundo, morado oito vezes pelo Rio entrevistando cem pessoas que conviveram com ele ao longo da vida, quando li em seu testamento duas linhas que diziam que em sua casa havia um baú trancado com dois cadeados que deveria ser incinerado com todo o conteúdo sem ser aberto após a sua morte. Eu liguei para ele pedindo as chaves para ver o que tinha naquele baú. Ele me despistou dizendo que tinha coisas de infância, brinquedos e garatujas, nada que influênciava na biografia que foi combinado de ele só ler depois de impressa. O Paulo gosta de fazer desafios às pessoas de seu cotidiano. Então ele me propôs descobrir quem foi o militar que o prendeu em um quartel do Exército em agosto de 1969. Não era difícil descobrir, pois sabia a patente, a data e fiz pesquisas nos arquivos do Exército. Acabei descobrindo e envei as fotos para Paulo e ele me mandou as chaves. Era uma arca de navio de 1,70m de comprimento com 170 cadernos grossos e mais de cem fitas de vídeo com 40 anos de diários do Paulo Coelho. Dos 10 anos aos 50, tudo o que fez, o que sentiu, pensou, sofreu e mentiu, ele anotou ou gravou. Eu joguei as minhas 200 páginas no lixo e o livro renasceu com outra perspectiva.

    (05:11:06) Fernando Morais: Ele terminou de ler a biografia ontem. Eu estava fazendo o lançamento da biografia na livraria Cultura quando chegou um bilhete dando os parabéns pelo trabalho e que estava esperando a devolução dos diários porque ele iria queimá-los. Achei o bilhete seco demais para quem conviveu quatro anos de perto. Isto cria laços afetivos. Eu passei quatro anos fuçando tudo dele, suas coisas pessoais. Então isto acaba criando laços afetivos inevitavelmente, deixa de ser uma relação emocional. Ao escrever a biografia eu sofria, pois ao encontrar alguma ferida ou algo como um gesto ou comportamento que é condenado pela sociedade, me perguntava se eu teria o direito de dizer no livro submetendo o leitor a uma auto-censura. Mas não podia impôr ao livro uma censura que o Paulo não impôs a mim.

    (05:13:53) Fernando Morais: Muitas vezes isto é um trabalho de detetive. Por exemplo, contando outra passagem do livro, uma curiosidade muito grande que havia e foi satisfeita ontem com a leitura do livro. Em uma segunda-feria de carnaval ele atropelou um garotinho quando jovem e não tinha carteira de motorista. O menino ficou entre a vida e a morte durante alguns dias e o pai do menino com o revólver ficou em frente a casa deles dizendo ao pai do Paulo que se o filho dele morresse o Paulo também morreria. Foram alguns dias de terror até o menino se recuperar. E ele tinha muita curiosidade de saber que destino havia tido o menino. Eu fui fazer um trabalho de detetive, fui para Araruama atrás de arquivos públicos, BOs de delegacias etc. Descobri que na segunda-feira de carnaval nos anos 50 o Paulo atropelou o menino e por um fio, por um nada, o menino sobreviveu. Exatamente 40 anos depois em uma segunda-feira de carnaval, o menino já adulto, pai de família, é sequestrado de dentro de casa, torturado e queimado por bandidos. O Paulo deve ter ficado arrepiado com isso porque parece destino, o menino parece havia sido fadado a morrer em uma segunda-feira de carnaval.

    (05:04:06) Ardente: Fernando, tiveste alguma dificuldade em escrever a história de uma figura viva como o Paulo?

    (05:04:41) carola: oi Fernando, tudo bem? li em alguns lugares que depois da experiência em biografar o Paulo Coelho, vc não deseja mais fazer biografia de pessoas vivas. a experiência foi traumática?

    (05:16:50) Fernando Morais: Ardente e carola, ele foi a primeiro e será o último, uma coisa é mexer com papéis e outra coisa é mexer com sentimentos. Quando se lida com figuras de bronze, elas não têm alma ou osso. O Paulo tem mulher, pai, irmã e amigos. Então não quero mais fazer biografia de vivo. Apesar que nunca posso "dizer desta água não beberei", mas o que aprendi com este trabalho, não. Como quase todos os meus personagens, ele é fruto de uma curiosidade básica, como quem vive por baixo da pele da segunda pessoa mais traduzida depois de Shakespeare. A sua obra já foi esmiuçada pela crítica ao longo deste 20 anos. Eu queria a sua alma, não a obra. E ele é um personagem que foi me surpreendendo desde o primeiro encontro porque é um pop star.

    (05:19:09) Fernando Morais: Quando me encontrei com ele imaginava que fosse chegar uma limousine precedida de batedores com um séquito de puxa-sacos. E para a minha surpresa parou um táxi e desceu um sujeito com cara de padre. Sem guarda-costas ou assessores. Esta foi a minha primeira surpresa, a simplicidade. É um milionário, basta calcular pelos livros que vendeu. Então é o anti-milionário. Ele mora em um moinho abandonado de trigo em uma casa de três dormitórios, confortável, bonita, de bom gosto, mas sem nenhum luxo. Esta foi a primeira surpresa e depois fui tendo uma sucessão de surpresas e novidades.

    (05:26:03) Moderador/UOL:

    O escritor Fernando Morais no estúdio do Bate-papo UOL (crédito: Flávio Florido/UOL)

    (05:21:16) Fernando Morais: Sobre as críticas ao Paulo Coelho: O Nelson Rodrigues costumava dizer que a sorte dos dramaturgos é que é a crítica não conseque levar nem uma bactéria aos teatros. Eu diria que a sorte dos literatos, os autores de livros, é que eles não conseguem levar nem uma bactéria às livrarias. Quanto mais é sovado pela crítica mais vende livros. E o Tom Jobim costumava dizer que o brasileiro vê o sucesso de outro brasileiro como um assunto pessoal, recebe como uma bofetada, que gosta do fracassado e não de quem triunfou. O Paulo é querido, lido e admirado no mundo inteiro e no Brasil torcem no nariz para ele. No princípio ele sofria muito com isso. Hoje ele fica indignado quando alguém diz que o leitor dele é imbecil. Escreve até cartas para a redação. As críticas a ele mesmo, ele não sente mais.

    (05:06:39) Favorita: como surgiu o convite para escrever essa história???

    (05:23:29) Fernando Morais: Favorita, isto foi há quatro anos. Eu propus a editora Planeta, havia acabado de publicar um livro por esta editora e eles queriam outro projeto. A única observação da editora era que fosse um personagem não estritamente brasileiro porque a editora Planeta não é só nacional. Eu já tinha o nome do Hugo Chaves, de quem sou admirador e amigo. A editora topou, achou adequado o perfil. Fui a Caracas para falar com ele e descobri que ele já estava sendo biografado por outro brasileiro, o Bob Fernandes que deixou a direção da Carta Capital para fazer isso. Voltei ao Brasil, pensei no nome do João Pedro Stédile, o líder do MST, mas acharam prematuro. Daí pensei em Paulo Coelho e borbulhou, saltou um personagem que surpreendeu fartamente o autor.

    (05:07:00) carlos.r: é verdade que o paulo coelho gostou do livro... apesar de vc ter escrito TUDO TUDO dele?

    (05:25:37) Fernando Morais: carlos.r, ele leu a biografia ontem e me mandou um bilhete dando parabéns pelo profissionalismo e pedindo os diários de volta. Eu esperava elogios, mas só o fato de ele não brigar já está bom. Porque no lugar dele eu ficaria bravo ao divulgar fatos pessoais de minha vida. Eu tomei o cuidado de ser cuidadoso. Já tive problemas assim ao escrever "Olga", pois descobri que aos 37 anos o Prestes ainda era virgem. Então como tratar disso sem ser desrespeitoso, bisbilhoteiro. Porque não pode ser um livro de voyeurismo, de fofocas. Mas o que importa é que o livro não teve censura.

    (05:08:26) aurora: boa tarde fernando. Em sua entrevista no sérginho entre outras, vc.diz que quis escrever a bio do paulo primeiramente por motivo de curiosidade sobre a pessoa dele. Dentre os livros do paulo que vc. leu, qual vc. se identifica mais?

    (05:28:07) Fernando Morais: aurora, quando comecei a fazer a biografia só tinha lido "O Diário de um Mago" e "O Alquimista". Gostei dos dois, mas não virei um leitor voraz do Paulo por uma razão que só vim a compreender quando estava fazendo a biografia. Tem uma declaração do Humberto Eco, o Paulo escreve para quem acredita, para quem tem fé. Eu li todos os livros para fazer a biografia. Eu gosto, há irregularidades, tem livros que gosto mais. Particularmente gosto muito do "Veronika Decide Morrer", um romance no qual ele toma a própria experiência em hospício e romanceia, dramatiza a história, muda o sexo do personagem e o local, mas a essência é o sofrimento dele levando eletrochoque no RJ. Foi o livro que mais me tocou.

    (05:09:38) Marcia (FCPC): Oi Fernado, boa tarde. Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pelo seu lindo e precioso trabalho. Li toda a biografia e fiquei fascinada com a história do Mago contatada por um mestre como vc. A minha pergunta é a seguinte : Qual foi a parte que vc achou mais chocante na bio do Paulo Coelho?

    (05:30:33) Fernando Morais: Marcia (FCPC), tem várias. Se escolhesse uma só estaria sendo injusto com as outras. Tem coisas como sacrifício de animal para satisfazer o anjo da morte. O Paulo hoje é incapaz de matar um mosquito. Tem coisas como estimular namorada ao suícido. Um momento de covardia de sua parte foi quando ele e a namorada estavam presos no DOI COD. O Paulo estava sendo levado por um corredor e a sua namorada percebe que é ele e pede para ele dizer que a conhecia. Ele se acovarda e não tem coragem de dizer nada. Ele em seguida se desmorona, posto diante de sua covardia, entrando em um estado de depressão que é inacreditável que não tenha se matado.

    (05:31:43) Fernando Morais: A fé percorre a história dele do começo ao fim. Mas há outra característica que o livro me mostrou e vai mostrar aos leitores. É a obstinação. Dos dez anos aos 50 ele escreveu centenas ou milhares de vezes que quer ser um escritor lido e reconhecido no mundo inteiro.

    (05:11:35) luis: caro fernando, boa tarde. como é o seu processo de pesquisa sobre a vida de uma pessoa quando decide biografá-la? há uma ordem que costuma seguir?

    (05:33:18) Fernando Morais: luis, vai do bom senso, pegar o personagem principal e chupar até a última gota de sangue dele. Passei cinco semanas gravando com ele ou em sua casa ou em qualquer lugar do mundo por onde ele andava. Depois fui gravar as pessoas ao seu redor. Levantei esta massaroca de informação e voltei para a Europa para replicar com ele o que descobri. Sobre o baú, eu fiz mais uma rodada com ele para verificar o que tinha descobrido. Depois disso sentei mais de um ano fazendo os textos.

    (05:36:47) Moderador/UOL:

    O escritor Fernando Morais no estúdio do Bate-papo UOL (crédito: Flávio Florido/UOL)

    (05:19:11) dani: oi fernando, tudo bem? gosto muito do seu trabalho e fiquei curiosa quando soube que você ia fazer a biografia de ACM. em que pé está este livro?

    (05:35:47) Fernando Morais: dani, de 1996 até o ano de sua morte gravei com o ACM, além disso digitalizei todo o célebre arquivo pessoal dele com amigos e inimigos, coisas substantivas. Não tinha gravado com mais ninguém. Eu poderia me dar por satisfeito e começar a cercar outras pessoas. Com a morte inesperada, pois apesar de ser cardiopata, não fumava e não bebia. Ele no fim da vida passou a cuidar da alimentação, achei que fosse viver bem mais tempo. Depois de sua morte achei que seria um oportunismo sem sentido. Usando uma expressão dele, eu diria que ainda não desencarnou. Não é esperar virar bronze, mas esperar o defunto desencarnar. Se olhar no noticiário na Bahia há uma disputa absurda não só por material, mas sobretudo por sua herança política, o status que ele acumulou.

    (05:23:05) carlos.r: essa foi sua primeira biografia de uma pessoa viva, certo? você teve que reaprender a biografar? seguia alguma formula antes que teve que ser quebrada? grande abraço

    (05:37:50) Fernando Morais: carlos.r, obrigado. Tive que reaprender porque é completamente diferente. Quando propus ao ACM fazer a sua história, imaginava publicá-la com ele vivo. Isto não aconteceu por uma fatalidade. No caso do Paulo sabia que iria publicar com ele vivo, pois é 20 anos mais jovem que o ACM. E isso me trouxe problemas que nunca havia tido antes. Eu estou descobrindo, não é algo que alguém me contou, um desafeto. Eu descobri os fatos em seu diário, no fundo de sua alma, coisas horrorosas. E o que fazer com isso? Publicar no livro, mas assim eu estaria submetendo a um desconforto público ele que foi uma pessoa generosa comigo. Mas do outro lado vinha o capeta e me dizia para publicar. Por que eu iria censurar o leitor do livro? Então entre o personagem e o leitor, optei pelo leitor.

    (05:23:11) Fabi: Gostaria de parabenizá-lo pelo seu trabalho, e também mandar um grande abraço a Paulo Coelho, minha pergunta é o seguinte, quero saber se já esta havendo alguma reação dos leitores em relação ao livro? Criticas ou elogios.

    (05:41:30) Fernando Morais: Fabi, já. Aliás, quem quiser ver as críticas positivas e negativas pode entrar no site: www.fernandomorais.com.br/omago. A Veja não gostou porque sou amigo do Fidel Castro e do Dirceu. No Rio o livro está provocando uma polêmica paralela na Academia Brasileira de Letras. Primeiro que eu cometi um erro no livro ao matar um acadêmico que está vivo. Mas já corrigi, dos 100 mil exemplares, 10 mil tem este erro. Mas sobre a polêmica, eu fui convidado a lançar na ABL o livro, mas por um comentário polêmico do Paulo sobre a ABL não vou poder lançar lá. O Paulo Coelho é polêmico então é natural que o tiroteio venha de todos os lados. No site estou recebendo muitas mensagens de gente que já havia lido muito do Paulo e não tinha lido nada meu. Até agora não vi nenhuma manifestação contra o livro, tem observações, mas nenhum leitor se diz ofendido ou insultado com o livro. Eles estão descobrindo uma dimensão humana do Paulo que eu também não conhecia.

    (05:30:47) HUZÉ: boa tarde fernando. Muito do resultado de 'chatô, rei do brasil' pela contribuicao historica que trouxe. mas, será que a biografia de paulo coelho tem algo a acrescenter. ele é excentrico, diz-se bruxo, e vaidoso. queria ouvir seu comentario. obrigado.

    (05:46:31) Fernando Morais: Huzé, cada autor escolhe o personagem do qual vai escrever segundo critérios muito pessoais, muito subjetivos. Não é o meu caso escrever sobre quem eu tenha afinidade, a exemplo do ACM, há um abismo nos separando. Mas isto não tira o meu interesse por uma pessoas que fez parte do Brasil como ele. No caso do Paulo também vamos encontrar em seu rastro um pedaço da história do Brasil, menos na história política. Só se tornou um militante depois de adulto, escreveu um carta ousada para o Bush quando os EUA invadiram o Iraque que foi lida 700 milhões de pessoas. Mas ele era muito alienado, as três prisões políticas dele foram absolutamente injustas. Mas ele permite contar a história de uma geração que não estava nas guerrilhas e passeatas que também era muito expressiva e que também fosse majoritária. Porque se nós que estávamos na oposição fôssemos majoritários talvez tivéssemos derrubado a ditadura. Mas a maioria da juventude brasileira não estava em passeatas, estava fumando maconha e querendo saber do psicodelismo. Então a história do Paulo é um pouco a história da minha geração. Tem praticamente a mesma idade que eu. Então ele testemunha muito bem como protagonista a históira do rock brasileiro, a questão das drogas e um lado absolutamente desconhecido por mim que é a questão do satanismo.

    (05:37:41) mmx: Qual das biografias já feitas foi a que mais recompensadora, em todos os sentidos (vendas, aceitação, o trabalho realizado...)?

    (05:48:44) Fernando Morais: mmx, não dá para escolher uma só por estas categorias. O livro que mais vendeu foi o "Olga" e "A Ilha" em segundo lugar, depois não tenho precisão de qual vendeu mais. Sobre satisfação, sim, tenho satisfação, mas por ter escrito. Todo o livro é um sofrimento, no caso de um não ficcionista como eu é uma sentimento redobrado porque não tem a inspiração, e sim a transpiração, está tudo lá e tem que escrever. Então o que sei é que tem muito sofrimento.

    (05:52:36) Fernando Morais: Sobre o filme "Chatô": O Guilherme não é desonesto, o que lhe sobrou desta história é a casa onde ele mora. O filme chupou o seu dinheiro e o dinheiro do incentivo fiscal. Mas o filme está pronto, só está precisando de pouco para finalizar. Algumas pessoas já viram e disseram que é maravilhoso, eu não vi, prefiro ver no cinema. O roteiro é muito bom, já passou por muitas mãos, inclusive estrangeiras. Então tomara que saia. "Corações Sujos" vai virar filme também. A direção será de Vicente Amorim. E "Montenegro" será dirigido por João Batista de Andrade. "O Mago" já teve quatro propostas para filmar, três com parcerias internacionais. Eu não sou do ramo, meus acertos e desacertos são por acaso. O fato de "Olga" ser um sucesso não foi por sabedoria minha, então para não me meter em dores e desabores, deixei os direitos de adaptação para uma agente.

    (05:39:24) ferreiro: vc seia capaz de escrever uma biografia de uma pessoa sem a autorização da mesma? qual sua opnião sobre a atitude de roberto carlos de procesar o seu biógrafo?

    (05:56:07) Fernando Morais: ferreiro, a minha reação diante da atitude do Roberto, foi em primeiro lugar proibir a entrada de discos dele em minha casa. Ele prestou um desserviço às biografias. Já fiz várias biografias não-autorizadas. "O Mago" dependendo do ponto de vista é não-autorizado também. O Paulo Coelho fez um artigo duríssimo condenando o gesto do Roberto. Sou solidário com o autor da biografia, o Paulo Cesar Araujo. Esta é uma mancha que o Roberto terá enorme dificuldade de apagar de sua biografia. Eu li livro e é ótimo, não tem nada desrespeitoso. "O Mago" expõe feridas infinitamentes mais drásticas e dramáticas da vida do Paulo. Mesmo o Roberto tendo sido vítima de uma tragédia, um acidente que lhe amputou uma perna, o Paulo teve um pedaço de sua alma amputada. Quando se coloca um menino de 16 ou 17 anos para tomar choque elétrico no hospício, não sei se é mais ou menos grave do uma amputação física. É surpreendente que o Paulo tenha sobrevivido a tudo o que ele viveu. E não tirou um único parágrafo deste livro.

    (05:40:03) Moderador/UOL:

    O escritor Fernando Morais no estúdio do Bate-papo UOL (crédito: Flávio Florido/UOL)

    (05:57:34) Fernando Morais: Uma biografia autorizada é quando o personagem lê e dá ok. Mesmo consentindo, se não leu não é autorizada. No caso de "Olga" e "Chatô" os familiares me ajudaram, mas não leram. Mas proibir porque é filho, neto ou bisnetos, decidir o que a sociedade pode ou não pode ler. Imagina, amanhã não poderemos fazer biografia do Getúlio Vargas porque os tataranetos dele não querem. O Getúlio é parte da história do Brasil.

    (05:32:07) Dudu: Vc ressalta que Paulo desde jovem tinha o "projeto" de ser um grande escritor. Você a acha que a confecção dos diários e a conservação desses diários e da tal arca, fazem parte desse projeto? Você acha q Paulo , em outras palvras, esperava ser biografado por alguém, algum dia?

    (05:58:38) Fernando Morais: Dudu, não, porque ele tinha decidido incinerar isto. Estava em seu testamento. E a única e qualquer condição para alguém morrer é estar vivo. Aquilo poderia há qualquer momento evaporar. As coisas que eu li nos diários não são para deixar no currículo, o desejo dele verdadeiro está expresso no testamento que é tocar fogo naquilo.

    (05:59:55) Fernando Morais: Tem algums passagens nos diários que são muito visíveis como em "O Diário de um Mago", está tudo registrado. Na semana que vem o presidente da Galícia, uma província da Espanha, vai inaugurar em Santiago de Campostela uma rua chamada Paulo Coelho. Porque quando ele fez o livro há 20 anos atrás andavam 400 peregrinos por ano, hoje andam 400 peregrinos por dia.

    (05:45:19) vava: acabo de ler que o Paulo Coelho quer queimar documentos que estavam com você, será que não é melhor doar para uma biblioteca e guardar para a posteridade?

    (06:00:41) Fernando Morais: Eu mandei um bilhete para ele dizendo para deixar aquilo em uma instituição pública com um embargo para ser aberto somente daqui há cem anos. Mas não acredito que ele faça isso, acho que ele vai colocar fogo tão logo coloque as mãos no baú.

    (05:45:31) Barra: Até onde o Sr. diria que o escritor, Paulo Coelho, tem este sucesso estrondoso baseado em sua literatura própriamente dita ou em seu Markting Pessoal ??

    (05:43:12) Fernando Morais: Barra, não tem marketing, a sua agente diz que de cada dez idéias de marketing que ele dá para os seus livros, nove dão errado. Ela contou que quando ele lançou "Veronika..." em 2000 em Paris ele teve a idéia de fazer propaganda nos ônibus de lá e o leitor não gostou, achou exagerado.

    (05:54:59) Dudu: Como biógrafo renomado e experiente, por favor, diga, você acha que alguém como Machado de Assis, um homem com a vida pacata e sem maiores excessos, poderia ser biografado? Como isso seria possível? Você já pensou em biografar algum personagem desse tipo, com uma grande obra, mas com uma vida aparentemente regulara e sem "cores"?

    (06:04:30) Fernando Morais: Dudu, não. Uma confissão, eu adoro e recomendo Machado de Assis, li tudo e releio com frequência, indico sempre aos jovens. Mas gosto de personagens mais efervescentes e borbulhantes, gente polêmica. Nunca fiz a biografia do Juscelino porque ele teve uma vida muito previsível, começo meio e fim. Com Getúlio Vargas não, ele teve três momentos importantes. Uma coisa shakesperiana, já está pronto. Personagens por este ponto de vista eu me interesso menos.

    (05:56:54) MONIQUE: Oi Fernando! Sou muito fa do Paulo e gostaria de saber se a biografia dele vai ser publicada nos Estados Unidos?

    (06:05:46) Fernando Morais: Monique, a editora Planeta já começa a editar na Espanha, América Latina, sul dos EUA, para a comunidade hispânica, e no Brasil. Também para 30 países. Tudo quanto é canto. Ontem um pouco antes de ir para a noite de autógrafos recebi um email de minha agente dizendo que acabaram de fechar com a Coréia do Sul.

    (06:09:19) Fernando Morais: Sobre a leitura: Acho que tem que ler, não importa o quê. O ideal é ler Machado de Assis, Guimarães Rosa, Gabriel Garcia Marques. Mas se ler bula de remédio já é alguma coisa. Livro vende pouco no Brasil porque é muito caro e se perguntar para o editor ele dirá que é caro porque vende pouco. A solução é a educação. Quando este for um país de leitores, um livro destes ao invés de tirar 100 mil cópias irá tirar um milhão de exemplares. Qualquer livro do Paulo na Rússia vende pelo menos de 600 mil a 700 mil exemplares, lá um livro médio de 200 páginas custa 1 euro. Tem que encher as bibliotecas públicas para se criar o hábito da leitura. Vou a um encontro com Lula na semana que vem e vou dizer isto a ele. Ele conseguiu colocar 8 milhões de pessoas morrendo de fome para comer. Dizem que é populismo, que tem que ensinar pescar primeiro, mas tem que primeiro matar a fome do povo para eles passarem a pensar em outras coisas. Então se se consertar a educação este país nunca mais voltará para trás.

    (06:10:26) Fernando Morais: No baú não tinha brinquedo nenhum. Uma coisa curiosa são as duas asas do primeiro passarinho que ele matou na vida. E ele que é obsessivo por informação, diz que virginiano é assim, colocou um cartãozinho e colou as duas asinhas dizendo que eram as asas do primeiro passarinho que matou na vida, um tiziu.

    (06:10:51) Fernando Morais: Sobre militar, ele está vivo. Não é uma revelação porque ele já constava no Tortura Nunca Mais. Ele tem outros antecedentes antes da denúncia do Paulo.

    (06:11:04) Fernando Morais: Muito obrigado.

    (06:11:20) Moderador/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Fernando Morais e de todos os internautas. Até o próximo!

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