(02:58:33) Moderador/Bravo!: Como vai, Contardo? Bem-vindo ao chat BRAVO! Uol na Flip.
(02:58:56) Contardo: Muito obrigado. Um bom dia a todos.
(02:59:15) Moderador/Bravo!: Uma pergunta para iniciar. Seu livro, O Conto do Amor, é a realização de um projeto antigo?
(02:59:56) Contardo: Este romance, em particular, é um projeto que surgiu há 3 anos mais ou menos.
(03:00:45) Moderador/Bravo!: Há muitas informações históricas e artísticas nele. Como foi a pesquisa?
(03:01:48) Contardo: A pesquisa foi simples. Primeiro, tive que viajar três vezes para as locações. No mais, em geral, eu sou um apaixonado pela arte da Renascença italiana e então veio sozinho
(03:01:42) tatibitati: é mais prazeroso escrever um romance ou suas cronicas semanais? qual vc exorcisa melhor ou coloca pra fora oq tem pra colocar?
(03:02:48) Contardo: Tatibitati, são duas coisas diferentes mas nem tanto. Escrever crônicas a cada semana me dá a obrigação prazerosa de ter que viver a cada semana uma expericência que vale a pena ser contada.
(03:03:40) Contardo: Escrever romance é uma outra aventura. Eu acho que somos todos feitos de ficções, desde a infância. E escrever um romance é renovar as ficções das quais somos feitos.
(03:03:51) Moderador/Bravo!: E o trabalho de psicalista, é prazeroso?
(03:04:38) Contardo: Deve ser, porque faz 35 anos que sou psicanalista, 50 horas por semana. E não sou masoquista.
(03:04:51) kelvin(H)rj: Sua entrevista com Marília Gabriela foi bem interessante....escrever dá o mesmo prazer que dialogar?
(03:06:05) Contardo: Kelvin, são prazeres diferentes. Escrever é um prazer solitário (não precisa pensar na masturbação imediatamente). Dialogar significa deixar que o outro encontre em nós coisas que às vezes nem sabíamos que estava lá. Também escrevendo encontramos em nós coisas que não sabíamos que estavam lá... Fora isso a Gabi é uma ótima entrevistadora
(03:07:20) Carraccio: Tive uma imediata simpatia ao personagem Carracio, de seu livro. Vc conheceu alguém como ele ou simplesmente o imaginou?
(03:09:12) Contardo: Eu também tenho muito simpatia por Carracio, mas ele é fictício. Agora, eu também sou fictício.
(03:10:04)
Geovanna/UOL:
Contardo Calligaris conversa sobre sua participação na Flip (03:10:30) Moderador/Bravo!: Estamos com alghuns problemas técnicos. Contardo está presente, um minuto só.
(03:13:13) Contardo: Depois de uns probleminhas, voltei.
(03:13:23) Moderador/Bravo!: Peço a desculpas pelos problemas. Retomemos.
(03:14:27) Moderador/Bravo!: Há algum modelo literário que lhe sirva de inspiração?
(03:15:28) Contardo: O meu autor preferido desde a adolescência é Joseph Conrad. Meu livro preferido é o "Coração das Trevas". Mas não leio há mais de 30 anos - vai ver que hoje eu acharia chatérrimo.
(03:15:33) Moderador/Bravo!: A crítica se dividiu em relação ao seu livro. Como vc enfrentou isso?
(03:16:55) Contardo: Ontem, o Roberto Schwarz me disse que leu o livro de uma vez só e gostou bastante. Com isso meu problema com a crítica está resolvido. Fora isso, o único crítico antipático ao livro escreveu uma resenha tão incompetente que a coisa francamente não me afetou.
(03:16:16) Carraccio: Vc vê alguma incompatibilidade entre sua "celebridade" - em que trata de temas gerais - e o papel de terapeuta - que às vezes pode revelar peculiaries diversas das opiniões gerais que dá por intermédio de artigos?
(03:17:46) Moderador/Bravo!: Você planeja seguir carreira literária? Há algo já em andamento?
(03:18:58) Contardo: Sim, acho que pelos próximos anos, fora as crônicas, vou escrever só ficção ou quase. Tenho dois projetos em andamento: um livro que é uma história de crianças mas não só para crianças. E outro que é um pouco a continuação de "O Conto do Amor".
(03:19:24) Moderador/Bravo!: E a sua atividade de psicanalista? Vai conciliar ou parar de clinicar?
(03:19:52) Contardo: Parar de clinicar, só morrendo. E talvez nem morrendo.
(03:20:48) Moderador/Bravo!: Vc acredita que se possa fazer "terapia à distância" - o q vc acha de terapeutas de rádio e TV?
(03:21:45) Contardo: Não acredito em terapia à distância. O que é possível é continuar temporariamente à distância um terapia que começou normalmente. O melhor jeito seria por telefone. Acho que por rádio e televisão é possível dizer coisas que ajudam a muita gente, mas isso não significa fazer terapia.
(03:22:16) Moderador/Bravo!: Escrever é uma neurose?
(03:23:15) Contardo: Sem dúvida. Só que não tem quase nada que não seja uma neurose.
(03:23:28) Moderador/Bravo!: Qual é o mecanismo dessa neurose, na sua opinião? No seu caso, por exemplo?
(03:24:35) Contardo: Eu disse que é uma neurose porque, como qualquer neurótico, sou animado por questões edípicas.
(03:24:10) tatibitati: costumo ler suas colunas na folha e o amor é sempre um assunto recorrente e que se interliga com os mais diversos fatos. o amor é a grande quastao humana?
(03:25:40) Contardo: Tatibitati, o amor é a grande questão moderna. A modernidade começa quando o amor se torna mais importante do que, por exemplo, a família, o clã, a tribo, a lingua e a cultura da gente etc
(03:25:57) Moderador/Bravo!: Há alguma técnica de psicanálise que você aplicou à literatura?
(03:26:28) Contardo: Não. O problema seria mais aplicar a literatura à psicanalise.
(03:29:27) Adriana: Olá Contardo, Gostaria de dizer que adoro suas colunas na Folha. Leio toda semana e geralmente ela me trazem um bem estar muito grande. Parabéns pelo trabalho.
(03:30:19) Contardo: Adriana, muito obrigado.
(03:29:29) kelvin(H)rj: Porque a terapia de qualidade ainda é tão distante economicamente da classe média em geral.....?quase um acesso restrito a classe AA
(03:31:04) Contardo: Kelvin, é possível, em São Paulo, por exemplo, encontrar psicanálise gratuita de excelente qualidade.
(03:32:18) Contardo: É verdade que os seguros de saúde no Brasil não cobrem psicoterapia. Mas muitos terapeutas trabalham parcialmente "pro bono"
(03:31:20) Fernando: Contardo, prazer esta oportunidade. Sou psiquiatra,em Goiânia, e quando posso leio seus artigos, muito esclarecedores. Acabei de ler o 1o capÃtulo do romance, e me lembrei do "Quase Memória", do Cony. Você o leu? Há algum elo? Abraço...
(03:33:24) Contardo: Fernando, "Quase Memória" é um dos meus romances preferidos e é verdade que somos muitos que não sabem o que fazer com um embrulho que nos foi deixado pelos nossos pais.
(03:33:00) kelvin(H)rj: Vc fala tanto em amor...Como viver um grande amor em tempos de doenças sexuais irreversíveis....como se entregar desconfiando do objeto do amor?
(03:34:26) Contardo: Você quer uma receita prática? O teste de HIV no laboratório Fleury custa 164 reais e pode ser um bom investimento inicial.
(03:35:22) Vivian: Mas o que é o amor para você?
(03:36:34) Contardo: O amor é várias coisas. Nenhuma delas reflexiva. 1: fazer juntos. 2: não falar da relação - ou não precisar falar da relação. 3: Se deixar transformar pela experiência, o que não significa se deixar transformar pelo outro.
(03:36:58) Contardo: 4: gostar especialmente dos defeitos do outro.
(03:37:42) Contardo: 5: desejar o outro e se deixar envolver por suas fantasias sexuais e não sexuais.
(03:38:12) Contardo: 6: respeitar o desejo do outro e o da gente.
(03:39:07) tatibitati: contardo, seu livro se passa na itália. nesta Flip vc debaterá ao lado de um escritor italiano numa mesa chamada "Fabulas italianas". Vc preparou algo especial para sua participação? Pode nos adiantar alguma coisa?
(03:40:53) Contardo: tatibitati, a FLIP funciona assim: a gente lê duas ou três páginas do livro de cada um, e depois dialoga com o público.
(03:41:06) Contardo: então não tenho como preparar, tudo depende das perguntas.
(03:41:28) Contardo: só li os livros de Baricco, que achei ótimos.
(03:44:50) Adriana: Tem alguma outra atividade profissional que você tenha vontade ou pretenda desenvolver, além da psicanalise e de escrever?
(03:45:39) Contardo: Adriana, acho que já está de bom tamanho. Pode ser que eu faça outras coisas ainda...eu escrevo teatro.
(03:46:00) carola: contardo, qual sua relação hoje em dia com a Itália? vc mantém o hábito de visitar o país?
(03:46:57) Contardo: tenho sim, carola. tenho uma casa em veneza, mas é verdade que a minha relação com a Itália voltou com toda a força no processo de escrita do romance.
(03:46:02) maria: Tem algum escritor contemporâneo que o intriga ?
(03:48:15) Contardo: os escritores que estou lendo sempre me intrigam. Ingo Schulz, que está aqui na Flip, é um deles. O próprio Baricco. Também estou lendo um livro de Modesto Carone e
(03:48:36) Contardo: por aí vai. Geralmente leio 3 ou 4 livros ao mesmo tempo.
(03:49:25) Contardo: Nesse momento, o meu livro noturno é o do Ingo Schulz, que se chama "Celular".
(03:50:29) Interrogante: Primeiramente boa tarde é um prazer estar papeando hoje com você! Gostaria de te fazer um simples questionamento: Geralmente os moderadores filtram e deixam passar apenas elogios e perguntas que de algum modo promovem o convidado sabatinado! Na sua opinião essa moderação não seria uma "Nova censura"? Justifique sua opinião?
(03:50:35) Contardo: Pessoal, desculpe a demora na resposta. Aqui em Paraty a conexão está muito lenta e estamos com problemas técnicos.
(03:51:15) Contardo: Interrogante, difícil dizer, porque não sou eu quem está filtrando.
(03:50:40) sill: OI,Contardo,boa tarde!!!! Além do conhecimento em Psicanálise e Filosofia , seria a vida ,sua ,que o inspira a escrever????Você ,depois de livros,colunas,anos escrevendo,sente descobertas em cada escrita ainda hoje???
(03:52:23) Contardo: Minha vida me inspira, absolutamente. É sempre a minha vida que me inspira. A Psicanálise e a Filosofia fora da minha vida, para mim, não teriam interesse nenhum.
(03:51:12)
Geovanna/UOL:
Contardo Calligaris conversa sobre literatura e amor no Espaço Bravo! na Flip (03:51:28) FÁBIO ALVES: Sou professor universitário, psicólogo. me preocupo com a formação dos alunos de psicologia, pois percebo que eles saem muito bons em técnicas, mas entendem cada vez menos de subjetividade e consequentemente de gente. Gostaria de saber a sua opinião sobre a formação do psicanalista? A criação de várias "igrejas" na psicanalise. E como você pensa sobre a formação do psicólogo?
(03:53:04) Contardo: Caro Fabio, concordo com você.
(03:54:20) Contardo: Consolação: o caso dos médicos é pior, ainda. Eu acredito que seja fundamental ampliar a função dos estágios e acho lastimável o sectarismo da maioria das escolas de psicanálise. A Psicanálise é, antes de mais nada, uma prática, e não uma doutrina.
(03:53:32) curioso: Sou um leitor assíduo de suas crônicas (docente/pesquisador da área dda Saúde Coeltiva e 2 de suas crônicas da F.S.P. reproduzi em anexos de novo livro))!!! Gostaria de saber sua opinião sobre José Saramago e sua obra, assim como sobre o Carlos Ruiz Zafón (A sombra do vento)!!!
(03:55:43) Contardo: Não li Zafón e não vou fazer de conta. Quanto a Saramago, adorei o Ensaio sobre a Cegueira e, depois disso, tive um problema: era o autor preferido de uma mulher com quem eu estava brigando feio e ficou uma birra com ele, não sei por quê.
(03:54:43) Moebius: O mundo moderno tem uma tensão de Tanatos, ou seja uma tendência ao hedonismo e a auto-destruição ?
(03:57:16) Contardo: Moebius, o hedonismo não é um palavrão. É possível ser hedonista e nada auto-destrutivo. No conjunto, acho a modernidade bastante simpática. Muito menos violenta e assassina (e mesmo menos suicida) do que nosso passado, em todos os sentidos.
(03:57:26) Moderador/bravo!: O que você acha do ramo da medicina adepta do tratamento medicamentoso, como uma forma de substituir a terapia?
(03:58:32) Contardo: Acho que não substitui, mas é absolutamente indispensável em muitos casos. É bom saber que nem a medicina nem a psicoterapia fazem milagres.
(03:58:57) Contardo: Muitas vezes podem se ajudar reciprocamente, e mesmo assim não sai o milagre.
(03:58:57) Moderador/bravo!: Eu agradeço ao Contardo e a todos os internautas, que tiveram infinita paciência com os nossos problemas técnicos aqui em Parati. A seguir, teremos um chat com a escritora Inês Pedrosa.
(03:59:59) Contardo: Um grande abraço a todos e muito obrigada pela paciência em aguentarem os desmandos da nossa técnica mais avançada.
(04:00:36) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Contardo Calligaris e de todos os internautas. Até o próximo!