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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Inês Pedrosa - 03/07/2008 às 16h00

Inês Pedrosa

Escritora e jornalista portuguesa participou da série de Bate-papos promovidos pelo UOL em parceria com a revista "Bravo!" na Festa Literária de Paraty. Na edição 2008 da Flip, Inês faz parte da mesa "Sexo, mentiras e videotape".


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    Participaram do Bate-papo 131 pessoas


  • (04:09:34) Moderador/bravo!: Boa tarde, Inês. Bem-vinda ao chat BRAVO! Uol aqui em Parati.

    (04:12:38) Moderador/bravo!: Para começar, gostaria que você falasse um pouco sobre o seu novo livro, A Eternidade e o Desejo.

    (04:14:50) Inês Pedrosa: Boa tarde, obrigada pelo convite. Difícil falar sobre um livro escrito por nós, mas, em resumo, posso dizer que é a história de Clara, uma portuguesa que regressa a Salvador da Bahia anos depois de aí ter perdido o seu grande amor e a visão. Nesse regresso ela usa como bordão as palavras poderosas do Padre António Vieira...

    (04:15:45) Moderador/bravo!: E o título? Dá para dar uma explicaçãozinha ou é estragar a idéia que está na narrativa?

    (04:16:57) Inês Pedrosa: O título é tirado de uma frase do Padre, que surge na epígrafe do livro, e diz mais ou menos isto: a eternidade e o desejo são coisas tão parecidas que os antigos usavem a mesma figura para retratá-las

    (04:17:20) Moderador/bravo!: O "O"?

    (04:18:31) Inês Pedrosa: Sim, e é o sermão de nossa Senhora do Ó. A pretexto de falar dos desejos da Virgem enquanto esperava o nascimento de Jesusa, teoriza sobre o desejo de uma forma muito acutilante

    (04:18:36) juliana: sobre suas palavras ' o escritor tem que ser hemafrodita', gostaria que você nos desse uma explicação melhor sobre essa metáfora

    (04:19:55) Inês Pedrosa: É simples, Juliana: o escritor tem que saber caçar a alma de mulheres e homens, idependentemente do sexo. Até porque o sexo é cada vez menos determinante, no que se refere à alma e às suas tonalidades

    (04:20:06) empresario: Inês gostaria de saber, é possivel hoje a pessoa ser uma empreendedora no ramo de literatura, no seu caso no ramo de livros??

    (04:21:41) Inês Pedrosa: Caro empresário:Empreendedora em que sentido? No sentido de se constituir como empresa de exploração das fragilidades alheias e de enriquecimento próprio, como fazem muitos autores bem definidos como de auto-ajuda?

    (04:21:35) Interrogante: Inspirado com a sua participação na banca com o tema " Sexo, mentiras e videotape", formulei a seguinte pergunta: Como escritora você encara o sexo em seus livros como um marketing, sabendo que sexo é muita utilizado também como estratégia de vendas? Justifique sua resposta!

    (04:22:53) Inês Pedrosa: Querido Interrogante, acha que eu ia perder o prazer imenso do sexo com essa chatice do marketing? Só nunca me tendo lido, mesmo...

    (04:22:43) juliana: Boa tarde Inês, sempre gostei de ler, e tenho um sonho muito grande: escrever um livro, tenhoa penas 15 anos, mas vc poderia me dizer qual é o assunto que releva mais interesses aos olhos públicos dos leitores?

    (04:24:43) Inês Pedrosa: Querida Juliana, se você quer se tornar uma escritora de verdade tem que começar por aprender a buscar a sua voz, o que você tem a dizer ao mundo - justamente o contrário dessa preocupação com o que o mundo espera de você... A LIBERDADE é fundamental para a criação. E claro que custa aprender a ser livre. Mas dá um gozo infinito

    (04:24:52) Moderador/bravo!: Em entrevista 'a Bravo, vc falou de sua relação antiga com o Brasil, as suas primeira leituras. Há no seu livro uma sensualidade que, vc diria, vem de escritores como Jorge Amado?

    (04:27:12) Inês Pedrosa: Entre outros. Comecei por ler poetas do Brasil - Drummond, Vinicius, Manuel Bandeira. Depois Clarissa de Erico Veríssimo. Depois Gabriela de Jorge Amado. Tudo isso muito jovem - clatro que tinha de me marcar, a sensualidade da própria linguagem, a liquidez e luminosidade da língua nesses escritores

    (04:27:01) empresario: Inês., como vc se motiva para escrever um livro, ou como vc explora a sua criatividade para escrever um livro ??

    (04:29:32) Inês Pedrosa: Caro empresário, cada livro tem seu jeito de chegar. Às vezes é uma história que me contam ( caso de Nas Tuas Mãos), às vezes o luto de várias mortes acumuladas ( caso de Fazes-me Falta), às vezes uma viagem ( caso de A Eternidade e o Desejo). Há um clic, que desencadeia uma frase ou uma personagem. Depois é trabalho, e obsessão, ou vice-versa

    (04:29:45) Dulce Veiga: Inês, você acredita que seu novo livro agradará mais aos brasileiros ou aos portugueses, ou ambos já tem as mesmas tendências / preferências de leitura?

    (04:32:22) Inês Pedrosa: Dulce, sabe que para mim não existem "os brasileiros" nem os "portugueses", embora perceba o fundo da sua pergunta - Digamos que me parece que a cultura brasileira se identificará mais com este livro do que a portuguesa, por diversas razões. Para começar, a cultura portuguesa tem um... pudor ( ou hipocrisia, ou cerimônia, ou...) muito grande ainda em relação à expressão do sexo na escrita. Mas toda generalização é injusta

    (04:32:31) Stephen Dedalus: Inês, você acha que Capitu traiu o Bentinho?

    (04:33:58) Inês Pedrosa: Stephen, eu não acredito em traição no amor. Traição é dizer mal de alguém pelas costas dele, invejá-lo, enfim, fazer-lhe mal... Sexo nunca é isso

    (04:34:35) Sergio: Cara, sou leitor assiduo (entre 3 a 4 livros mensais) e o meu livro favorito de todos os tempos é Nas Tuas Mãos. De onde veio a inspiração para a estória?

    (04:38:20) Inês Pedrosa: Sérgio, nem sei como responder a um homem TÃO inteligente e sensível... ( Estou corando e rindo...) Bem, a inspiração foi uma história que me contaram de uma senhora que, aos oitenta anos, pediu autorização aos sobrinhos para se casar com aquele que vivera sempre na sua mansão como o maior amigo do marido... e que na verdade, como ela contou, era o amante dele. O casamento dela tinha sido totalmente branco, e ela mantivera esse segredo a vida inteira. Deram-na como louca e proibiram-na de casar, e ela morreu de facto só e...louca. Essa mulher que nunca vi começou a invadir-me os sonhos, pedindo-me que a compreendesse. A sério. Eu acordava a meio da noite sobressaltada com essa mulher dizendo: tens de me compreender

    (04:38:30) Sergio: Estou lendo A Eternidade e o Desejo. Você não acha que assimilar o padre Vieira é difícil para um povo que lê muito pouco?

    (04:39:19) Inês Pedrosa: Dois povos que lêem muito pouco... ( o português também). Pois será, mas por algum lado temos de começar...

    (04:39:57) Inês Pedrosa: E de qualquer modo, Sérgio, eu não pensei na incultura do povo. Nunca penso nisso...

    (04:39:22) Moderador/bravo!: Como são suas vendas em outros países, países que lêem mais?

    (04:40:49) Inês Pedrosa: As minhas vendas são boas na Alemanha - país que lê muitíssimo. Mas na verdade onde são excelentes é em Portugal...

    (04:40:54) JRP: Inês, eu nunca li os clássicos. Na verdade detesto a maioria dos "grandes livros". Meu barato é gibi, mangá e ficção-científica. Portanto, estarei fadado ao ostracismo intelectual e jamais publicarei?

    (04:42:01) Inês Pedrosa: JRP, traduza-me gibi e mangá, por favor. Não, o que tem mais é escritor que nunca leu nada e é traduziado em centenas de países, não se preocupe... se é essa sua preocupação

    (04:42:28) sangiovanni: Cara autora Inês Pedrosa,a Inês Pedrosa pessoa se identifica com algum(a) personagem de seus enredos literários?

    (04:43:05) Inês Pedrosa: Com todas, como um bom pai

    (04:43:11) Dulce Veiga: Inês, porque você escolheu Pe. Antonio Vieira? Apesar de ter sido incontestavelmente brilhante, me parece que era extremamente conservador com relação à "postura" das mulheres. Isto não conflita um pouco com o apelo "sensual" ou "sexual" que vc. sugere?

    (04:45:25) Inês Pedrosa: Dulce querida, conservador, no século XVII, era uma coisa um pedaço mais séria do que hoje... A sensualidade do livro não está directamente ligada aos sermões do Padre ( ele é só um fantasma motivador), embora o seu uso da manipulação das mentes através da palavra seja profundamente sedutor

    (04:52:15) Geovanna/UOL:

    Inês Pedrosa conversa sobre literatura no Espaço Bravo! na Flip

    (04:45:39) claudia: por que você disse que se identifica como um bom pai e não como uma boa mãe de seus personagens?

    (04:46:53) Inês Pedrosa: Cláudia, porque me apetece sublinhar que a paternidade é igual à maternidade, e de facto ia escrever mãe e depois lembrei-me do quanto odeio esse vício de associar metaforicamente a maternidade a tudo...

    (04:47:11) Moderador/bravo!: Pode explicar isso melhor?

    (04:49:14) Inês Pedrosa: Actrizes sempre dizem: "A maternidade tornou-me uma nova mulher". E o desemprego sempre leva os governos, de esquerda ou direita, a lembrar que as mulheres deviam estar em casa tratando das crianças... Então, em particular num país tão intoxicado pelo pior da religião (me desculpe, amado Brasil, mas é verdade), que não consegue aprovar esse direito humano mínimo que é a interrupção da gravidez... não vou falar de maternidade

    (04:49:33) sangiovanni: A literatura portuguesa tem uma tradição poética muito forte. Muitos autores portugueses acabam recorrendo a idéias e maquinações lingüísticas que gênios como Camões e Pessoa já desenvolveram. Muitas vezes o fundo de coerência dos textos, quando adentra o poético, remete a estes gênios citados. Você sente, em seus textos, que os retoma em algum ponto da escrita, mesmo inconscientemente?

    (04:51:04) Inês Pedrosa: Sangiovanni, eu me sinto influenciada por esses e muitos outros poetas e escritores portugueses, não tenho problema nenhuma com influência, vejo a literatura como uma conversa transtemporal, por isso me atrevi a dialogar com o Vieira...

    (04:51:15) Sergio: Inês, há uma série de novos autores europeus: italianos, franceses, ingleses e alemães que, a meu ver, têm inovado. Para mim, você se junta a essa geração. Como está a nova literatura de Portugal atualmente?

    (04:52:33) Inês Pedrosa: Parece-me que a literatura de expressão portuguesa está, toda ela, num momento de particular criatividade. Tenho dificuldade em separar literaturas por regiões geográficas, a língua é o nosso sangue...

    (04:52:46) Sergio: Ah! sim! O sangiovanni falou em tradição poética e eu costumo te associar ao extinto Madredeus que, na música, a mim me assemelha a você na literatura.

    (04:53:52) Inês Pedrosa: Obrigada, gosto dessa aproximação musical

    (04:54:33) Moderador/bravo!: Eu gostaria de agradecer à Inês Pedrosa e aos internautas. Amanhã teremos mais quatro chats da BRAVO! - com João Gilberto Noll, Carlos Lyra, Luis Fenando Verissimo e José Miguel Wisnik. Até lá.

    (04:55:37) Inês Pedrosa: Obrigada eu, foi muito estimulante - desculpem as gralhas ( aquilo que voces chamam, poeticamente, de erros de digitação...). Beijos

    (04:57:00) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Inês Pedrosa e de todos os internautas. Até o próximo!