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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Flávio Gikovate - 10/09/2008 às 19h00

Médico psiquiatra conversa sobre o livro "Uma História do Amor... Com Final Feliz", em que fala que o amor romântico, como faz parte do imaginário coletivo, está com os dias contados. Na obra, o autor defende o individualismo das relações afetivas.

  • Psiquiatra defende triunfo do individualismo nas relações afetivas

  • Leia entrevista com o autor na "Veja"
  • Assista à íntegra do bate-papo:

  • Participaram do Bate-papo 1314 pessoas


    (07:00:20) juca: tudo bem

    (07:01:07) Flávio Gikovate: É um enorme prazer estar aqui com vocês...

    (07:02:54) Flávio Gikovate: Nas falas que faço sempre começo mostrando claramente o quanto é necessário que desde as relações afetivas tem que se adequar aos novos tempos. Eu comecei a trabalhar há 42 anos. Neste tempo apareceu e comercializou-se a pílula anticoncepcional. Neste tempo a número de mulheres no mercado de trabalho aumentou loucamente. Neste tempo apareceu o computador, a TV a cabo, a Internet, os i-Pods, DVDs e todas as tecnologias que criam uma nova condição na realidade das pessoas. Criam uma individualidade mais acentuada. Um individualismo que as pessoas têm muito medo de ver como uma coisa boa. O individualismo é uma coisa boa, não é sinônimo de egoísmo, é o subproduto legal destes baratos todos que a tecnologia criou. Não é um produto pretendido, aconteceu por acaso. E isto vai gerar alguns desdobramentos muito importantes, vai gerar obrigatoriamente avanços na ordem moral. O individualista não é um egoísta, mas também não é um generoso, não vai ficar dando muito mais do que recebe. Então vai haver um avanço moral relevante e vai haver um avanço também nas relações afetivas de tal maneira que aquela dependência, aquela coisa muito embolada, muito grudada de todo mundo ficar juntinho o tempo todo não tem mais cabimento neste mundo tão rico de entretenimento de visões e gostos muito personalizados. E também onde a relação homem mulher é muito mais individualizada. Então nós vivemos em um novo mundo com uma nova ordem e esta hora nova pede uma qualidade diferente das relações interpessoais, principalmente nas relações conjugais homem mulher. Isto é muito bem vindo, porque na realidade as relações tradicionais vão muito mal. As pessoas estão muito infelizes, o número de divórcios está crescendo e mesmo com aqueles casais que não se divorciaram, muitas vezes vão só aguentando a vida juntos mesmo sem muito gosto e prazer de maneira que é bem vinda qualquer revolução que venha melhorar a qualidade de vida. Tendo mais uma variável absolutamente relevante também nestes últimos tempos que é a seguinte, a qualidade de vida da pessoa sozinha melhorou muito.

    (07:04:08) Flávio Gikovate: Há 30 anos o individuo solteiro ou mulheres solteiras eram mal vistos, discriminados, tratados como uma pessoa que não teve sucesso na vida, eram excluídos de ambientes sociais relevantes, não era uma pessoa que fazia parte efetiva da comunidade como um cidadão de primeira classe. Os homens muitas vezes eram tratados como se fossem problemáticos do ponto de vista sexual, homossexuais etc. Então hoje não, temos habitações adequadas para pessoas sozinhas, temos uma ausência total de discriminação para qualquer tipo de atividade para pessoas solteiras. O que na prática significa que a vida conjugal ou a vida afetiva tem uma nota de corte correspondente a qualidade de vida das pessoas solteiras. Tudo aquilo que der qualidade de vida pior do que das pessoas solteiras, que além de ter estas qualidades sociais, também não precisam dividir com ninguém as decisões essenciais da vida, quem não conseguir ter uma qualidade de vida melhor do que a de solteiro está com o futuro conjugal contado. Então têm mal casados, tem solteiros com uma qualidade de vida muito boa hoje e têm casados que tem uma qualidade melhor do que a dos solteiros.

    (07:00:20) cocota: boa noite, flavio! li que o livro trata sobre os dias contados do amor romantico... vc realmente acredita nisso? que triste! rsrs... como chegou nessa conclusao?

    (07:08:19) Flávio Gikovate: cocota, isto foi uma entrevista feita comigo há dois meses e foi um pouco tendenciosa, não foi bem editada. Eu digo que o que está com os dias contados são estes casamentos de má qualidade. Isto eu acabei de dizer o porquê e não acho nada triste. Pode ser grande alívio para as pessoas não terem que conviver com este relacionamento que quase sempre é entre pessoas opostas, antagônicas, um mais estourado e outro mais manso, um mais dedicado e amoroso e outro mais "reclamento" e oportunista. E o dedicado e amoroso não se manca, não pára de ficar se dedicando a quem não lhe retribui. É uma relação ruim, de má qualidade e no médio prazo está com os dias contados. Se chamarem isto de amor romântico, que é o encantamento que costuma acontecer na adolescência, os primeiros namoros, este fascínio, as melhores moças fascinadas pelos cafajestes, por exemplo, se acharem que isto é romantismo e uma coisa boa realmente discordo plenamente. Este tipo de relacionamento está mesmo com os dias contados e não é um romantismo de boa qualidade. O romantismo nasceu em 1850 com a Revolução Industrial e agora em 2010 ou 2020 não tem o menor cabimento de manter o mesmo padrão de relacionamento que se estabeleceu em uma época em que não existia luz elétrica, não existia televisão, não existia automóvel, não existia coisa nenhuma para fazer e na verdade a mulher era submissa ao homem que mandava em tudo. Hoje o mundo é muito diferente, não se pode imaginar uma qualidade em um nível de relação de acordo com o que era há 150 anos.

    (07:00:26) admirador do GIKO: adorei seu livro e esta me fazendo optar por uma vida de individualidade...mas e quando a outra pessoa sofre por você e vc gosta dela....fica entre a individualidade e amor...Como trabalhar este sofrimento akheio que tb doi em vc ? Por favor...responda sou seu admirador

    (07:10:04) Flávio Gikovate: admirador do Giko, obrigado pelos elogios, fico feliz de as pessoas estarem gostando do meu livro "Uma História de Amor... com Final Feliz". Nós temos que nos preocupar com o outro sempre, mas também não posso fazer concessões para além daquilo que sejam os meus direitos. Está certo me preocupar com o outro desde que eu também me preocupe comigo. Ou seja, os meus direitos e os meus objetivos pessoais também devem ser contemplados. Só devo abrir mão se o outro tiver mais razões para merecer a minha condescendência. Ou seja, em igualdade de condições eu tenho que cuidar do meu. Na questão sentimental quase nunca o outro tem mais direito que a gente. Ele não pode ficar com uma moça só que ela vai sofrer se ele ficar longe dela, isto é uma pressão e uma chantagem sentimental que não tem cabimento.

    (07:11:33) Flávio Gikovate: Para poder lidar com a chantagem sentimental tem que fazer uma revolução moral para além da generosidade. Porque o generoso não é tão maduro o quanto pensa, pode ser um pouco mais maduro do que o egoísta, mas é escravo de sentimentos de culpa e por força disso acaba dizendo sim quando quer dizer não. O individuo tem que superar o sentimento de culpa. Na realidade você não é o causador do sofrimento do outro e é um direito seu tomar atitudes que contemplem as suas vontades quando isto está acontecendo em igualdade de condições.

    (07:02:37) Lívia: Boa noite. Amor com final feliz não seria uma utopia?

    (07:14:11) Flávio Gikovate: Lívia, não é. Em nenhum momento do livro eu faço qualquer tipo de demagogia ou de vender o peixe do amor bem-sucedido como algo simples e fácil. Este amor de boa qualidade está presente em um número muito pequeno dos casais, menos de 5%, mas pode aumentar, pois tem características bem definidas e isto o livro mostra. É preciso que as relações sejam baseadas em afinidades, portanto é preciso que as pessoas tenham muita coisa em comum, planos, projetos e interesses parecidos. É preciso que as pessoas tenham afinidade de caráter, sejam confiáveis e que um possa ser o melhor amigo do outro. Também maturidade suficiente para que cada um possa alimentar a sua individualidade. Quer dizer, em vez de ser uma fusão, aquela coisa da metade da laranja que é uma coisa do romântico do século 19 que não cabe mais hoje. É a aproximação de dois inteiros que tem uma sensação de incompletude e usam o outro como remédio exigindo que o outro faça companhia, que esteja com ele o tempo todo. Então respeito pela individualidade de cada um e gosto e prazer da companhia por causa desta afinidade tanto de gostos e interesses de projetos de vida como afinidades intelectuais. Então é um tipo de aconchego, porque amor é sempre aconchego que pode ser físico, uma coisa mecânica ou um amor mais elaborado e sofisticado que é o aconchego intelectual, das afinidades e das fluências na comunicação. Exatamente como acontece também com os amigos. Então o amor de boa qualidade se aproxima muito das amizades, só que com a aproximação da sexualidade obviamente.

    (07:02:45) admirador do GIKO: Vc atende em SP ...onde ? Quanto esta a sua consulta?

    (07:15:02) Flávio Gikovate: admirador do Giko, pode entrar em meu site (www.flaviogikovate.com.br) onde poderá ter estas informações. Eu tenho uma agenda um pouco carregada, mas continuo trabalhando.

    (07:06:13) Grt: mas isso pode significar a extinção da instituição família?

    (07:17:11) Flávio Gikovate: Grt, de jeito nenhum. Enquanto as pessoas quiserem ter filhos, a melhor maneira para isso é ter um pai e uma mãe, duas pessoas para dividir as responsabilidades. A família tem uma história, o que na realidade acontece periodicamente é que acontece uma reformulação das regras na vida em família. A família está encolhendo, muitos casais não querem ter filhos. É evidente que o valor ou o peso do parentesco está diminuindo também. Primo, em minha época, era quase como irmão. Hoje eu diria que primo não quer dizer mais quase nada e irmão não está valendo o que valia. A obrigação de convívio está se modificando.

    (07:06:48) Ana: Dr. Flavio,boa noite. Ainda não tive a oportunidade de ler o seu livro, mas espero fazê-lo o mais breve possível. A minha pergunta deve ser a de muitas outras pessoas: o q será das relações familiares do século 21 sem o amor romântico?

    (07:19:45) Flávio Gikovate: Ana, vai melhorar porque no amor romântico as pessoas tem uma boa visão. Quando surgiu, inclusive, os casamentos eram arranjados pela família. O romance não existia e quando existia era fora das relações conjugais. Hoje com a individualidade crescente, as pessoas têm muito mais individualidade com os equipamentos eletrônicos, as crianças crescem mais sozinhas, com menos atividade grupal. Então naturalmente as pessoas estão mais equipadas para uma vida individual. Então vai se fazer um romance muito mais produtivo do que foi este romance grudento porque as pessoas estavam muito imaturas. O avanço tecnológico está criando maturidade e esta criando condições para que as pessoas tenham relações de melhor qualidade.

    (07:06:56) alê blue: vc tá falando que as pessoas tavam se diverciando mto e era infelizes. mas a coisa nao tá mto fugaz hj? mto descartavel? isso nao é pior? tenho a impressao que antes ttentavam mais, davam mais valor ao todo. hj fica facil terminar e parece que as pessoas sao mais infelizes

    (07:06:56) maria: será que nos tempos de hoje as pessoas são felizes? vejo de forma muito superficial essa "felicidade".

    (07:22:42) Flávio Gikovate: alê blue e maria, as pessoas não estão ainda tão individualizadas e não fizeram ainda bom uso disso, pois é evidente que não estão felizes. Mas as pessoas continuam gostando do amor romântico do passado e este não vai trazer a felicidade que está faltando. Há um mundo cheio de oportunidades e gostos individuais que têm que serem respeitados. Estamos vivendo em um momento de transição de uma época para outra e estas transições são complexas. Eu estou propondo uma coisa que ainda não se pode ver, ou seja, uma coisa que irá acontecer. E digo isto independente de mim. Não é porque eu escrevi este livro que o amor mudará de feição. Ele está mudando de feição. Quem se familiarizar com este ponto de vista se adaptará mais rapidamente ao que irá acontecer. Quem não acreditar e pensar somos seres estáticos irão continuar infelizes por muito mais tempo. Agora o momento é de grande infelicidade, de divórcios, as pessoas estão meio superficiais, outras terminam os relacionamentos muito precipitadamente, mas esta é a condição atual, vamos ver para onde isto vai caminhar depois.

    (07:11:09) mulher: Entro muito nessas salas de bate papo...principalmente ....nas salas dos mais de 50 anos.......reclamam de carencia,.......solidão.....Separam se para ficarem livres.....de uma certa forma..............Depois procuram o amor...romantismo a qualquer custo........................o que me diz disso?

    (07:24:36) Flávio Gikovate: mulher, não, as pessoas se separam porque estão infelizes. A liberdade individual é buscada com a separação quando as pessoas não têm liberdade dentro das relações afetivas. Então a relação afetiva que cerceia a liberdade não interessa para ninguém. Depois que a pessoa está livre evidentemente ela sente falta do aconchego sentimental, mas isto não quer dizer que temos que viver em uma gangorra ou amarrados no amor ou livre e carente sentimentalmente. O que proponho neste livro é um passo adiante, um amor respeitoso, próximo da amizade, onde os indivíduos tem seus compromissos, seus vínculos e sua individualidade, mas que cada um faz as suas vidas e se sente livre. Ou seja, conciliar amor e liberdade. Hoje entre amor e liberdade as pessoas optarão pela liberdade. Se tiver que abrir mão da liberdade pelo amor, ninguém vai mais optar pelo amor. A individualidade vale mais que o amor hoje. E está certo. Mas só ficam sozinhos aqueles que queiram ficar, o que se faz é criar um outro padrão de relacionamento respeitador a individualidade.

    (07:26:15) Flávio Gikovate: Morar separado é uma tentativa de resolver o problema com geografia, pode ter sentido. Às vezes os filhos da parceira não combinam com os filhos do parceiro ou quando têm hábitos diferentes etc. podem justificar isso. Mas não é essencial que a liberdade possa ser respeitada. É uma adaptação a idéia do respeito pela liberdade que quando consolidada não exige casas diferentes.

    (07:11:11) Lia: Flavio, vc acha que hj há muito divorcio pq as mulheres tem assumido sua liberdade de expressão não somente na carreira mas tbm por seus desejos e vontades

    (07:27:20) Flávio Gikovate: Lia, hoje a mulher está estudando mais, está conquistando mais liberdade. As mulheres não vão aceitar nada que não seja muito respeitoso de sua nova condição. Hoje em igualdade e em breve em superioridade.

    (07:11:12) Pietra: Tudo bem Flávio amei sua entrevista na revista ...Mas sera de onde vem esse sentimento que as vezes deixa pessoas até de cama!!!!!!!!!!!!sua uma grande fã sua ...boa noite primeiramente

    (07:30:38) Flávio Gikovate: Pietra, por mais que estejamos em evolução temos toda uma tradição romântica por trás de nós. E as mudanças se dão muito lentamente. Temos um lado antiquado que demora para ir embora completamente, isto vai durar algumas décadas. A paixão é aquele vínculo muito intenso que acontece entre pessoas muito parecidas que ainda não estão preparadas para esta realidade sentimental e quase sempre isto acaba terminando com a separação dos que se amam por vários motivos. Aqueles que ousaram levar adiante evoluíram para as melhores relações que existem, boa parte destes relacionamentos começam por outros caminhos. E outros por uma relação inversa, como uma amizade que vai ao passar dos anos mostrando maior que isso.

    (07:31:54) Flávio Gikovate: A paixão é amor de boa qualidade e em um primeiro momento dá muito medo. Quando o medo diminui e o amor ganha a serenidade as pessoas acham que a paixão se arrefeceu, que ficou só o amor. Mas isto é absolutamente equivocado, porque o que interessa mesmo é o amor. Amor não é adrenalina, não é esporte radical. Amor é harmonia, é serenidade, é porto seguro.

    (07:33:11) Moderadora/UOL:

    "Quando o medo diminui, a serenidade chega ao amor e quem tem coragem de enfrentar o início turbulento vive a melhor das relações", diz psiquiatra Flávio Gikovate (crédito: Geovanna Morcelli/UOL)

    (07:11:25) Alexandre: O senhor apregoa o fim do amor romantico, mas esquece queo amor romantico é o unico que vale a pena

    (07:34:29) Flávio Gikovate: Alexandre, lamento discordar, você está confundindo o termo amor romântico com o que está em sua cabeça. O amor romântico é aquele que nasceu no século 19 com os poetas românticos, é aquele amor da mulher idealizada, com pedestal, utópico, falso, com muito mais problemas. Tudo isto aconteceu quando o mundo era como uma cidade como Ouro Preto sem carros, sem televisão e luz elétrica. Então este mundo é outro e não adianta imaginar que as relações das pessoas não sofrerão impacto das mudanças. O homem com sua interpretação pessoal muda o mundo e o mundo devidamente modificado pelo homem obriga o homem a se adaptar a este mundo novo. E esta adaptação ao novo mundo significa criar novas regras de convívio. Há 40 anos quando surgiram as pílulas anticoncepcionais os homens acharam aquilo uma ótima notícia, pois acharam que suas esposas iriam tomar a pílula e eles poderiam ter relações sexuais dentro do casamento sem o risco de gravidez, só que poucos anos depois eles se surpreenderam ao perceber que as suas filhas aos 18 anos começaram a tomar a pílula e estavam tendo relações com seus namorados. E assim acabou o tabu da virgindade que foi uma coisa maravilhosa durante milênios e desapareceu em menos de 15 anos. Quem inventou a pílula não tinha esta pretensão de acabar com o tabu da virgindade. Então o homem cria coisas e estas coisas fazem o homem se adequar a elas sem saber as consequências.

    (07:11:37) elisa: No seu livro o sr. fala sobre relações tóxicas: o generoso x o egoísta. mas o qe percebo é que esses papéis se repetem, mesmo trocando de parceiro. é possível mudar a si mesmo?

    (07:36:02) Flávio Gikovate: elisa, é uma grande mudança, tem o generoso e o egoísta. Se você continuar sendo o bonzinho, aquele que dá mais do que recebe, irá trocar de parceiro e encontrará outro parceiro nos mesmos critérios que escolheu na primeira vez. Se você não mudar, se for repetir o mesmo erro é preferível não se separar. Quando o indivíduo repete é porque ele não teve o avanço pessoal para ter a mudança. Você tem que ver os seus defeitos, suas limitações e necessidades. Tem que avançar bastante para usufruir todos os benefícios dos tempos modernos.

    (07:11:57) Carolina: Fico pensando muito se ao admitirmos isso, não estariamos compactuando com a banalização do amor... Sera que isso a longo prazo nao seria prejudicial?

    (07:37:22) Flávio Gikovate: Carolina, não estamos banalizando, mas criando uma coisa de alta qualidade, muito melhor do que tem. A previsão é que as relações voltem a ser confiáveis, duradouras, monogâmicas e sólidas, exatamente como as pessoas sonham, só que para isso tem que escolher direito o parceiro.

    (07:11:57) Juliana: Boa noite,Dr Fávio. É possível manter a individualidade nos relacionamento e,ainda assim,desfrutar da cumplicidade,do companheirismo? Obrigada.

    (07:38:06) Flávio Gikovate: Juliana, é claro, este é exatamente o projeto que chamo de mais amor, o amor bem-sucedido no século 21, o amor com amizade mais individualidade mais companheirismo e cumplicidade são as palavras-chaves da relação de amizade. Isto é o que se pode pretender de melhor para o século 21.

    (07:12:21) Wiseman: Boa noite Dr, quanto tempo pode durar o luto pós relacionamento? Já estou no meu a algum tempo e me trouxe Transtorno Bipolar e T.O.C. como resultado e às vezes penso não passar..

    (07:40:14) Flávio Gikovate: Wiseman, se for das paixões, se o indivíduo fugiu das paixões por covardia ela pode não passar logo. Se você foi vítima de uma circunstância no qual foi abandonado, onde tem a rejeição ou humilhação, são situações muito indigestas e o luto será menor. Se a relação terminou porque já estava esvaziada, o luto será menor. Se outra pessoa interessante entra em sua vida pode acabar rapidamente. Agora em uma relação de intensidade para valer este luto poder durar de dois até três anos. Hoje menos talvez porque está tudo mais rápido. Com a depressão vem o TOC, mas o seu caso é excepcional. A dor de amor é muito forte, mais uma razão para levarem a sério este assunto.

    (07:42:15) Moderadora/UOL:

    Psiquiatra Flávio Gikovate dá dicas para viver o "mais amor", projeto no qual é possível viver plenamente o amor sem perder a individualidade (crédito: Priscila Gomes/UOL)

    (07:12:37) Marcelos: Boa noite Dr Favio. Afinal, em essencia, qual a diferença entre o amor romantico e esse 'novo" amor

    (07:43:14) Flávio Gikovate: Marcelos, no amor romântico os jovens se casam muito imaturos, era uma época em que o casamento tinha uma finalidade prática, um era mais bravo e outro mais sociável, havia uma idéia de complemento, um ajudava o outro e se fundiam em uma unidade só. Hoje temos dois seres pensantes e em igualdade de condição. Antigamente era muito fácil viver grudadinhos o tempo todo, então esta infantilidade do colinho não precisava ser superada. O amor traz um crescimento maior da capacidade das pessoas ficarem razoavelmente bem sozinhas, também para praticarem atividades de acordo com o seu gosto. Então amor tem que ser a fusão de dois inteiros muito mais parecidos, afinados com o outro e com maior respeito às afinidades que sempre existem. Hoje é a aproximação de dois inteiros, uma afinidade mais intelectual que aproxima o novo romance das amizades. É um mundo muito mais rico e interessante onde amor e liberdade se conciliam.

    (07:25:27) ellen: dr. Flávio, boa noite. O atendimento online em seu site, não tem previsão de ser reativado? Nem interesse da sua parte. Acompanho, sempre, seu trabalho. MEUS PARABÉNS..

    (07:45:23) Flávio Gikovate: ellen, eu fazia consultas e atendia a todos, parei de fazer isso quando comecei a fazer um programa de rádio na CBN todo domingo a noite. Lá eu recebo estes emails e os respondo ao vivo na hora do programa. No site da CBN tem todos os programas gravados.

    (07:25:54) kadu: na sua opinião qual o peso do sexo X amor numa relação em termos percentuais, ou não existe um padrão definido para isso, é subjetivo

    (07:48:03) Flávio Gikovate: kadu, eu digo que o sexo não tem importância nenhuma no casamento desde que vá bem. O sexo é a coisa mais importante quando as pessoas têm uma vida sexual pobre. A rigor o sexo tem que funcionar bem. Pode haver uma certa dificuldade na frequência. A intimidade física é muito boa e agradável. O sexo tem importância, tem que ir bem, senão vira grilo o que atrapalha muito. Mas não se deve escolher o parceiro pelo caminho da sexualidade, não é uma escolha bem-sucedida a longo prazo. A melhor é aquela que faz com o aval da razão, do coração e do erotismo.

    (07:26:01) jonas: o amor platonico como você encara?

    (07:49:11) Flávio Gikovate: jonas, é o amor típico do romantismo, é tratado como o amor assexuado. O amor de fantasia existe até hoje. As meninas no começo da puberdade ficam com o amado na cabeça e nem ousam avisar o amado que é amado. Agora, o amor assexuado na vigência de um relacionamento para valer mesmo é uma coisa que funciona muito mal. É preciso que haja intimidade física, ela precisa fluir bem porque hoje as pessoas se sentem muito frustradas. Vivemos em uma cultura que privilegia e valorizar extraordinariamente a sexualidade. Então quem não tiver uma vida sexual legal vai se sentir altamente prejudicado por comparação com as outras pessoas.

    (07:26:19) Cambacica: Lí o seu livro:Final Feliz e fiquei surpresa,pois eu já estou vivenciando o meu individualísmo e uma espécie de relaçao semelhanteà sitada por você no livro.E olha que não sou novinha não!!Já tenho 62 aninhos.Você acha mesmo que o homem ama uma mulher?Eu acho que o homem só se liga no sexo,não no amor.Estou enganada?

    (07:51:48) Flávio Gikovate: Cambacica, acho que você está enganada, todo romantismo do século 19 foi feito e escrito por homens, então é uma injustiça para com os homens dizer que eles são obcecados pela sexualidade. O romantismo como literatura é uma criação masculina. A sua idade não me surpreende porque com a maturidade as pessoas conseguem os avanços necessários para o crescimento de boas relações afetivas. Fico feliz por você. O meu propósito é que as pessoas consigam este nível de qualidade bem mais cedo. Eu adoraria ter lido este livro aos 20 anos de idade, pois teria evitado vários contratempos. São pouquíssimos os textos sérios sobre o amor. No amor mesmo, de como tudo funciona, tem muito pouco trabalho. E este meu livro é original e um fruto destes 40 anos de trabalho. É a oitava e última vez que escrevo sobre o amor.

    (07:43:45) Augusto: Boa noite dr. Gikovate. É possível ter uma relação com a família de base distante, com a presença de traumas e problemas mal resolvidos, encontrar alguém e conseguir conquistar um estado relacional amoroso, viver uma certa plenitude amorosa que se diferencie das experiencias anteriores?

    (07:52:39) Flávio Gikovate: Augusto, não só é possível, como um dever e obrigação. Cada geração tem que ter um avanço em relação a anterior. Tem que entender tudo o que aconteceu em sua família ao máximo e tentar corrigir, tentar construir uma família corrigindo o que seja um avanço em relação ao que você pôde verificar em sua casa

    (07:44:00) maria: Boa noite! quem ama não manipula a relação,esse sentimento é doentio?

    (07:53:47) Flávio Gikovate: maria, é doentio manipular, quem ama não manipula, mas sim quem é amado. O generoso ama e o egoísta se deixa amar. O generoso apenas tenta dominar através da bondade, tenta fazer o outro dependente dele. É uma certa manipulação também, mas não uma manipulação direta. Tem gente que faz chantagem sentimental. Aquele que ameaça divórcio é o egoísta.

    (07:44:03) admirador do GIKO: A pessoa que nao consegue esconder nada do seu parceiro, que nao consegue sair com amigos, que nao consegue trair, mesmo tendo o desejo de....esta com sua individualidade ferida? O que fazer quando vc está com a individualidade asim? Como recuperar sua INDIVIDUALIDADE?

    (07:55:46) Flávio Gikovate: Gikovate: admirador do Giko, tem coisas que temos que renunciar mesmo em função de valores que nos propomos a respeitar. Se o trato de fidelidade se constitui dentro de uma relação, evidentemente que eu posso ter vontades outras, mas terei que me restringir, operar dentro dos limites da norma que eu mesmo ajudei a construir e do qual espero uma reciprocidade dela. No caso de ir beber com os amigos bater papo não tem problema da mesma forma que ela faça o mesmo. Acho mais razoável as pessoas afrouxarem os direitos de cada um. Se acumular frustrações acaba desenvolvendo ressentimento contra ela, o que não ajuda.

    (07:44:05) Dunga: boa noite, gostaria de saber do doutor gikovate, se ele poderia estabelecer um paralelo entre sua tese do medo da felicidade e da constante situação da preocupação com a aparencia física apresentada pelas pessoas ? obrigado

    (07:57:40) Flávio Gikovate: Dunga, são duas coisas completamente diferentes. A preocupação com a aparência física tem a ver com a vaidade, isto sempre houve desde as tribos mais primitivas, mas nunca assumiu as proporções que tem assumido nestes últimos tempos. A preocupação com a aparência tem sido responsável por inúmeras cirurgias com gastos monumentais de dinheiro. O medo da felicidade não tem nada a ver com a vaidade, é uma sensação que parece que a gente tem quando está tudo em ordem e parece que vai cair um raio em nossa cabeça. Este mecanismo tem a ver com o trauma do nascimento

    (07:44:17) Nah: é verdade que falam que quando vc não esta pensando no amor ele aconteci ?

    (07:58:26) Flávio Gikovate: Nah, ficar pensando e esperando não adianta muito. A verdade é o seguinte, quando um indivíduo tem um parece que imediatamente todas as outras pessoas do mundo começam a achá-lo interessantíssimo

    (07:54:13) Janaina: Vc concorda que as pessoas bem resolvidas encaram as relaçoes amorosas como complemento para sua vida e não são escravas desse sentimento?

    (07:58:36) Flávio Gikovate: Janaina, estou 100% de acordo.

    (07:54:15) Moderadora/UOL:

    Dr. Gikovate explica a diferença do amor de antes, para o atual: "Antigamente havia a fusão de duas metades. Era uma relação de complemento, com liderança do homem. Hoje, o romance é aproximado pela amizade através do aconchego intelectual e da união de indivíduos inteiros" (crédito: Priscila Gomes/UOL)

    (07:54:57) Sou_EU (H): Por que, quando tudo parece mil maravilhas num relacionamento, fazemos algo destrutivo ou procuaramo "pelo em ovo" naquilo que esta dando certo?

    (07:59:34) Flávio Gikovate: Sou_EU (H), este sim é o medo da felicidade, a tendência de sabotar as coisas quando estão muito bem. É o responsável por um comportamento auto-destrutivo. Criar uma briga em um relacionamento de boa qualidade por uma bobagem é um truque para estragar a felicidade.

    (08:02:53) Flávio Gikovate: O ciúme determina este tipo de ação e faz parte de uma imaturidade possessiva. A reação agressiva quando contrariada ou quando a pessoa se vê humilhada é própria da imaturidade emocional. A pessoa madura fica triste, mas não tem tanta raiva. Freud dizia que a imaturidade é quando trocamos a raiva pela tristeza. As pessoas mais imaturas quando humilhadas e às vezes sentem a infidelidade ou traição como humilhação podem cometer atos totalmente desatinados. Mas isto é próprio de temperamentos muito imaturos e totalmente desprovidos de sentimento de culpa. A violência a este ponto é sempre de quem está nos extremos, próprios de pessoas que tem um comportamento anti-social, de pessoas que podem matar enteados e coisas deste tipo. Matar é raro, mas maltratar é muito comum. O número de pessoas sem formação moral mínima, sem sentimento de culpa com relação aos outros é enorme. E em alguns casos nem têm medo de represália ou de castigo. Estas pessoas no desespero não medem consequências e fazem o que vier na cabeça na hora e seja o que for.

    (07:55:39) cocota: qual o final realmente feliz de uma história de amor?

    (08:04:22) Flávio Gikovate: cocota, existem dois: um é o indivíduo que gosta e curte viver só, isto é perfeitamente possível no mundo moderno. O outro final feliz é a pessoa igualmente constituída de sua individualidade que encontra um parceiro igualmente maduro e individualizado, ambos com temperamento e caráter parecidos, com afinidades, gostos e interesses que tenham a possibilidade de estabelecer esta conexão de intimidade intelectual, um aconchego adulto e maduro parecido com o da amizade. E por cima tenham uma afinidade de gostos eróticos um pelo outro. Então se criam todas as vantagens do viver só, assim não cercearão a liberdade do outro e por cima os prazeres do aconchego intelectual e convívio com uma pessoa que possa te fazer ainda mais feliz do que aquilo que pode acontecer quando você está sozinho.

    (08:04:42) Flávio Gikovate: Agradeço a esta oportunidade. Obrigado.

    (08:04:46) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Flávio Gikovate e de todos os internautas. Até o próximo!


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