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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Marcelo Rubens Paiva - 08/12/2008 às 19h00

Escritor conversa sobre o lançamento do romance "A Segunda Vez Que Te Conheci" (Editora Objetiva). No livro, Rubens Paiva conta a história de Raul, um homem apaixonado pela justiça e a ética jornalística que se torna um agenciador de prostitutas após perder o emprego em uma conceituada revista. O romance tem como pano de fundo a história de um casal que se separa e seis anos depois volta a ficar junto, trazendo a discussão sobre se o amor acaba ou não.

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    (07:07:29) Rubens Paiva: Boa tarde, internautas... A minha pergunta é, se um casal se separa como seria este reencontro anos depois. Será que eles serão as mesmas pessoas? Será que o jeito de se beijarem é igual? Será que neste intervalo não aprenderam coisas diferentes ou mudaram o seu jeito de ser? Será que é outro tipo de amor? Pensando nestas coisas que me deu vontade de escrever este o "A Segunda Vez Que Te Conheci" que fala de um casal que se separa. Inventei um protagonista jornalista que se sente muito culpado por não se dedicar a relação assim como todos os jornalistas se sentem culpados, pois têm uma vida totalmente tumultuada, talvez uma das profissões mais sem horário que existe, acorda no meio da noite, tem que fazer matéria às três da manhã, trabalha no reveillon, no carnaval. E a mulher esperando o marido aparecer no aniversário do pai ou da mãe, no aniversário de casamento e o marido sempre ocupado. Então imaginei esta situação. É um casal que se amava, mas ele acha que ela se separou por causa do trabalho e ela disse que não, que se separou devido a outras razões. E um tempo depois eles se reencontram, a minha tese é esta, como será que este amor sobreviveu. O livro é a minha opinião a respeito deste assunto, pode ser que os personagens tenham um final feliz ou não, o leitor irá descobrir isto nas duas últimas páginas.

    (07:11:20) Rubens Paiva: Sobre o personagem que vira cafetão, o livro começa com o personagem se separando e sendo demitido. A única coisa que lhe sobra é um carro. E vai para um flat que é suspeito, onde garotas de programa tomam banho de piscina de manhã e na hora do almoço e à noite trabalham, seja no flat ou fora. Uma delas lhe pede uma carona, ela dá a carona e ela lhe dá a porcentagem do programa. Ele acaba se envolvendo e adquire esta nova profissão. Daí chama colegas jornalistas para ajudá-lo no site que ele monta, chama um foto-jornalista para tirar fotos das garotas de uma maneira mais artística e menos pornográfica. Esta foi uma brincadeira que comparando jornalismo a prostituição. É uma brincadeira porque o jornalista, como profissional, convive muito com um ambiente em que vão também prostitutas. E não é uma coincidência, é devido aos horários, eles vão aos mesmos bares e boates que as garotas de programa. São pessoas que trabalham no centro da cidade e fazem plantão. Então sempre houve este "casamento" entre jornalistas e este submundo da cidade de São Paulo. Bares como o Sujinho que é mais conhecido como "bar das putas" e também é um bar frequentado por policiais e jornalistas. Boates como a Love Story, que atualmente é um dos programas turísticos mais importantes para quem gosta de balada, é um lugar onde frequentam este tipo de gente. Então sempre houve este casamento. Foi uma brincadeira entre o trabalho do jornalista que às vezes faz a notícia pelo dinheiro e o trabalho da prostituta que faz o sexo pelo dinheiro.

    (07:12:59) Geovanna/UOL:

    Marcelo Rubens Paiva conversa sobre seu novo romance "A Segunda Vez Que Te Conheci" (Geovanna Morcelli/UOL)

    (07:03:13) juliana: olá, marcelo. tudo bom? li seus outros livros e notei que boa parte dos seus personagens tem uma ligação com o mundo da comunicação, há algum motivo especial pra isso?

    (07:13:11) Rubens Paiva: juliana, talvez por eu ser oriundo deste mundo, acho fascinante. Adoro o que faço, todos os meus amigos são do mundo da comunicação. É um mundo importante, é um negócio importante. E não é só eu que gosto, na USP, por exemplo, os vestibulares mais concorridos são desta área. As pessoas gostam, o mundo vive de troca de informações, de oportunidades de acesso e novidades. Um paulista como eu é um cara que gosta de mostra de cinema, de Bernal, de Feira do Livro, de Virada Cultural etc., então é fundamental para um paulista clássico gostar de cultura. Este universo eu acabo trabalhando em meus livros. Sempre fui um sujeito urbano, sempre morei sempre em cidades grandes seja no Rio de Janeiro ou em São Paulo, sempre fui muito ligado a cultura, sempre li muito jornal desde a minha infância. Então os meus os meus personagens certamente refletem este universo.

    (07:04:18) Jessyca: Oi marcelo tudo bom? Tenho 15 anos moro no espirito santo e ano passado eu li seu livro, feliz ano velho, me apaixonei, já li eli mais de 5 veses, agora eu estou lendo blecaute, infelizmente na minha cidade não existem livros teus. Queria te dar parabéns pelo trabalho!

    (07:14:34) Rubens Paiva: Jessyca, entra na internet, tem capitais brasileiras que não têm livrarias. E uma das bases econômicas da internet começou com vendas de livros, a Amazon.com. Então pela internet dá para comprar livros e inclusive tem uma rede de sebos. Cidades que não têm livrarias ou bibliotecas podem obter livros pela internet.

    (07:03:24) Nathanael: Olá Marcelo. Esse ano descobri sua produção literária com 'Bala na agulha' e 'Feliz ano velho'. Prestes a fazer 18 anos, percebi que os dois livros ainda são, ou podem ser, muito atuais (claro que respeitando o fato da ficção e tal)

    (07:14:57) Rubens Paiva: Nathanael, é um elogio saber que estes livros são atuais. Isto é uma forma que temos de procurar fazer literatura universal, literatura que fala de coisas que perduram, não só de coisas fugazes.

    (07:16:48) Rubens Paiva: O livro "Feliz Ano Velho" é de 1982. Tem muita gente que não leu este livro, mas leu outros livros meus. Nesta época não existia celular, internet, fax ou vídeo. É um livro que fala de coisas que vão ser para sempre. E uma delas é a importância dos amigos, da família, o carinho que temos pela vida, o amor pela vida atravessando o processo de uma tragédia e uma reabilitação muito difícil. Mesmo assim se está ali querendo vencer, superar, amar, namorar, ter amigos e uma nova profissão. Esta é a base do livro. É um cara de 20 anos que sofre um acidente muito grave, que tinha uma vida "bem legal" e de repente quer ela de volta. Ele luta apesar de todas as dificuldades para manter o bom humor e pensar para frente.

    (07:04:42) Neil Young: Marcelo e o filme sobre a fiel?

    (07:05:27) Fernando: è mesmo e o filme Sobre O nosso timao

    (07:18:23) Rubens Paiva: Neil Young e Fernando, este filme já está gravado, os depoimentos já foram tomados. Eu fui convidado para ele em um processo já em andamento. O Sergio Groisman fez o roteiro, a Andréia Pasquim é a diretora e o Gustavo Ioschpe teve esta idéia de fazer um filme sobre a queda do Corinthians e a sua volta para a série A. Com o apoio da nova administração do Corinthians, apesar de ser uma produção independente, eu e o Serginho fizemos o roteiro buscando muito o emocional desta torcida falando da queda e da ascensão para a série A. Está na montagem e certamente deverá estar nos cinemas em março do ano que vem.

    (07:07:37) mary19: Olá Marcelo, escrever pra mim é quase como respirar, e tenho interesse em publicar o que já escrevo, só que às vezes me pego pensando que poderia ser mais útil à sociedade servindo em outra profissão do que entretendo com as minhas histórias. você já se questionou assim?

    (07:19:25) Rubens Paiva: mary19, não, para mim é o contrário. Quando faço televisão sempre acho que eu seria mais útil escrevendo. Ou quando trabalho na produção de um programa acho que eu seria mais útil em uma coluna de jornal. Então se você não gosta de escrever tem que pensar em outra atividade que seja útil ou importante para você.

    (07:10:22) Malu de Bicicleta: Oi, Marcelo. Adoro todos seus livros. Vc já pensou em deixar de ser jornalista para se tornar um cafetão? hahahaha Ou qq outro ramo de atividade?

    (07:21:52) Rubens Paiva: Malu de Bicicleta, lancei este livro há uns quatro anos e vai virar filme. Será filmado em meados do ano que vem. Está em fase de pré-produção e o filme "No Retrovisor" já captou grande parte e só falta um pouco para começar a filmar. Sabe que os melhores cafetões são mulheres porque quando um cara liga para agendar um programa se for mulher o cliente ele se sente mais a vontade. Existe cafetões homens, mas para uma mulher seria melhor esta profissão. Mas não teria a cara de pau para lidar com este meio, mesmo porque tem que ter um coração duro. Apesar de o livro ser divertido, é uma coisa ruim a mulher se prostituir. Não estou rindo de decisões bastante delicadas na vida de uma mulher que tem um filho que precisa ser sustentado ou que precisa pagar um tratamento ou precisa sustentar a mãe. Todas se prostituem pelo dinheiro, então não é uma profissão fácil de se abraçar.

    (07:22:57) Rubens Paiva: A cafetina deixa o cara a vontade e o homem o deixa meio embaraçado por ser outro homem, poderia humilhá-lo. O homem é competitivo, quem tem o pinto maior, quem conquista mais mulheres, rola neste mundo machista, mais antigo este tipo de culto de quanto mais conquistas você tem, mais é bem sucedido na turma. Estes caras de antigamente que hoje vão atrás de prostitutas, a garotada não vai atrás disto.

    (07:10:58) Débora: Nos relacionamentos duradouros, contratuais ou não, é possível o casal manter a lucidez sem partir para a típica novela mexicana? Sabemos que o bom humor, bom sexo e cumplicidade ajudam, e de certa forma pronlonga. Certos parceiros possuem tudo isso, e mesmo assim um casamento afunda. É um mal do homem contemporâneo, ou ninguém ama alguém até o infinito? Como diz um trecho do seu último livro.

    (07:24:58) Rubens Paiva: Débora, no meu livro eu digo que o infinito é apenas uma poesia, é para os poetas. Eu não tenho a fórmula do amor, isto é mais antigo do que a invenção da roda, estes questionamentos em torno do amor. Se nem Shakespeare, nem Platão ou Dostoievski explicam eu não vou explicar. Esta trilha do bom humor, do bom sexo e da cumplicidade já é um avanço, são temperos bastante fortes para manter uma relação saudável. Tem casais que brigam e casais que brincam, se fala a verdade por meio de brincadeiras, é tão engrandecedor brincar e rir das neuroses que são construídas a partir de uma relação a dois. Neuroses que são inerentes do jovem, do velho, do homem contemporâneo, do homem do passado. Porque realmente é difícil partir. Conheço casais casados há 20 anos ou 30 anos que estão bem e casais casados há meses que estão mal, então não dá para explicar porque algumas relações terminam..

    (07:13:59) Henrique: Paiva, existem uma leva de escritores nacionais com notável potencial. Qual equívoco ou vício mais frequente você costuma notar nestes jovens escritores?

    (07:27:00) Rubens Paiva: Henrique, tem o vício de construir frases difíceis, detesto este tipo de literatura. "Andou pelo meu pensamento", não, "pensei em coisas". Tem uma herança dos jovens escritores de às vezes fazer um rebuscamento barroco, cafona de sua literatura que me desagrada muito. Gosto daquele escritor jovem que fala uma linguagem mais moderna, mais coloquial, econômica e precisa. Não gosto de escritor jovem que enrola. Existe uma geração nova de escritores brasileiros maravilhosa. Se comparado a quando comecei que existia um marasmo muito grande na literatura brasileira, hoje está um borbulhar. Um pouco em função do barateamento do mercado editorial, da indústria editorial que facilita para a editora até a perder dinheiro investindo em novos autores. Hoje em dia muitas editoras estão interessadas neste tipo de autor, de revelar autores. Assim como a própria blogosfera acabou revelando nomes que sem a internet talvez não seriam conhecidos. Então gosto de muitos autores, não citarei um para não esquecer ninguém.

    (07:14:12) Nathanael: boates como a Love Story são engraçadas porque remetem ao filme que fala cobre a descoberta e perda do amor. Bem como você também faz nesse livro. Quero saber sobre o processo de pesquia, ir a esses lugares e ver todo tipo de gente. Como foi?

    (07:29:20) Rubens Paiva: Nathanael, eu comecei a pensar neste livro há uns dez anos, comecei a realizar há uns quatro anos e mergulhei mesmo neste processo há dois anos. É um universo que gosto, gosto de ir no Love Story, de andar pela rua Augusta, frequento os locais de lá há muito tempo. Quase todas as minhas grandes peças foram encenadas no teatro Augusta. Enquanto a peça rolava eu ficava na calçada conversando com as meninas. Então não foi difícil, foi divertido, pois é um ambiente que eu conheço. Quando fui morar em SP pela segunda vez aos 14 anos a coisa que mais me fascinava era a vida noturna, a boca do livro, a rua Augusta, as boates que não fechavam. Isto sempre me fascinou, cheguei a morar ali perto em Cerqueira Cesar. Então não foi difícil esta pesquisa. Já conhecia a maior parte das histórias que cito no livro.

    (07:30:14) Rubens Paiva: O fenômeno das prostitutas de luxo já existe há uns 20 anos. Hoje com a internet isto é uma coisa fantástica. De todas as cafetinas que entrevistei cada uma usa de um jeito mais original que a outra.

    (07:14:31) Alan Bergamota: Marcelo, a forma como a sua escrita hipnotiza e encanta seus leitores é incrível. É uma leitura densa e ao mesmo tempo tão crua e verdadeira. Tenho 20 anos, mas fui ter contato contigo aos 18. É fato que a uma parte considerável de seus leitores são jovens, adolescentes. Como é essa recepção de sua parte?

    (07:31:38) Rubens Paiva: Alan Bergamota, eu busco isso, não busco fama, sucesso, explosões de vendagem, apesar de o meu primeiro livro ter sido um mega sucesso. Não fui atrás disso, mas atrás de um estilo, uma narrativa que eu gostasse e tivesse prazer de escrever. Eu poderia escrever um best-seller, saberia escrever um livro facinho com um drama ofegão. Mas prefiro escrever sobre o submundo da rua Augusta. É um estilo econômico, preciso, ele não enrola. Como tenho um passado de amante da filosofia muito grande, sempre uso os questionamentos filosóficos do homem desde os pré-socrasticos. Esta simplicidade que faz com que tenha este público grande de jovens.

    (07:17:17) Danilo - Sp: e gostaria de saber o pq da demora de um novo livro?

    (07:33:09) Rubens Paiva: Danilo - Sp, porque é difícil escrever um livro, não é fácil. Tem escritores que conseguem escrever um livro em três ou quatro meses. Eu já demoro, gosto de ler e reler. Este livro tinha uma narrativa diferente, daí mudei tudo. Eu curto este processo de ficar parindo um livro, é muito gostoso, é como fazer castelinho de areia, por isso demoro bastante. Desde o começo do livro já entrego para alguém ir lendo, tenho pessoas selecionadas para isso, escuto muito as opiniões e as respeito. Faço muita troca com os meus amigos e editores.

    (07:34:07) Rubens Paiva: Sobre a dramaturgia e a literatura, todas se ajudam, mas são muito diferentes. A dramaturgia é boa para você criar personagens, diálogos, situações de conflitos e sair destes conflitos criados. A dramaturgia me ajudou em muitos romances assim como os romances me ajudam em muitas crônicas, mas são coisas muito diferentes ente si. Quando faço teatro penso na técnica teatral e quando vou fazer romance penso na técnica de romance.

    (07:23:23) garota legal: oi rubens vc se diz um cara urbano mais nunca sentiu vontade de largar isso tudo e viver um pouco mais recluso longe da loucura da vida moderna?

    (07:35:00) Rubens Paiva: garota legal, nem um pouco, entrarei em depressão profunda se for para um lugar recluso como uma praia. O lugar mais recluso que morei em Campinas. Sou um ser cultural.

    (07:24:44) garota legal: mais rubens vc nao é contra os downloads...e o problema do direito autoral?

    (07:36:51) Rubens Paiva: garota legal, este é um problema, tenho dois livros meus pirateados na internet. São os dois primeiros livros. Nós vivemos disso, infelizmente agora os escritores estão enfrentando os mesmos problemas dos músicos. Fico chateado com isto, gostaria de colocar alguns livros meus para download gratuito, mas ainda prefiro o sistema da indústria cultural, que o mercado ganhe dinheiro. No caso do disco, os artistas se deram bem com os shows, inclusive alguns que estavam esquecidos foram recuperados com a internet. No caso do escritor, se todos os meus livros forem pirateados vou desanimar, não vou mais ter vontade de escrever. Tenho um prazer em ir a livraria, gosto do cheiro do livro, o CD vai acabar, mas o livro não.

    (07:25:25) Anderson Lopes: Boa noite Marcelo. Você ganhou o prêmio Jabuti com o livro 'Feliz ano Velho". Você quando escreve um livro pensa na repercução que ele possa ter ou isso é indiferente?

    (07:37:36) Rubens Paiva: Anderson Lopes, para mim é indiferente, claro que eu adoraria ganhar prêmios, inclusive porque eles hoje são em dinheiro, mas não é para isto que eu escrevo, até porque seria uma falsidade fazer um livro para ganhar prêmios ou para vender. Não estaria sendo honesto comigo mesmo e não seria uma pessoa realizada como sou.

    (07:28:05) willgama: alô rubens, infellizmente ainda não tive oportunidade de ler teus livros, mas gostei do que li a respeito dos teus livros. Mas queria te perguntar se você as vezes tem dificuldade em manter a disciplina pra escrever, há algum ritual que você segue?

    (07:39:35) Rubens Paiva: willgama, às vezes eu tenho dificuldade, todo escritor tem este problema, temos que nos trancar, a nossa vida é um tumulto, isto é difícil. Ainda mais no mundo de hoje em que o instrumento em que trabalho é o mesmo instrumento em que é postado um milhão de vídeos por dia. Então fico ligado na minha literatura e no que está rolando na internet. Hoje está mais difícil se concentrar. Não tenho nenhum ritual. Eu fumava muito escrevendo e tomava muito café, mas parar com isto não mudou absolutamente nada.

    (07:30:35) Nathanael: Na sua opinião, qual seria os motivos que levam as pessoas a ainda procurarem sexo com prostitutas depois da revolução sexual?

    (07:40:42) Rubens Paiva: Nathanael, é a facilidade, a rapidez. O cara precisa descarregar então procurar uma mulher obediente, fácil de terminar, você faz o ato e termina e ela te obedece, em que é fácil de manipular. Então o cara que procura isto é aquele que sente saudades do universo machista em que o homem controlava a mulher, aquela coisa cultural que ainda está incontida nas pessoas mais velhas e também muito no inconsciente do universo masculino de querer dominar a mulher. Também os caras carentes e solitários, tem de tudo né.

    (07:32:17) Luma: oi marcelo, em 'a segunda vez que te conheci' percebemos muitas relações com 'malu de bicicleta', você já pensava em escrever ele quando fez malu?

    (07:41:46) Rubens Paiva: Luma, tem personagens comuns. Isto foi uma graça que fiz que quem conhece bem o livro "Malu de Bicicleta" vai perceber na "A Segunda Vez Que Te Conheci". O "Malu..." tem uma passagem sobre prostitutas. O personagem Luis Mário perde a virgindade com prostitutas e vira um grande galanteador, ele praticamente aprende as coisas com as prostitutas. Inclusive este personagem está no "A Segunda Vez...", é uma espécie de um falso sábio. Quando escrevi "Malu..." não pensei em fazer uma sequência depois. No "A Segunda Vez..." tem quase uma continuação através de outros personagens.

    (07:33:25) paula: como é ser reconhecido nacionalmente como um bom escritor? vc tbm tem crises criativas? com lida com isso?

    (07:43:28) Rubens Paiva: paula, pelo contrário, tenho crises de não ter tempo suficiente de fazer tudo o que tenho vontade de fazer. Tenho muitas idéias e sou muito convidado, às vezes tenho que sacrificar um projeto para fazer outro. Então nunca apareceu esta crise de não ter o que fazer, pelo contrário, me falta tempo. Estou com uma peça que comecei há uma semana empolgadíssimo e na outra semana bloqueou. Se bloqueia é porque tem problemas, se flui está amarradinha em sua cabeça. Se bloqueia deixo a idéia amadurecer e busco razões para o bloqueio, às vezes abandono.

    (07:36:22) Daniel: O Fêmeas é a compilação de várias crônicas suas pulicadas na Folha. Vc tem vontade de repetir a dose com outro projeto desses? Por sinal adoro aquelas crônicas...

    (07:44:16) Rubens Paiva: Daniel, escrevi "O Homem que Conhecia as Mulheres" há dois anos, são outras crônicas publicadas na Folha, na Playboy e várias revistas além do Estadão que é onde eu tenho coluna agora. "As Fêmeas" é de 1994 e agora em 2006 publiquei este outro livro de crônicas, é uma compilação de 12 anos de crônicas sobre mais ou menos o mesmo tema.

    (07:38:12) Henrique: No seu livro "O Homem que conhecia as mulheres" existe uma parte que o personagem diz algo como: boquete de puta é o melhor. Um único sexo pago com uma prostituta estonteante vale mais que dez anos de casamento desgastado?

    (07:45:43) Rubens Paiva: Henrique, de jeito nenhum. O personagem fala isto porque é uma criação minha, que gosta de prostitutas, como existem caras que adoram prostitutas, mas não que eu pense assim ou defenda isso. Eu não pratico sexo pago, não gosto, acho deprimente, não vejo graça. Já pratiquei quando adolescente. Prefiro ficar sozinho em casa a ir atrás de prostitutas. Mas sei de pessoas que gostam, que adoram boquetes de prostitutas. E tem gente que elogia muito boquetes de travestis, coisa que nunca fiz em minha vida. Tenho ojeriza total, mas se um dia eu escrever um livro com um personagem elogiando um boquete de travesti não quer dizer que eu pense assim.

    (07:38:38) juliana: e, proveitando que o assunto expandiu: adorei malu de bicicleta, acho que é meu favorito. depois de ler, discuti sobre o final com um amigo e surgiu um impasse. quem sofreu mais com os acontecimentos? malu ou luiz? ele por se fazer sofrer ou ela por perceber, de fato, o que acontecia num baque só, sem necessariamente esperar por aquilo?

    (07:49:37) Rubens Paiva: juliana, sem dúvida quem sofreu mais foi o cara porque ele é um idiota. É um cara galinha, o solteirão convicto, mais conhecido como o comedor. E ele conhece esta mulher no RJ, se apaixona loucamente e se casa com ela. Aí começa a ter um ciúme doentio, o livro inteiro é sobre isto, se este ciúme é real ou de sua imaginação. Mais tarde se descobre que este ciúme acaba matando uma relação que era linda. O ciúme é uma afronta a estar casado, já vivi com relações com pessoas ciumentas, já fui ciumento em algumas relações. A idéia era mostrar o quanto o ciúme é destrutivo. O babaca era o cara, ele tinha uma mulher maravilhosa nas mãos e devido ao ciúme pirou. Em meu caso, já tive relações com ciúmes e outra não, mas foi a dinâmica da relação que alimentou este ciúmes, a garota com quem eu me relacionava alimentava este ciúmes, fazia isto de propósito. E eu não sou ciumento, sou um cara tranquilo. Já reclamaram que eu não sou ciumento, como se não amasse a pessoa. Dizem que um pouco de ciúmes é bom, mas acho que qualquer tipo de ciúme é destrutivo, é prova de insegurança. Quem tem ciúmes tem que se tratar, ver porque ela tem ciúmes e não jogar em cima da outra pessoa o seu ciúme. Eu tive relações ciumentas em que fui provocado.

    (07:51:14) Rubens Paiva: O meu escritor favorito é o Machado de Assis, ele fez de tudo, teatro, poesia, romance, crônica... criou grandes personagens, retrata as neuroses com uma profundidade inacreditável e com bom humor, o que é mais marcante. Sobre a minissérie sobre "Dom Casmurro" será fantástica, marcante.

    (07:43:17) Eleanor Rigby: Vc disse q "Malu de Bicicleta" vai virar filme, vc tera alguma participação na transformação do livro em roteiro ? pergunto isso pois achei o Filme "Feliz ano Velho" bem diferente do livro, o livro é uma lição de vida bem pra cima, já o filme achei mais pesado e triste .... impressão minha ? rs

    (07:53:27) Rubens Paiva: Eleanor Ribgy, não é, o filme é mais triste que o livro e isto foi proposital, o diretor escolheu isso. No caso de "Malu...", fiz o roteiro e vai virar filme, mas ainda terei que mexer mais no roteiro. Sobre o filme "Feliz Ano..." ele tem o seu potencial, o seu mérito, não sei se faria do mesmo jeito, pois é muito difícil avaliar se o filme é bom ou ruim sendo eu o próprio personagem. Já em minha obra de ficção é mais fácil, por isso faço questão de meter a mão.

    (07:44:42) Henrique: Marcelo, partindo para porralouquice da coisa. "Amor de pica sempre fica" Na sua opinião é comum este fato ocorrer entre casais separados? Aquela vontade de fazer um "remember" básico? Haha

    (07:55:16) Rubens Paiva: Henrique, ótima pergunta, vamos chutar o pau da barraca. O amor de "pica fica" é para o homem, já a mulher parte para outra. O homem às vezes tem esta vontade de manter o seu pequeno harém, claro, não é geral. Mas com a mulher não, ela vai embora. Também não há regra, tem homem que corta a relação total e não quer mais saber, alguns admiram a mulher, mas não tem mais tesão. Comigo, se acabou, é porque já tinha um problema grave, mas não acho que as pessoas devam ser assim. Cada um termina de um jeito, pode voltar, ter fantasias e tal.

    (07:47:28) Törless: Que você acha desse lance de limitar a meia entrada em espetáculos?

    (07:58:46) Rubens Paiva: Törless, sou totalmente contra a meia entrada, sou a favor dos artistas que apóiam isto. Fiz uma peça em Salvador em que 90% era de meia entrada, foi uma grande falsificação de carteirinhas, não faço mais peças lá. Este problema está chegando ao Brasil inteiro. Com a falsificação não deu certo este lance da meia entrada. Tem que pensar em uma possibilidade de fazer os ingressos serem mais baratos. Se acabar com a meia entrada vai haver uma queda nos preços. O Radiohead está a R$ 100 ou R$ 200, se não tivesse a meia entrada estaria a R$ 150 para todo mundo. No Brasil todo mundo quer ter um privilégio. Se conseguirmos terminar com estas torneirinhas talvez consigamos fazer um ingresso barato para todos. Sou contra a meia entrada.

    (07:46:16) Nathanael: Você mencionou a blogosfera. A pergunta mais clichê: você já pensou em criar, escrever um blog? Por que?

    (08:00:26) Rubens Paiva: Nathanael, até então eu não pensava, mas hoje eu penso. No ano que vem irei começar um blog, sou fã desta linguagem. Ela veio para ficar, é divertida e interessante. Tem blogs bons e outros ruins. É um universo fascinante. Não é que eu desprezava, eu tinha outras prioridades. Muita gente me pergunta se tenho blog ou site, mas não tenho nada disto, nem Orkut eu tenho. Estes são meios legais de divulgar os trabalhos, esta linguagem combina comigo.

    (08:01:57) Rubens Paiva: Sou contra aqueles que acham que a língua tenha que ser uma coisa fixa. Sou a favor da evolução da língua, se daqui a pouco todos começarem a escrever "vc" em vez de "você", o que é coloquial passar a virar norma culta. Sou contra escrever incorretamente como o gerundismo, mas não contra o uso de siglas. Inclusive a internet nos revelou o quanto é inútil o uso de acentos.

    (07:55:51) Anderson Lopes: Você disse que quando escreveu "Feliz Ano Velho" era punk e ouvia clash... Em que momento você estava quando escreveu o seu livro atual? Você acha que isso interfere, influe em alguma coisa?

    (08:03:53) Rubens Paiva: Anderson Lopes, com certeza, estou com uma camisa do Sex Pistols, sou fã do movimento punk, os seus ideais estão em minha cabeça até hoje. Não sou aquele coroa que vai ouvir punk aos 70 anos, mas sempre irei admirar. Já ouvi muita música clássica, jazz, ópera e música brasileira. Não tenho uma discoteca uniforme em minha casa. Só não gosto de música ruim e de axé, pagode e sertaneja. Mas gosto do sertanejo antigo, do samba tradicional, da música baiana de antes do axé. Não pretendo escutar Malu Magalhães, já escutei uma música dela, acho um porre. Detesto brasileiros que cantam em inglês como Malu Magalhães e Sepultura, desprezo todos eles.

    (07:56:37) Malu de Bicicleta: Certa vez pude participar de um debate em que vc e a Bruna Surfistinha estavam debatendo literatura na Internet. Confesso que achei lamentável o que aquela menina dizia, longe de preconceito. A minha pergunta é: você acha que a internet colabora ou empobrece a literatura?

    (08:06:38) Rubens Paiva: Malu de Bicicleta, os dois. Saramago tem um blog, Caetano tem um blog genial, o Zeca Camargo tem um blog incrível, ele posta a cada três dias trechos enormes falando de viagem, de música. São blogs que enriquecem a internet, são bons, discutem os temas atuais. E claro que tem os blogs porcarias. Sobre a Bruna Surfistinha, é um pouco de preconceito seu. Eu acessava, ficava intrigado se era uma mulher ou um homem postando, era bacana. Depois de sair com seus clientes ela narrava falando no que eles tinham acertado ou não. Hoje tem um blog falando de garotas de programa onde os clientes comentam o desempenho delas. Na internet tem de tudo, claro que tem muita porcaria, mas também tem muita coisa boa.

    (08:06:56) Rubens Paiva: O livro "A Segunda Vez Que Te Conheci" saiu há duas semanas.

    (08:07:52) Rubens Paiva: Leiam o meu livro, leiem mais livros, leiam bastante. Parem de escanear livros e colocar na internet. Nós escritores temos que ter o nosso ganha-pão, fazer isto conosco é maldade. Obrigado, tchau.

    (08:07:35) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Marcelo Rubens Paiva e de todos os internautas. Até o próximo!

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