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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Tomás Chiaverini - 01/04/2009 às 16h00

Tomás Chiaverini

Após um ano de pesquisa, 20 dias acompanhando a montagem do Universo Paralello -um dos maiores festivais do Brasil-, mais de 30 horas dentro de um ônibus com cerca de 40 ravers e uma experiência com ecstasy, chega as lojas o livro-reportagem "Festa Infinita - O Entorpecente Mundo das Raves". Escrito pelo jornalista que até então nunca havia ido em uma rave, a publicação traz depoimentos e histórias de famosos DJs, organizadores, frequentadores esporádicos e fãs da festa, além de mostrar que o universo das raves é maior que a definição "longas festas, em lugares afastados, com muita música eletrônica e drogas sintéticas".

  • Jornalista destrincha o mundo das raves
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  • Participaram do Bate-papo 105 pessoas


    (03:57:29) Tomás Chiaverini: Boa tarde aos internautas, estou à disposição para perguntas

    (04:00:27) Ricardo Respect: cheguei cedo hehehehe, cara, uma pergunta que eu to pra te fazer há tempos, depois de pesquisar sobre o trance, vc conseguiu chegar numa definição sobre o seu papel cultural?

    (04:03:04) Tomás Chiaverini: Pergunta difícil...Mas eu acho que as festas, apesar de terem esse movimento cultural potr trás, ainda estão muito voltadas para a diversão, mesmo. Acho que atualmente a nossa geração está um tanto perdida no sentido de que não temos algum grande movimento cultural que nos una.

    (04:03:21) cocota: oi, tomás! tudo bom? queria saber pq vc resolveu se jogar nas raves já que nunca havia ido em uma;. qual a motivação?

    (04:04:41) Tomás Chiaverini: A idéia apareceu por acaso, quando conheci um pessoal que estava indo para o Universo Paralello, um dos maiores festivais de música eletrônica, que acontece na Bahia. E a motivação, é fazer um grande painel do que é este movimento que atrai cerca de 500 mil pessoas por mês só no Brasil.

    (04:04:47) joca: olá! qual a coisa mais escabrosa que viu em uma das festas? sei de diversos casos de morte... aproveitando, pq/como esse tipo de coisa nao costuma sair na midia? como conseguem segurar?

    (04:07:09) Tomás Chiaverini: Então, Joca, vi muitas coisas estranhas. Tanto para o bem quanto para o mau. Agora, vc diz que não saem notícias sobre mortes em rave na imprensa. Acho que essas são as notícias mais comuns sobre festas...

    (04:08:03) alice: no texto de apresentacao do papo e no release esta escrito "além da definição "longas festas, em lugares afastados, com muita música eletrônica e drogas sintéticas"" oq são essas coisas ALÉM? oq as raves trazem, significam?

    (04:11:32) Tomás Chiaverini: As raves são eventos que atraem às vezes dezenas de milhares de pessoas e buscam unir diversas formas de expressões artísticas. Há casos em que milhares de participantes acampam por dias a fio em praias desertas longe de tudo, onde a música não para um minuto sequer. Então, por trás de toda essa efervecência da festa, há uma série de outros fatores interessantes. Na Bahia, por exemplo, há um festival que acontece numa praia isolada e que fez com que surgisse uma pequena cidade, num lugar onde antes não havia praticamente nada.

    (04:12:09) Brenda: Tomás, vc se surpreendeu de forma positiva com alguma coisa que nao esperava? tipo, encontrou algum lado bom de uma rave?

    (04:13:17) Tomás Chiaverini: Encontrei sim Brenda. Em algumas festas, não em todas, há um clima de paz e amor, herdado dos hippies, que é muito bacana e difícil de encontrar em eventos com grandes multidões reunidas.

    (04:13:40) jcmagalhaes: tomás, conheço seu trabalho e a qualidade dele. mas, do ponto de vista antropológico, que tipo de consequencia as raves podem ter para a juventude?

    (04:16:12) Tomás Chiaverini: Bom, caro JC, vc sabe que não sou antropólogo. Mas estudei um pouco o tema, e há algum consenso de que as festas em geral, têm o objetivo de reforçar os vínculos sociais. Elas funcionam como uma espécie de catarse para que as pessoas possam voltar para suas vidas normais e às vezes entediantes.

    (04:16:48) carola: vc acha que essas festas sao como woodstock foi pros hippies? digo, todo mundo ve hj como uma coisa anarquica de diversao apenas, mas no futuro todos podem entender questoes mais profundas e reconhecer a verdadeira força do negocio? acha que rola esse paralelo ou to doido, rsrs

    (04:19:52) Tomás Chiaverini: Há,sim, esse paralelo. Os próprios ravers se identificam como herdeiros do movimento hippie. Mas como disse antes, acho que a nossa geração (que é a minha também) está um pouco dispersa demais. Na época de Woodstock, os jovens estavam totalmente inseridos na política, saíam às ruas para mudar o mundo, pararam o planeta em maio de 1968. E a cultura desse movimento também era mais forte. Acho que não há como compara a força do rock dos anos 1960/1970 com a da música eletrônica. Então, acho que há sim um paralelo, mas também há muitas diferenças.

    (04:20:09) Linninha: Oi, Tomás, td bem? Gostaria de te perguntar se, ao definir o tema do seu livro, vc já sabia que ele teria toda essa repercussão. Vc tinha a noção da carga polêmica que envolvia o tema?

    (04:20:57) Tomás Chiaverini: Não, não tinha. Mas conforme o trabalho foi se desenrolando esse potencial polêmico foi se tornando mais claro.

    (04:21:08) Brenda: voce ja gostava de musica eletronica? se nao, passou a gostar depois do trabalho? ou pior: começou a odiar? rsrs

    (04:22:10) Tomás Chiaverini: Não gostava de música eletrônica. Na verdade até me irritava um pouco. Agora, aprendi a ouvir de uma outra forma. Ainda não vou comprar um CD, mas se for a uma festa consigo sentir a música de uma forma que me agrada.

    (04:22:33) Pudim BH: Tomás, li uma entrevista sua no blog do uol e lá você disse que a sua visão em relação ao mundo trance mudou após esse experiência. O que que mais mudou na visão que você tinha para sua visão de agora?

    (04:23:59) Tomás Chiaverini: Eu tinha uma visão desse movimento como algo mais obscuro, mas próximo do punk. E na verdade, as festas, como um todo, buscam uma proximidade maior com os hippies.

    (04:24:38) Linninha: Em qual momento foi mais difícil manter a imparcialidade como escritor no universo que estava abordando?

    (04:27:06) Tomás Chiaverini: Sem dúvida quando falo dos personagens. Eu faço um jornalismo que é muito voltado para histórias de vida das pessoas que participam do tema abordado. Para isso, é preciso se aproximar muito das pessoas. Com o DJ Rica Amaral, por exemplo, foram dezenas de entrevistas, ui viajar com ele, conheci a casa dele, o filho, a mãe, a namora, os amigos... Então com essa proximidade toda, é impossível não surgir uma relação de amizade. E quando isso acontece fica muito difícil de manter um mínimo de imparcialidade.

    (04:28:03) psygirl: Oi! Vc concorda com a idéia q a mídia passa de q em raves só existam drogados???

    (04:32:19) Tomás Chiaverini: Não acho que a "mídia" passe essa visão. O que acontece é que o papel da imprensa é fiscalizar, é mostrar quando algo acontece de errado para que atitudes sejam tomadas. Por isso, quando alguém morre de overdose numa rave, acaba dando manchete, o que está certo. E quando nada de errado acontece, não há por que sair no jornal. Agora, quanto à minha opinião sobre as drogas, acho que tem muita gente que usa drogas ilícitas nas raves, e me arrisco a dizer que a maioria dos que vão a raves usa algum tipo de droga. Mas não podemos generalizar e dizer que todos usam, o que não é verdade.

    (04:32:48) Fer: Tomas, tudo certo? No Brasil vemos uma perseguição cada vez maior às raves (vide o recente cancelamento da Kaballah Campinas como exemplo). Por que voce acha que esse evento tem uma perseguiçao tao grande m relaçao a outros eventos, como rodeios, que notoriamente tem maiores casos de violência e hospitalização, por exemplo?

    (04:36:45) Tomás Chiaverini: Fer, imagine que vc viva num sítio no interior, vamos dizer, perto de Itu. Então, em um determinado fim-de-semana, sua região tranquila é invadida por 30 mil jovens. Mas esses jovens não são aqueles comuns, que vc encontra na fila do supermercado. Eles vem todos tatudos, com cabelos esquisitos, roupas estranhas... E então se metem no meio do mato, ligam o som num volume que deixa tímida a turbina de um 747, e passam 24 hora pulando ao som daquela pancadaria que não acaba nunca... As raves são algo muito estranho, misterioso. E é comum que as pessoas se assustem diante do que não conhecem.

    (04:37:08) Sil: Tomás, eu sempre defendi as festas rave como um espaço pra juventude , mas como dou aula, meus proprios alunos relatam que a maioria dos participantes usam extase. Você tem ideia do que significa maioria? já que não há trabalhos cientificos que relatem uma estatistica em festas?

    (04:38:47) Tomás Chiaverini: Infelizmente não. Quando digo maioria, estou fazendo uma suposição, baseada numa grande quantidade de pessoas que entrevistei. Mas não encontrei dados científicos sobre o uso de drogas em festas no Brasil.

    (04:39:09) psygirl: bem...na questão sobre os djs, vc acha q o uso da droga influência de forma positiva na qualidade da música pra quem gosta do som ?

    (04:40:22) Tomás Chiaverini: Não sei se entendi a sua pergunta, Psygirl. Mas tenho certeza de que a música se torna muito mais agradável quando quem escuta tomou um ecstasy, por exemplo.

    (04:40:46) Ricardo Respect: Isso é muito importante Tomas, vc participou de mega eventos como XXX e também de festas menores e festivais, deu pra perceber a difrença de intenção dos trabalhos?

    (04:43:35) Tomás Chiaverini: Sem dúvida nenhuma, Ricardo. Nas festas maiores fica muito mais difícil de controlar a multidão. E pra piorar, essas festas fazem muita propaganda e atraem muitos jovens que nunca foram a uma rave, e que têm curiosidade quanto às drogas. Então quando dezenas de milhares de moleques se juntam para experimentar ecstasy pela primeira vez, temos uma situação potencialmente bem perigosa.

    (04:43:43) Juliette: como foi sua experiência com o ecstasy?

    (04:45:41) Tomás Chiaverini: Foi bem esclarecedora. Percebi a força que essa droga tem, e passei a ver as festas com uma outra visão. E creio que o capítulo em que conto essa experiência é um dos melhores do livro, e tem dados que não serão encontrados em nenhum outro lugar. Pelo menos não em português.

    (04:45:53) Raver: O que vc pensa do projeto de proibicao das raves proposto pelo deputado Fernando Capez?

    (04:47:23) Tomás Chiaverini: Sou contra. Na verdade o projeto do Deputado Capez é uma proibição disfarçada de regulamentação. Isso fere uma série de princípios da Constitução, como direito à reunião, liberdade de expressão, etc. E acho que uma proibição só faria com que mais festas ilegais acontecessem.

    (04:47:42) danihell: olá tomás, vc acha q os organizadores desses eventos tb sentem esse espirito libertador e de comunhão ou estão mais preocupados com o $???

    (04:48:13) Tomás Chiaverini: Acho que há os dois tipos. E com o tempo o "$" fala cada vez mais alto.

    (04:48:26) cacete de agulha: Tomás, realmente há muito diferença e nem tem como se comparar com o movimento do woodstock..vc não acha que rave acaba se tornando uma "modinha" em vez de um movimento artistico ou algo assim? uma vitrine onde vão homens bombados e tal..rs

    (04:50:02) Tomás Chiaverini: Acho que sim. E aí o paralelo com Woodstock é maior. Afinal, o movimento hippie foi ou não foi transformado numa grande marca, num movimento completamente esvaziado de significado?

    (04:50:35) CSF: oi Tomas... e as festas europeias?!?! Como elas diferem das brasileiras?!?!

    (04:52:06) Tomás Chiaverini: Olha, CSF, não tive a oportunidade de participar de nenhuma festa Européia. Mas sei que lá há uma divisão entre os festivais, que acontecem ao ar livre, durante o verão, e atraem os maiores malucos do planeta; e as festas semi-ilegais, que acontecem o ano todo, em locais fechados.

    (04:52:19) EL REY: QUE HISTÓRIAS ENGRAÇADAS VOCÊ TEM PARA CONTAR SOBRE AS RAVES, TOMÁS? CONTE-NOS ALGUMA(S)...

    (04:56:26) Tomás Chiaverini: Putz, são muitas. Tem a história do Fuck For Forest, um grupo de gringos que faz sexo para salvar a natureza. Eles estavam no Universo Paralello, o último festival que fui, na Bahia, e eu acabei me tornando intérprete de um show de sexo explícito. Quer dizer, da abertura do show, em que eles falam um texto explicando o projeto, porque o resto não precisou de tradução, rsrs. Mas tem uma incrível viagem de ônibus com 40 malucos até um festival no interior de Goiás, tem todas as dificuldades de montagem de um festival, tem histórias de raves que acabaram na lama e seus participantes tiveram de encarar 5 horas de congestionamento pra chegar à festa, enfim, é muita história...

    (04:56:31) André: Quais as dicas você deixa para os pais ao deixarem seus filhos participarem de uma festa raves?

    (05:02:12) Tomás Chiaverini: Boa pergunta André. Acho que os pais têm que pesquisar muito sobre o assunto, buscar até entender quais são as drogas usadas ali, e fazer com que seus filhos também se informem. Acho que não pode ter hipocrisia nessa hora. Se pretende deixar seu filho ir, é bom saber que ele pode acabar experimentando alguma coisa. Acho que é importante procurar um evento menor, mais sossegado. Saber se ele vai acompanhado, com quem ele vai, enfim. Acho que se a educação é boa em casa, não há grade risco.

    (05:04:22) Tomás Chiaverini: Agradeço a todos pelo bate-papo, e espero vê-los no lançamento, que será neste sábado, na livraria da Vila que fica na Fradique Coutinho, 915. Esterei lá à partir das 16h. Um grande abraço.

    (05:04:34) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Tomás Chiaverini e de todos os internautas. Até o próximo!

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