(03:02:48) Loyola: Boa tarde!
(03:03:00) carola: oi loyola, tudo bem? como será sua participação no festival da mantiqueira? será uma mesa redonda, uma palestra?
(03:04:19) Loyola: é um bate-papo informal. vamos conversar sobre processo de criação, de onde vêem os contos e as crônicas, os personagens, enfim, o que é inspiração pra mim, principalmente em torno do livro "Cadeiras proibidas", que tem uma trajetória especial na minha carreira.
(03:04:36) maricota: oi loyola, td bem? li que vc está atualmente trabalhando na biografia da d. ruth cardoso... está em que estágio do processo? já começou a escrever ou ainda esta fazendo entrevistas e pesquisando?
(03:06:16) Loyola: mal comecei. entrevistei o fernando henrique uma vez e ainda preciso falar umas 10. estou entrevistando amigos, ex-alunos, consultando livros que falem principalmente sobre o trabalho dela na comunidade solidária e sua atuação como feminista. a única parte pesquisa completa é a de Araraquara onde ela nasceu e eu tbm. e eu conheci todos os que se relacionaram com ela. e fui aluno da mae dela, dona Mariquita.
(03:06:30) Jujuba: Boa tarde Loyola! Voce tem preferencia por algum genero (conto, romance)? Isso varia de acordo com a sua disposição, sua fase ou varia de acordo com a historia que o sr. imagina escrever?
(03:07:58) Loyola: varia de acordo com o que eu quero escrever. tem momentos que eu sei que aquilo é um conto. tem momentos que eu sei que é uma crônica, porque é uma situação mais passageira, mais fatual. e tem momentos em que sei que é um romance e que eu terei um longo caminho pela frente. gosto dos três gêneros e, nessa minha idade, descobri a literatura infantil.
(03:08:15) Anna: Oi, Loyola. Gostaria de saber sua opinião sobre jornalismo literário e a utilização de recursos da literatura para tornar os textos jornalísticos mais atraentes para os leitores.
(03:10:57) Loyola: se por jornalismo literário você entende um texto muito bem feito,com estilo, com recursos da literatura, eu acho que vc está de acordo comigo. agora jornalismo literário é também uma crônica. jornalistmo literário são os perfis nos quais você pode intercambiar com o perfilado a imaginação e a fantasia. evidente que escrever uma reportagem ou um ensaio ou um perfil utilizando recursos literários, ou seja, uma forma de prender o leitor até o fim, prometer no início uma revelação que só vem nas últimas linhas, usar um pouco de mistério, e principalmente deixar espaços vazios para que o leitor penetre no texto e seja ativo.
(03:11:38) Leitor: Loyola, qual o maior desafio de escrever a biografia de uma personalidade como a Ruth Cardoso? Ouvir as pessoas que a conheceram? Como um escritor deve fazer para fugir do natural endeusamento que os entrevistados costumam fazer da pessoa biografada?
(03:13:50) Loyola: o grande problema é exatamente esse endeusamento de que vc fala. principalmente as pessoas muito ligadas. o que a gente tem que ter é bom senso, equilibrio, é ouvir e transcrever é pensar e depois comparar os varios depoimentos para ter uma média de verdade. é complicado qnd vc gosta muito da pessoa e admira para conseguir essa isenção. eu gosto e admiro a Ruth. mas estou tentando ouvir pessoas tbm que tenham críticas sobre ela, além de ler criticas sobre ela. é impossivel ter um texto absolutamente neutro e imparcial. isso nao existe.
(03:14:38) Duda: No festival você falará sobre seu processo criativo. Os caderninhos que o Sr. coleciona fazem parte desse processo?
(03:16:34) Loyola: claro que fazem parte. nao vivo sem meus caderninhos. desde os 16 anos, qndo li uma biografia e o autor recomendava que um escritor deve ter um caderno de notas sempre a mão, fui a uma papelaria e comprei. e disse: agora sou escritor! está sempre no meu bolso, mas tbm anoto em guardanapos, em qq papel que me vem a mão, já cheguei a anotar em papel higiênico, papel de pão, saquinho de supermercado (qnd eram de papel), folhas de caderno e talão de cheque.
(03:17:12) lilica: Loyola, queria saber um pouco mais do seu processo criativo....quanto tem de inspiração e quanto tem de racional (transpiração/disciplina)? Por exemplo, voce se deixa levar pela historia ou senta e se esforça a dar continuidade aquilo mesmo sem ter tido um insight?
(03:21:38) Loyola: depende do que seja inspiração para vc. pra mim, inspiração é a observação continua do cotidiano. sou atraído por uma imagem, por um som, por uma frase que alguem diz ao meu lado, por um grafite numa parede, por uma música numa casa. e isso me persegue. quando isso me persegue eu sei que estou diante de alguma coisa que ainda nao defino. e aí coloco no papel. qndo eu coloco no papel, percebo que mais coisas começam a subir lá de dentro. é claro que você conduz a história, que vc controla, mas neste nosso ofício existe algo de misterioso porque você percebe que abriu um alçapão que você não conhecia. e de lá saltam personagens, situações, drama, tragédias, tudo. numa primeira versão, você solta no papel tudo o que vem, sem nenhum bloqueio ou trava. sem saber se interessa ou não. numa segunda etapa você apanha isso e começa um processo racional, de corte. o Hemingway já dizia que escrever é a arte de cortar. entao você trabalha nisso 3, 4, 5, 6, ou quantas vezes forem necessárias até atingir a obra final. inspiração, transpiração, disciplina, racionalidade, tudo misturado!
(03:22:09) Andre: Boa tarde! O que voce tem a dizer as pessoas que gostariam de ser tornar escritor? O que a profissao de escritor trouxe de bom para voce em que voce se sentiu desapontado?
(03:25:11) Loyola: pra quem quer ser escritor: ler, ler, ler, ler. tem que ler olhando a primeira vez por prazer. a segunda, como o autor constroi a história, os personagens, as frases. ler como se estivesse desmontando um motor e tendo que montar de novo. conhecer a linguagem. a linguagem é a ferramenta do escritor. a profissão me trouxe de bom: escrever é construir mundos nos quais vc gostaria de viver. é usar a imaginação e a fantasia pra deixar a vida mais agradável e às vezes até fugir da realidade do em torno. o ruim é qnd vc se dedica anos ao trabalho e a crítica nao compreende ou vc nao conseguiu realizar da maneira como foi planejado. aí vem uma frustração.
(03:25:45) Leitor: Aconteceu com você o mesmo do que com Monteiro Lobato, ou seja, descobriu a literatura infantil depois de ter escrito vários livros para adultos? Qual a grande diferença na hora de escrever para adultos e crianças?
(03:28:01) Loyola: no meu caso, eu confesso que conto minhas histórias para adultos ou crianças da mesma maneira. eu nao acho que a criança, a não ser que seja muuuito criança, precise de uma linguagem especial. ela quer a narrativa. e se ela nao entende uma palavra ou frase na hora, o que interessa para ela é toda a situação. eu acredito demais na inteligencia da criança. às vezes são mais perceptivas do que os adultos. e a criança diante de você ela diz apenas gostei, nao gostei, é bom, é ruim, é uma porcaria. ela não tem bloqueio pra te criticar. ela é sincera.
(03:28:09) sfx: oi Loyola...a sua mesa redonda em sfx será em que dia/hora....é necessário fazer reserva para assistir/participar?...dizem que sfx vai estar "bombando" no final de semana e que será difícil assistir às melhores mesas (a sua, com certeza, será uma das mais badaladas)
(03:29:51) Loyola: minha conversa será no domingo (31.05), às 16h30, na tenda dos estudantes. não precisa fazer reserva, mas é bom chegar um pouco antes. vou ficar lá enquanto tiver gente interessada. tomara que esteja bombando. mas eu falo para 3 ou 5 mil pessoas do mesmo jeito, com a mesma disposição.
(03:30:11) VenTurA: Seu romance "Zero" foi censurado pelo Ministério da Justiça, sendo liberado somente 4 anos após o lançamento. A que se deve a censura do livro?
(03:33:36) Loyola: foi liberado 3 anos depois. a censura é o braço direito do poder totalitario. o "Zero" foi na sua época o primeiro romance que mostrou claramente a ditadura militar no Brasil. mostrou as prisões, os desaparecimentos, as torturas, o esquadrão da morte, a OBAM, o DOICODI, e todo o sistema de medo. o Zero teve problemas de edição no Brasil até ser publicado na Itália primeiro. depois foi publicado no Brasil, foi um sucesso. até os censores descobrirem o que o livro queria dizer realmente. o Zero foi um livro que trouxe uma linguagem nova, uma estrutura completamente diferenciada e um formato que supreendeu e principalmente formatou a cabeça de toda uma geração. o curioso é que até hoje o Zero continua a ser vendido, é o único que continua a ser vendido, que tem presença em livrarias, e acho que isso é pelo o que ele representa, o que ele é. e vai fazer 35 anos o ano que vem.
(03:33:42) MSarro: A literatura pode acabar com a tecnologia incentivando a produção de micro textos, micro blogs, informação rápida e superficial?
(03:35:26) Loyola: a literatura nao está aí para acabar com nada. a literatura está aí para construir. toda a tecnologia pode ser utilizada - e deve - para ampliar o poder da literatura. tanto que logo mais vou lançar meu blog. porque é mais um meio para eu falar com as pessoas. não preciso mais esperar que eles vão a livraria ou comprem o jornal. todo mundo tem um computador. e eu quero dialogar com todo mundo.
(03:35:52) Alexandro: Boa tarde, Loyola, em meio a todo esse dinamismo e agilidade das informações por diversos meios de comunicação, principalmente a internet como o Sr. vê a literatura atualmente? Do seu ponto de vista tem aparecido novos escritores, que continuam a acrescentar e inovar esse tipo de arte?
(03:37:14) Loyola: claro que tem. o talento é o talento. quem tem o que dizer, quem tem o que escrever, quem tem necessidade de colocar pra fora a sua visão critica do mundo e da vida, quem tá para explodir, quem tá revoltado, quem quer fazer uma revolução, quem quer mudar o mundo vai continuar a escrever, vai escrever sempre. porque é a essência da vida dele.
(03:38:05) lala: o que vc pensa da reforma ortográfica
(03:39:58) Loyola: acho que de tempos em tempos ela deve existir. a lingua tem que se atualizar. caso contrário estaríamos ainda escrevendo num portugues arcaico, aquele mesmo da carta de Pero Vaz de Caminha. agora a reforma que está aí é pequena e um pouco confusa. um pouco esquisita. e não sei se era a reforma que se esperava. a grande crítica que se faz é de que essa reforma foi uma jogada de editores brasileiros para conquistarem mercados antes de posse dos portugueses. de qq forma, qq reforma provoca polêmica.
(03:40:14) Cláudia: atualmente os "romances históricos" que mesclam a realidade e a ficção estão em alta, você pensa em trabalhar com este gênero, depois de suas pesquisas para a criação da biografia da Ruth, por exemplo?
(03:42:21) Loyola: nao pensei em nada ainda. eu tenho tanto assunto atual na minha cabeça, do meu tempo, dos problemas do meu tempo e do meu país, que ainda nao cogitei um romance histórico. ainda que os romances históricos possam ser um artifício, se bem utilizado, para falar da realidade contemporânea ou atual. lembre-se, todavia, de que os romances históricos sempre foram moda na literatura, ao longo de séculos. quero dizer que fiz um romance histórico ao contrário: qnd escrevi "nao veras pais nenhum", eu inventei um futuro. esse futuro começou a acontecer. vá ao livro e vc vai perceber.
(03:42:40) Souza: Loyola, boa Tarde. Foi difícil escrever "Não verás país nenhum"? Hoje, que futuro vc escreveria para esse país?
(03:46:53) Loyola: foi dificil. primeiro na recolha do material. levei quase 4 anos lendo todo tipo de livro sobre poluição, meio ambiente, rios, clima, sistema populacional, violência, devastação, etc. colecionei 4 mil recortes de jornais sobre esses assuntos. qnd comecei a escrever e cheguei a pagina 100 nao consegui continuar. era sufocante demais. eu sentia um calor tremendo dentro de casa. parei e reescrevi, imprimindo um certo humor negro e uma certa ironia para o leitor poder suportar. ao mesmo tempo, enchi meu apartamento com grandes posters de rios, cataratas, mares, florestas e tbm na minha mesa tinha sempre 2 garrafas de água gelada. claro, porque eu entrava dentro daquilo, me sentia mal. qnd terminei, imaginei que ninguem leria esse livro. foi recorde. mal lançado em uma semana esgotou a primeira edição. e vendeu, vendeu, vendeu. continua presente em livrarias. acabou de completar 27 anos, fizemos uma edição especial muito bonita em que tem um making of. já vendeu 1 milhão de exemplares. é meu livro mais traduzido e foi o primeiro livro que falou do aquecimento global, um tema muito atual.
(03:47:54) Fernanda: Na palestra que eu fui sua, na biblioteca Cassiano Ricardo, o senhor disse que já viu uma pessoa fazendo anotações em um livro seu, no ônibus. Qual a sensação de ver o seu trabalho na mão de outras pessoas?
(03:51:14) Loyola: imensa alegria. curiosidade. principalmente qnd está rabiscando. morro de curiosidade de saber o que rabiscaram! uma vez, no onibus, eu estava do lado de uma moça que lia O beijo nao vem da boca. e ela riscava. eu consegui ver as frases dela. e o que me surpreendeu é que as frases que ela riscava não era o que eu imaginava que iam bater no leitor. porque às vezes vc acaba de fazer uma frase e diz "que legal, que lindo", mas essa frase pode nao dizer nada para o leitor. isso torna esse oficio instigante. vc nunca sabe quem vc atinge e como vc atinge. entao o que tem que fazer? uma coisa verdadeira e sincera. antes de descer daquele onibus eu nao aguentei e perguntei pra moça: você gosta do livro? e ela disse: gosto muito, principalmente porque a personagem principal é uma mulher muito lúcida e o homem é um babaca. o que é verdade.
(03:52:05) pedro: do que se trata o livro Cadeiras Proibidas?
(03:53:48) Loyola: sao contos sobre a realidade brasileira escritos em forma de metáforas pra driblar a censura da época. eu nao acreditava na inteligencia dos censores. mas acreditava na inteligencia do leitor. curiosamente é um livro que apanha principalmente leitores jovens, pelo seu tom fantástico. são 20 contos. foi lançado em 76 e até hoje é adotado em escolas.
(03:54:33) Don: Boa tarde Ignacio, como o senhor vê o cinema brasileiro? Acha que ele, hoje, é instrumento que auxilia a literatura? Tem vontade de ver uma das suas obras virarem filme?
(03:57:10) Loyola: no caso do cinema brasileiro, eu acho que o cinema é o cinema e a literatura, a literatura. a gente atingiu um momento bom para o cinema, com grandes diretores, como o fernando meirelles ou o do cheiro do ralo. mas nao vejo de que maneira possa contribuir para a literatura, para que o espectador se torne um leitor. Zero e Nao Verás já foram pedidos para adptação, mas eu nao vendo.
(03:57:15) Revoltado!!!: Boa tarde, Ignácio! Tudo bem com você? O que você acha dos Festivais de Literatura?
(04:02:23) Loyola: gosto. acho importantes. mais do que nunca, esses festivais estão acontecendo pelo Brasil inteiro. é uma maneira de chamar a atenção para o livro. é uma maneira de mobilizar uma comunidade para o livro e para a literatura. é uma maneira de colocar os escritores em contato com os leitores. hoje você tem tanto uma Jornada de literatura de Passo Fundo, no RS, com 5 mil pessoas na platéia, quanto vc fala em São Joaquim da Barra, no interior de SP, para 100 pessoas. hoje em dia o escritor nao é mais aquele que apenas escreve em sua solidao. esse é um momento;. o outro é quando ele vai ao encontro do público, tentando seduzir, tentando conquistar. existe por toda a parte feiras, bienais e jornadas, da sofisticada Flip à intimista Mantiqueira, à humilde porém muitissimo organizada Flipiri, de Pirenópolis, Goiás. uma experiencia maravilhosa que eu tive no Ceará, qnd fui e participei da Bienal fora da Bienal. ou seja, em vez de falar em auditório fui falar no bairro mais pobre e mais violento de Fortaleza.
(04:03:22) Loyola: Adorei estar aqui com vcs, ficaria aqui a tarde toda. Espero vcs em São Francisco Xavier. e nos encontraremos por aí, num bar na Vila Madalena, João Pessoa ou outro canto do País.
(04:04:06) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Ignácio de Loyola Brandão e de todos os internautas. Até o próximo!