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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Lucas Figueiredo - 28/08/2009 às 16h30

Lucas Figueiredo

Em seu novo livro, "Olho por Olho", o jornalista investigativo revela bastidores da discussão silenciosa entre defensores e opositores da ditadura militar no Brasil. A obra traz à tona informações confidenciais de "Orvil", livro feito por militares em resposta a "Brasil: Nunca Mais", escrito por Paulo Evaristo Arns em denúncia às práticas de tortura durante o regime militar.

  • Entrevista com Lucas Figueiredo sobre "Olho por Olho"
  • Releia Bate-papo UOL de 2006 com Lucas Figueiredo
  • Jornalista conta história do livro secreto do Exército sobre a ditadura
  • Participaram do Bate-papo 158 pessoas


    (04:31:50) Lucas Figueiredo: Boa tarde a todos!

    (04:32:10) Weslley: Pq optou pelo jornalismo investigativo?

    (04:33:09) Lucas Figueiredo: Não foi planejado. Eu era repórter de economia em Brasília e comecei a descobrir informações sobre alguns casos que envolviam desvio de dinheiro. Daí...

    (04:33:40) Alex: Eu quero perguntar ao lucas o que ele acha deses grampos telefonicos ilegais, e tambem sobre a invasão de privacidade de algumas pessoas que estão na mìdia seja na politíca seja celebridade...

    (04:35:09) Lucas Figueiredo: Alex, grampo ilegal é crime e precisa ser punido. Quanto à invasão de privacidade, se for uma celebridade, eu abomino. Mas se for uma pessoa pública, que lida com dinheiro público, essa tem menos direito à privacidade.

    (04:35:23) cocota: boa tarde, lucas! alguma coisa te surpreendeu MTO nessa pesquisa? qual?

    (04:36:20) Lucas Figueiredo: Cocota, o que mais me impressionou foi que, no seu livro secreto, o Exército confessava 24 mortes e ocultações de cadáveres.

    (04:36:34) lala: lucas, ha pouco rolou uma polemica gigantesca pq a folha disse que a ditadura no brasil foi branda. gostaria de saber sua opiniao sobre isso... obrigada

    (04:37:37) Lucas Figueiredo: Lala, para dizer o mínimo, foi uma infelicidade da Folha. Quem for torturado ou teve um parente morto não merecia isso.

    (04:38:02) Luís: em nenhum momento você temeu ameaças por parte dos militares por revelar informações confidenciais?!

    (04:38:46) Lucas Figueiredo: Luís, precisamos parar de ter medo dos militares. Mesmo porque eles estão bem mais mansos. O que precisamos é cada vez mais exigir que eles abram seus arquivos secretos.

    (04:38:57) Weslley: Vc sofreu algumas espécie de represalha por parte da Abin quando escreveu O Ministério Do Silêncio?

    (04:40:13) Lucas Figueiredo: Weslley, no início da pesquisa eu tive um problema sério, pq a Abin descobriu que eu pesquisa o serviço secreto. Algumas fontes foram pressionadas e se afastaram. Depois do livro publicado, tentaram se aproximar para saber quais tinham sido as minhas fontes.

    (04:40:21) joaov_varginha: Lucas, qual é sua opinião sobre a norma estabelecida do STF, sobre a não obrigatoriedade de diploma a jornalistas?

    (04:41:24) Lucas Figueiredo: Joãov_varginha, eu nunca vi muito sentido no diploma. Por que um filósofo, um advogado ou um cientista político não pode virar jornalista, como nos EUA?

    (04:41:27) joca: aproveitando a pergunta da lala, sobre a polemica da folha, e a polemica de ziraldo e cia?

    (04:43:02) Lucas Figueiredo: Joca, acho que vc está se referindo às indenizações milionárias pagas pela Comissão da Anistia. Sou contra!!! Mas acho correta a indenização paga pela Comissão de Mortos e Desaparecidos políticos, que dá no máximo R$ 100 mil para as família dos mortos.

    (04:43:23) malu: vc acredita que algum dia realmente trataremos esse assunto da ditadura com total liberdade? tenho impressao que o governo ainda interfere e guarda informações sobre o periodo. concorda?

    (04:44:42) Lucas Figueiredo: Malu, o grande problema hoje refere-se aos civis. Ou seja, a sociedade e seu representante maior, o presidente da República, tem de pressionar os militares. E isso infelizmente não acontece ou acontece de forma branda.

    (04:45:10) Jumbo: Em que sentido a democracia brasileira atual repete a última ditadura no país?

    (04:46:03) Lucas Figueiredo: Jumbo, a questão é outra: saímos de uma ditadura há 24 anos e até hoje não chegamos na democracia plena. Estamos no limbo, numa interminável transição democrática.

    (04:46:06) hga: lucas, você acredita que todas as irregularidades mais graves tanto na ditadura quanto atualmente serão um dia reveladas com os devidos responsaveis expostos publicamente? o que você acha que eles sentem sobre isso atualmente?

    (04:47:16) Lucas Figueiredo: hga, vejo avanços. A imprensa tem denunciado, hoje há mais transparência. Mas a punição depende da sociedade. Só ela tem o poder de pressionar as instituições, e isso não vem acontecendo como deveria.

    (04:47:21) Tiago Gomes: A ditadura foi realmente esquecida ou as pessoas tem um certo receio em discutir esse tema?

    (04:48:17) Lucas Figueiredo: Tiago, acho que a ditadura está sendo cada vez mais esquecida, sobretudo pelas gerações mais novas, que não viveram o problema. Mas acho também que cada diz há menos medo de falar sobre o tema, felizmente.

    (04:48:23) Janice: Olá Lucas, eu aprendi na escola que na verdade nós não tvemos uma ditadura e sim um sistema presidencialista ditatorial. Acho que é isso a que se referia a Folha, pois se compararmos a outras ditadura como Cuba ou Co´reia do Norte a nossa foi mais branda no sentido de não termos ditadores perpétuos. O que vc acha?

    (04:49:29) Lucas Figueiredo: Janice, ditadura é ditadura. No meu livro, mostro que o Brasil Nunca Mais catalogou mais de 200 tipos de tortura que aconteciam nos porões da ditadura. Como chamar esse sistema de brando?

    (04:49:43) Weslley: Vc disse que a Abin tentou descobrir augumas de suas fontes. Eles obtiveram sucesso em dessas investidas? Ou a integridade de algum deles foi amaeaçada?

    (04:51:49) Lucas Figueiredo: Weslley, sei que uma das minhas fontes ficou muito assustada. Mas veja só: o serviço secreto não ameaça a integridade física, ele prefere outros métodos, como chantagem. Podem vasculhar seu IR ou descobrir um ponto fraco na sua vida pessoal e te chantagear. Assim é que o serviço secreto funciona.

    (04:52:02) Paulo: Lucas, queria saber se seria viável o militarismo nos dias de hj... em virtude de tantos escandalos envolvendo nossos politicos. se o povo não tem poder para combate-los quem deveria tomar as rédeas nao seriam os militares ?

    (04:53:13) Lucas Figueiredo: Paulo, oxalá que não!!! Lugar de militar é no quartel ou na fronteira vigiando os inimigos externos. Para comandar o país, o melhor ainda é a sociedade civil. Ela precisa, contudo, aprender a escolher melhor seus representantes.

    (04:53:24) Jumbo: Se não aprendemos ser democráticos ainda, existem repetições de erros típicos do período político anterior?

    (04:54:33) Lucas Figueiredo: Jumbo, a sociedade civil ainda teme muito os militares. O Lula morre de medo dos militares. O FCH também, o Itamar, o Collor, o Sarney. Na Argentina e no Chile, a sociedade civil enquadrou os militares. Aqui não.

    (04:54:44) Alex: A ANISTIA É UMA FORMA DE CONTINUIDADE HISTÓRICA DA DITADURA,NO SEU PONTO DE VISTA VOCÊ ACHA QUE ESSAS PESSOAS REALMENTE SERÃO PUNIDAS DEPOIS DE TANTOS ANOS

    (04:57:05) Lucas Figueiredo: Alex, acho difícil colocar os torturadores no banco dos réus porque a sociedade não se interessa por isso. E a Lei da Anistia, a meu ver, os protege. Mas com relação aos 135 desaparecidos políticos é diferente. O crime deles ainda está em vigor. Quem foi sequestrado há 40 anos, permanece sequestrado até hoje. Quem ocultou um cadáver há 49 anos, ainda hoje oculta o cadáver. É o que os advogados chamam de "crime continuado". Esses não tem direito à Anistia, porque ela só engloba os crimes cometidos até 1979.

    (04:57:42) Weslley: Vc não acha que com a desaprovação mundial do golpe em Honduras os militares não podem ter entendido a menssagem de que eles não são mais o que foram?

    (04:58:49) Lucas Figueiredo: Weslley, acredito que sim. Por isso é importante que os EUA, o Brasil e demais países pressionem para que o presidente deposto volte ao poder. E se este se engraçar também pela ditadura de esquerda, que sofra as consequências.

    (04:59:05) abreu: lucas e esta forma de governo que estar, onde so eles é que tomama as decisoes em nome do povo, não é uma forma de ditadura tambem, pois eles fazem o que querem conosco e nos achamos que eles estão nos representando

    (05:01:54) Lucas Figueiredo: Abreu, temos de lembrar que presidente, senadores, deputados, governadores, vereadores são e-l-e-i-t-o-s. O problema somos nós, a sociedade, entende? Precisamos parar um pouco e refletir que sociedade nós somos. Se não estivermos satisfeitos, precisamos fazer algo em relação a nós mesmos.

    (05:00:27) marta: Lucas, como chegou até você o conteúdo de Orvil?

    (05:02:56) Lucas Figueiredo: Marta, consegui o Orvil (o livro secreto que os militares escondiam havia 19 anos) em 2007, por meio de uma fonte militar. Só havia 15 cópias artesanais, que circulavam de mão em mão, num círculo de militares e civis de extrema direita.

    (05:04:20) Leandro: você considera que a obrigatoriedade do diploma de jornalista é uma herança da ditadura ou a profissionalização foi necessária num momento anterior?

    (05:05:59) Lucas Figueiredo: Leandro, sinceramente, não acho que a história dos meios de comunicação teria sido diferente se não houve a obrigatoriedade do diploma. O que foi feito de bom e ruim em todo esse tempo teria sido mais ou menos igual.

    (05:06:13) Alex: você acabou de falar ai de um livro secreto que estava escondido,em algum momento da sua carreira você ja teve medo de publicar alguma caisa ou se sentiu amèasado direta uo indiretamente?

    (05:08:09) Lucas Figueiredo: Alex, já sofri algumas ameaças, inclusive de morte. Já escapei duas vezes de armações contra mim que não sei onde podeteriam ter chegado. Mas o maior problema de todos refere-se aos processos judiciais. Esses te consomem diariamente, por anos, e pegam num ponto sensível: o bolso. Eu fui o único condenado do caso PC/Collor e até hoje pago por isso.

    (05:08:24) pereira: qual sua maior motivação para tratar de um assunto como este, infelizmente esquecido por boa parte da população?

    (05:10:05) Lucas Figueiredo: pereira, acho que o meu norte são os casos de impunidade. A impunidade está matando este país. Nós, jornalistas, precisamos mostrar a sociedade o que está acontecendo e rezar para que um dia a ficha caia e ela tome a atitude que se espera.

    (05:10:41) juliana: Olá, Lucas! Sou estudante de comunicação e gostaria de uma opinião sua. Como você entende estas pessoas mais velhas que, mesmo tendo vivido os horrores da ditadura, chegam a apoiar o regime? Eu particularmente não discuto mais política com meu avô.. risos

    (05:11:45) Lucas Figueiredo: Juliana, muitos pessoas se beneficiaram com a ditadura, ou viram nos "comunistas" um grande perigo.

    (05:12:00) Lucas Figueiredo: Juliana, paciência com seu avô...

    (05:12:15) Weslley: Vc é um profissional de coragem. Pode nos falar se conta com algum apoio para seguir em frente, seja familiar ou profissional? Pq uma coisa uma coisa é escrever um livro sobre algo, outra é quase fazer disso uma causa.

    (05:14:29) Lucas Figueiredo: Weslley, não vou dizer que seja fácil. Mas a família e os amigos apoiam muito. Também quando vejo meu trabalho sendo "consumido", quando vejo um livro meu numa biblioteca cheio de anotações, fico realizado. Tenho um gostinho bom de saber que daqui a 50, 100, 500 anos meus livros ainda estão aqui contando um pouco da história do Brasil.

    (05:14:42) juliana: o que você acha que podemos fazer para mudar a política deste país? As denúncias são feitas, mas ainda assim parece que nada muda! Os movimentos de rua são a melhor opção ainda hoje?

    (05:16:44) Lucas Figueiredo: Juliana, vc tocou no "ponto G": a questão toda é que a socieade precisa ir para a rua. Recentemente, na Argentina, foram julgados os integrantes de uma banda de rock que incentivaram, durante um show, que o público soltasse rojões. Morreu gente para caramba. No julgamento, as ruas de Buenos Aires ficaram cheias de gente, pedindo punição. Houve quebra-pau. Precisamos aprender muito com a Argentina...

    (05:16:46) MauricioSavarese: Olá, Lucas. Também sou jornalista e admiro bastante seu trabalho. Morcegos Negros e o livro sobre o Marcos Valério deveriam ser referência na universidade, assim como Ética da Malandragem.

    (05:17:10) Lucas Figueiredo: MauricioSavarese, muito obrigado.

    (05:17:19) Marcus: vc, como estudioso da ditadura, como encara o nosso querido presidente do Senado e a crise na casa?

    (05:18:43) Lucas Figueiredo: Marcus, o Sarney teve seu governo sustentado pelo então ministro do Exército, general Leônicas Pires Gonçalves. O mesmo militar que mandou fazer o livro secreto de que trato no meu "Olho por olho". O tempo do Sarney na política já deveria ter acabado.

    (05:20:01) Weslley: Vc tocou na questão do consumo. Acha que o brasileiro com o tempo tem se interessado mais por esse tipo de leitura? E como foi entrar no mercado editorial?

    (05:22:05) Lucas Figueiredo: Weslley, o nível de leitura de livros no Brasil ainda é muuuuuito pequeno. Com 5 mil exemplares, o sujeito vira best-seller. Mas alguém precisa fazer os livros. Escrevi meu primeiro livro-reportagem, Morcegos Negros, sobre a ligação do esquema PC/Collor com o crime organizado internacional, porque, depois de anos investigando o caso, precisava tirar ele dentro de mim. Acabei me viciando nesse troço de livro-reportagem.

    (05:22:09) paulo: Oi, Lucas. Vc citou o caso da Argentina, e olhando bem, será que eles talvez não aprenderam "a lição" porque tiveram uma ditadura mais pesada que a nossa, se compararmos o número de mortos e etc? Eu penso o mesmo do movimento negro norte-americano: parece que lá a consciência negra é muito mais avançada que aqui porque viveram o apartheid, enquanto no Brasil, aboliu-se a escravidão, mas o preconceito e a permissividade sempre estiveram presentes. Não seria esse também um jeito ruim de tomar consciência das coisas? O povo brasileiro precisa esperar a situação piorar ainda mais para agir realmente?

    (05:24:05) Lucas Figueiredo: Paulo, acho que a raiz do problema está na nossa colonização. Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. estudaram bem essa questão. Infelizmente, nossa sociedade foi construída tendo a apatia como principal recheio. Mas temos só 500 aninhos. Ainda dá para mudar isso...

    (05:24:23) ESLANE: Boa tarde Lucas !Também trabalho nesse meio , e adimiro pessoas assim como voçê coragem,interessado em mostrar a realidade de nosso país!PARABÉNS pelo trabalho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    (05:24:53) Lucas Figueiredo: Eslane, muito obrigado.

    (05:24:48) Ana: Parabéns por seu trabalho de investigação.

    (05:25:01) Lucas Figueiredo: Ana, obrigado.

    (05:25:33) luciana SC: quanto tempo você demorou para coletar as informações para o livro? vc já tem outro livro planejado?

    (05:27:09) Lucas Figueiredo: Luciana SC, comecei a buscar o livro secreto do Exército em 1998, quando uma fonte, um torturador, me falou da sua existência. Só conseguir botar a mão no livro em 2007. Como ele tinha 966 páginas, deu um trabalhão destrinchar tudo. Precisei compará-lo com outros 18 livros de referência. Enfim, só agora tudo ficou pronto.

    (05:27:13) Vaz: Boa tarde Lucas. Li seu livro Ministério do Silêncio, que também utilizei como referência bibliográfica para minha monografia. Você sofreu alguma retaliação por causa do que apresentou no livro?

    (05:27:56) Lucas Figueiredo: Vaz, já respondi acima a pergunta, ok?

    (05:28:13) Hugo: Onde vc estudou?

    (05:29:27) Lucas Figueiredo: Hugo, fiz jornalismo na PUC de Belo Horizonte. Antes disso, fui office-boy, uma bela escola que me ensinou a "fazer" 7 bancos em um dia e tirar informações das pessoas.

    (05:30:05) Lucas Figueiredo: Agradeço a todos. Até uma próxima vez!

    (05:30:16) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Lucas Figueiredo e de todos os internautas. Até o próximo!


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