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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Flávio Gikovate - 18/09/2009 às 15h00

Psicoterapeuta e escritor, Flávio Gikovate já lançou mais de 20 livros no Brasil e no exterior e se especializou em falar sobre amor e vida afetiva na contemporaneidade. Livros como "A Liberdade Possível", "Uma Nova Visão do Amor" e "Libertação Sexual" marcam sua carreira e introduzem o tema de sua nova publicação: "Nós, os Humanos". Nela, Gikovate reúne seis ensaios que investigam as ligações entre amor, sexo, vaidade e vícios. Assista ao papo e entenda como aplicar os conceitos do médico psiquiatra para ter uma vida plena e feliz.

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  • Veja o vídeo da conversa:

  • Participaram do Bate-papo 95 pessoas


    (03:02:51) tdha: ola flavio tudo bem

    (03:07:38) Flávio Gikovate: Boa tarde, é um prazer estar aqui novamente.

    (03:08:22) Flávio Gikovate: Sobre sua carreira: este é o 27º livro, "Nós, os Humanos", e são alguns ensaios compilados que representam a minha maturidade e as idéias que fui coletando ao longo de minha carreira como médico e psicoterapeuta. Eu também falo muito neste livro sobre as crenças, a influência do social na contrução dos nossos pensamentos. Isto interfere na maneira como a gente consegue pensar sobreo amor, sobre a saxualidade, sobre o amor, os vícios e a relação entre o amor e o vício e, de fato, se o amor romântico, esta coisa que achamos tão bonita, é pró-vida ou não. Este é o livro mais bem escrito, porque é mais maduro e é bom para quem não conhece meu trabalho ainda.

    (03:14:55) Flávio Gikovate: Sobre o amor romântico: este tipo de amor continua sendo um problema, porque a maior parte das pessoas ainda pensa no esquema das almas gêmeas, procurando o aconchego pleno em uma outra pessoa. Todo mundo sabe que já não é mais assim, que o individualismo tomou conta das relações sociais. O individualismo é contra o egoísmo e contra a generosidade, você tem de aprender a ser um cara legal para você e com você, aprendendo a ser justo e querendo trocar na mesma medida com as outras pessoas. Eu acho que é uma coisa boa graças ao avanço tecnológico porque ele permite que as pessoas se entretenham muito mais facilmente sozinhas. É um avanço, afinal nascemos grudados no útero, crescemos, separamo-nos da mãe e voltamos para ela quando preciso, mas um dia precisamos deixar esse colo e ir pra vida. Neste sentido, o amor romântico é contra a vida, porque ele é querer voltar para o útero de novo. Tem uma força que nos empurra pra frente e outra força que nos leva para trás, para o útero, para uma ilha deserta para ficar sozinho agarradinho com uma outra pessoa. Depois que saímos do útero e aprendemos a viver, não dá mais para voltar para este paraíso. Depois de morder o fruto do conhecimento, você deve andar para frente. Hoje, o individualismo permite que as pessoas se encontrem para curtir momentos por inteiro, por suas afinidades. A idéia do amor romântico não é de afinidade, é de complemento, de tampa e panela.

    (03:02:29) luli: Oi, Flávio, tudo bem? Parabéns por mais um livro. Queria saber quem são seus principais leitores, você sabe? Homens, mulheres, jovens, idosos...? Quem quer se auto-compreender mais hoje em dia?

    (03:24:39) Flávio Gikovate: luli, então, os meus principais leitores são parecidos também com meus principais ouvintes que tenho nos programas da rádio e mesmo as pessoas que me vêem em programas de TV e devem estar me vendo aqui. É um grupo de pessoas preparada intelectualmente, que tem a mente aberta, que gostam de uma visão menos dogmática e mais prática das coisas da vida. Homens e mulheres, em geral de meia-idade e também muita gente mais velha, um bom número de jovens também. Numa época eu escrevi na revista "Cláudia" e nesta época tive um grupo mais feminino, através do programa na rádio CBN eu atingia mais os homens e hoje há uma mistura dos dois grupos, homens e mulheres de classe média, mas sempre interessados em aprender, em curtir um modo diferente de pensar. Felizmente o número de pessoas que partilham do meu modo de pensar só cresce. Eu já estou há algum tempo na estrada, então acho que minhas idéias são um pouco relevantes, sim.

    (03:03:27) juliana: olá, flavio. Estou solteira há algum tempo e sinto que as pessoas simplesmente não querem se envolver. Isso é normal, é uma evolução, uma piora ou questão da idade? Sou "nova", digamos. rs

    (03:29:18) Flávio Gikovate: juliana, sempre aparecem queixas das moças. (risos) Antigamente parece que os homens um dia se casavam mesmo, talvez por pressão social. Quando eu escrevia para a "Cláudia" fizeram uma pesquisa e o maior sonho das mulheres era casar e ter filhos, na época. Para os homens, o maior sonho era qualquer outra coisa, mas acrescentavam que "um dia iriam casar", como se fosse uma obrigação. Hoje mesmo as mulheres independentes têm dificuldades de encontrar parceiros. As mulheres se desenvolveram muito melhor que os homens nos últimos tempos, são mais mulheres do que homens nas universidades. Logo, podemos pensar que o salário delas logo mais será maior que o deles e será problemático para elas encontrar alguém que elas possam valorizar, já que as mulheres gostam de dar valor também ao perfil do homem provedor. Os homens não conseguem aceitar mulheres que sejam melhor que eles e elas não aceitam alguém que não esteja a sua altura. No momento, a situação está difícil, realmente não dá pra prometer marido pra moça nenhuma.

    (03:07:23) Márcio: flávio, há algum tempo defendo relacionamentos abertos. Você acha que esse realmente é o futuro? Eu gosto de uma mulher em especial, mas ela aparenta não estar disposta a isso - só que eu não estou disposto a mudar.

    (03:19:30) Flávio Gikovate: Márcio, a minha linha de pensamento não defende o relacionamento aberto como as pessoas vêem, de sexo com muitos parceiros. Creio que relações casuais têm mais a ver com a internet e com a pessoa em si do que com a sociedade. A própria pessoa descobre desde cedo que alguns lugares de seu corpo proporcionam sensações interessantes desde cedo, então o sexo é uma questão que cresce com o indivíduo sozinho por toda sua vida. Você pode fazer sozinho, você não precisa do outro. A internet mostra isso cada vez mais, os jovenzinhos garotos gostam cada vez mais do sexo virtual. Eles vêem fotos, vêem filmes no computador, se masturbam e vão dormir. Isso das relações abertas são para quem gosta de clube de swing, de baladas e bagunça. Acho que a tendência hoje é escolher muito bem um amor monogâmico e com esta pessoa trocar carícias eróticas. Não me espanta que a namorada do rapaz tenha menos interesse nisso. Quando as mulheres se envolvem sentimentalmente, elas têm menos interesse ainda de variar de parceiro. Não sei com quem estes garotos vão se relacionar no futuro, já que as mulheres agem desta forma.

    (03:11:24) alex: Olá, Flavio! Você acha que é possível separar totalmente o sexo do sentimento afetivo em uma relação? Por exemplo, você acha viável uma relação onde o sexo não faz parte da vida de um casal, porém ocorrendo com outras pessoas mas sem envolvimento. Seria como uma espécie de relação baseada apenas na afinidade e no amor, que é o que no final das contas vale mesmo numa relação..

    (03:15:59) Cat Cica: Qual foi a reação das mulheres em especial às ideias presentes no seu livro?

    (03:27:03) Flávio Gikovate: Cat Cica, houve um período nos anos 1980 em que eu escrevia para a "Folha" e muita gente me chamava de machista pelas diferenças entre homens e mulheres que eu levantava. Na época, era necessário os homens e as mulheres serem iguais por inteiro, não poderíamos ser diferentes nem pra melhor, no caso das mulheres, por exemplo, que atraem os homens e estão na posição de escolher se eles serão recebidos ou não. Um pouco depois passou-se a aceitar melhor a idéia das diferenças novamente.

    (03:19:43) Moderadora / UOL:

    O psicoterapeuta Flávio Gikovate conversa com os internautas sobre seu novo livro, "Nós, os Humanos" (Crédito: Flavio Florido / UOL)

    (03:20:27) tdha: Flávio, quando um casal pode considerar que tem um relacionamento maduro? quando sabem aproveitar os seus momentos individuais ou quando sabem aproveitar os momentos juntos?

    (03:41:15) Flávio Gikovate: tdha, os dois. Quando eu tenho meu momento e você respeita o meu e eu o seu, ou também quando existe o momento do "nosso". É preciso ter alguém com quem você possa compartilhar momentos especiais dos quais os dois gostem. Não custa buscar também afinidades de lazer. Isso antes não era tão importante pois não havíamos tantas opções quanto hoje. Os casais têm um tempo longo para conviver juntos, são menos filhos e a necessidade de subsistência é menor hoje, então é preciso ter interesses em comum.

    (03:06:00) tdha: Flávio, a questão do individualismo e também questão dos laços familiares podem fazer com que no futuro as pessoas não se casem?

    (03:32:44) Flávio Gikovate: tdha, uma pesquisa do IBGE realmente está mostrando a diminuição do número de filhos e de casamentos. Hoje há menos de 2 filhos por mulher no estado de São Paulo. Ou seja, a população está decrescendo e o número de pessoas sozinhas em grandes centros urbanos como São Paulo e grandes metrópoles do exterior já constituem 1/3 da população. Mais homens estão optando por viver sozinhas, principalmente os homens. Mas estar sozinho não significa não namorar, não ter vida social, não ter vida sexual. Não existe mais esse estigma de antes.

    (03:25:48) LAURA: gostaria de saber pq tantos homens casados estão nas salas de bate pato....

    (03:45:58) Flávio Gikovate: LAURA, antes da internet existiam muitos tele-sexos para os quais os homens ligavam, porque eles é que gostavam de sexo casual. Não que elas não gostem, mas como vimos pela primeira pergunta, são uma minoria. Mesmo quando o homem só usa fotos e imagens de estímulo para o prazer solitário, as mulheres muitas vezes chegam a ter ciúmes, ficam irritadas. Então se as mulheres consideram isso uma traição, não existe fidelidade. Inclusive os homens olham tanto porque as próprias mulheres provocam também. Quando uma moça decide sair de saia, blusa decotada, para atrair olhares, ela também está procurando por isso. Não para atrair um homem em específico, mas para se sentir olhada, observada por homens como um todo.

    (03:27:12) alex: Flavio, não se trata de swings e orgias necessariamente. Eu me referi a um relacionamento que não impeça a relação sexual eventual com outros parceiros. Ora, por que motivo você acha que a relação monogâmica é mais interessante?

    (03:47:41) Flávio Gikovate: alex, não. Quando você já conhece a pessoa, tem muitas afinidade, enfim, é até perigoso pelo envolvimento emocional. E se não há afinidade, a pergunta é: por que fazer? Você irá ganhar alguma coisa com isso?

    (03:36:47) Veridiano: Flávio, a longo prazo como vc vê a relação homossexual entre dois homens? Uma de nossas dificuldades é sermos mais íntimos. Como resolver isto?

    (03:51:29) Flávio Gikovate: Veridiano, é interessante essa pergunta, porque a relação homossexual entre mulheres é muito mais monogâmica que a entre homens. Ou você já ouviu falar de sauna gay feminina? Na homossexualidade masculina o fascínio erótico está ligado a agressividade e isso perturba a qualidade do relacionamento. Se os homens, homossexuais ou não, são estimulados visualmente o tempo todo, é possível pensar que existe uma facilidade maior para traições acontecerem. A intimidade é mais difícil acontecer por isso. Mas isso é apenas uma comparação com a homossexualidade feminina, porque 90% dos casais heteros sofrem com problemas, com brigas, discussões. No caso, é interessante você buscar afinidades e o respeito pela individualidade do outro e pela sua também. Não há o direito de controlar o outro porque você o ama.

    (03:39:43) alebeatle: Dr. Flavio... quando se perde o interesse sexual pela parceira é possível retomar o anterior interesse? como fazer se a perda da erotizaçao levou ao fim do relacionamento, embora haja um carinho enorme e uma grande saudade ?

    (03:54:22) Flávio Gikovate: alebeatle, isso depende. É difícil responder, porque existem casos e casos. Às vezes a diminuição do desejo masculino é em função da resposta feminina, que pode ser negativa e magoá-lo. Outras vezes os homens podem até se sentir provocados a querer ainda mais. Às vezes, é o contrário: a mulher está sempre disponível e não temos o elemento da disputa para que o sexo aconteça. Um casal que entende isso e busca estímulos tácteis ou busca criar uma atmosfera em que o estímulo puxa mais para o lado vulgar, é possível recuperar isso. É importante separar as duas coisas neste momento, pois o fato de haver ternura e saudade não significa que o relacionamento possa acontecer por completo.

    (03:41:45) Moderação UOL:

    Capa do livro "Nós, os Humanos", do psicoterapeuta Flávio Gikovate, tema do bate-papo (Crédito: Reprodução)

    (03:42:07) aro: Flávio, é possível ter vários relacionamentos simultâneos de qualidade?

    (03:55:48) Flávio Gikovate: aro, sim, se você por exemplo puder ter uma mulher e uma amante por um período de tempo. É possível você ter relacionamentos variados com quatro ou cinco amigas, sendo que nenhuma delas seja fixa, mas isso é apenas uma hipótese. Pelos relatos que chegam para mim, na verdade não é isso o que acontece.

    (03:46:01) olokomeu: dr flavio com fenomeno da internet vc acha que aumentou o numero de mulheres que se masturbam., e vc acha possível as pessoas se realizarem sexualmente pela masturbaçaõ?

    (03:57:32) Flávio Gikovate: olokomeu, eu acho que o fenômeno da internet aumentou mais a masturbação entre os homens, apesar de que as mulheres também entram e participam, mas elas criam mais um clima do que realizam o ato. Os homens tem essa necessidade da satisfação, até porque depois da ejaculação o homem tem um "soninho", um relaxamento. A maioria das mulheres, pelo contrário, sente uma certa agitação, que acaba atrapalhando o sono, por exemplo.

    (03:50:12) Felipe: Flávio, é possível que o indíviduo tome tanto gosto pela PAIXÃO = AMOR + MEDO que, como consequência, tenha diversos namoros mais ou menos breves, ficando com a pessoa apenas até o final da fase da PAIXÃO? Passada a PAIXÃO, para esse indivíduo, acaba a "graça"...

    (04:01:11) Flávio Gikovate: Felipe, esta frase provavelmente você ouviu ou leu em algum trabalho meu... A paixão se define pela afinidade grande com outra pessoa e pelo medo de perder não só a individualidade como de tragédia, de dar errado pela superstição de que nunca se pode estar feliz demais. Além disso, também existe o medo da ruptura, de sofrimento. Com o andar da carroagem, o medo tende a diminuir, mas se neste ponto você achar que o amor perdeu terreno, você está errado. É neste momento que a o amor está reinando absoluto, pois o medo se foi e pode-se curtir o amor por inteiro. É aí que começa o filme bom! (risos) Parece que quando se fala de amor, as pessoas gostam mais da bagunça, do terror, e não do final feliz. Aliás, amores felizes não dão filme, não há conflito, não gera emoção nas pessoas. Este amor que reina absoluto é sim o amor mais parecido com a amizade, é o Mais Amor, e ele sim é que vai sobreviver à modernidade.

    (04:02:43) Flávio Gikovate: Quero apenas agradecer a presença de todos vocês e o carinho que tenho recebido por todos os lugares onde tenho passado. Meu esforço de locomoção tem sido muito recompensado. Obrigado!

    (04:02:54) Moderação UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Flávio Gikovate e de todos os internautas. Até o próximo!

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