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Bate-papo com convidados

BATE-PAPO COM Vinicius Mota - 10/11/2005 s 17h00

Vinicius Mota, jornalista

O editor do caderno Mundo da Folha de S. Paulo discute a recente onda de violncia da Frana. H 13 dias, jovens filhos de imigrantes vm provocando distrbios e j queimaram cerca de 6.500 veculos na periferia parisiense. Na ltima tera-feira, o governo francs foi obrigado a decretar estado de emergncia, ressuscitando uma lei de 1955 promulgada durante a Guerra da Arglia. Mota entrou na Folha em 1998 como trainee. Em 2000, foi convidado pela direo do jornal a assumir a coordenao dos editoriais (editoria de Opinio). No incio de 2004, assumiu o posto de secretrio-assistente de Redao.

(05:01:36) Mestrando.USP: Boa tarde Vincius
(05:02:17) Vinicius Mota: Boa tarde a todos. Vamos s perguntas
(05:03:59) Louise: ol! houve uma diminuio da violncia na frana nos ltimos dois dias. Vc avha que o governo vai conseguir contornar essa crise? Ou os imigrantes vo continuar marginalizados?
(05:06:11) Vinicius Mota: No sei, Louise. Acho que uma crise como essa tem sua prpria dinmica e talvez o que esteja acontecendo agora seja uma fadiga, um cansao dos revoltosos; mas s os prximos dias diro se o pior j passou
(05:06:23) Vincent: o que gerou essa onda de violencia? vc acha que o problema mais economico, de falta de oportunidades, ou cultural, um problema de identidade dessse filhos de imigrantes?
(05:10:24) Vinicius Mota: Esse o grande n do problema, Vincent. Acho que dois eventos atuaram como uma fasca em um ambiente j potencialmente explosivo: a morte acidental de dois garotos dos subrbios e a fala do Sarkozy, o ministro do Interior, que tachou os agitadores de "escria"
(05:11:06) falco: Boa tarde. Gostaria que vc comentasse o texto que Demtio Magnoli esceveu hoje na folha. Ele comenta da distribuicao geogrfica de Paris, isso seria um motivo?
(05:18:13) Vinicius Mota: Certamente a geografia fator importante; todos esses jovens vivem em distritos mais afastados do centro conhecido de Paris, nos subrbios; a segregao espacial um duplo da segregao social por que passa boa parte desses jovens.
(05:18:32) ursinha: oi, vinicius! como voc avalia a ao do governo francs na resposta crise?
(05:22:19) Vinicius Mota: Ursinha, foi uma reao frgil, hesitante. At porque o fenmeno foi de um ineditismo atroz; mas tambm porque h uma guerra interna no governismo francs, entre o premi, Dominique de Villepin e o Sarkozi; os dois disputam a primazia de concorrer sucesso do presidente Chirac; Sarkozy procurou usar a linguagem mais dura contra os revoltosos; j a mensagem de Villepin teve mais tons de conciliao; mas o fato a louvar que, com mais de 7.000 carros incendiados, centenas de presos etc., a represso policial no produziu nem um cadver sequer, o que seria potencialmente desastroso.
(05:22:25) Mestrando.USP: Aproximadamente, em qual percentual os incidentes esto sendo causados por magrebinos e pelos demais grupos de estrangeiros (negros, por exemplo)
(05:25:01) Vinicius Mota: Mestrando, no sei responder ao certo. De tudo o que li a respeito, no vi nenhum dado que segregasse os revoltosos por sua origem.
(05:25:10) critico: Ola vinicius, estamos vendo esta crise se aflorou agora, ou ela ja estava viva na franca a muito mais tempo ?
(05:29:55) Vinicius Mota: Estava latente, critico. Essa uma crise social clssica, tpica das grandes cidades que concentram ao seu redor populosos ncleos de pessoas que vivem em condies de vida inferiores. Uma crise dessa apenas a exploso de momento de uma longa, lenta e duradoura acumulao de ressentimentos
(05:29:55) Rodrigo Especialis: subrbios em paris tem prefeitos?
(05:30:56) Vinicius Mota: Sim, Rodrigo, os distritos tm os seus prefeitos; tm certa autonomia poltica
(05:31:02) Dimi: Ser q esses ataques chegaro mais prximos do centro de Paris ou ficaro mais nos subrbios?
(05:33:11) Vinicius Mota: No creio que cheguem l, Dimi. Essas gangues atuam quase sempre dentro dos limites de seus "territrios"; revoltas em Paris tendem a ser excepcionais. Mas falo do padro que temos visto at aqui, que pode, mais tarde, mudar.
(05:33:34) Lori: Gostaria de saber, se este tipo de revolta, pode se expandir por toda Europa?
(05:35:57) Vinicius Mota: Essa era uma preocupao h uns dias que no se confirmou ainda, Lori. Agora, se no houver nenhum fato novo que reacenda os protestos, a probabilidade desse efeito contgio ocorrer diminuiu bem.
(05:36:14) Menina: Oi, Vinicius. O que vc acha da fala de Sarkozy, pedindo aos prefeitos que expulsem da Frana todos os estrangeiros envolvidos nos conflitos, inclusive os em situao regular?
(05:39:30) Vinicius Mota: Menina, isso mais retrica de palanque do que diretriz de poltica pblica. A grande maioria dos revoltosos tem nacionalidade francesa; so da segunda gerao de imigrantes, j nascida em solo francs. Portanto, no podem ser expulsos. Sarcozy fala para tentar conquistar apoio da direita nacionalista na Frana, que tem crescido eleitoralmente e pode ser crucial para algum que pretende tornar-se presidente da Repblica.
(05:39:48) Fernando em Paris: Eu moro aqui em Paris, na regio de fronteira com a cidade de Bobigny na zona 93, foco de algumas manifestaes... Vc no cr que na verdade esses conflitos so consequencias diretas da opao dos franceses pelo "NO" e pela manutenao de um estado de mercado altamente protecionista, que inviabiliza o desenvolvimento economico interno e consequentemente a geracao de empregos para esses jovens?
(05:46:40) Vinicius Mota: Fernando, acredito que haja relaes mais sutis e bem menos diretas entre um fenmeno e outro; no tenho condies de dizer que, numa economia mais aberta, o problema do desemprego estaria mais bem encaminhado na Frana; mas certamente o ambiente do "no" Constituio e do avano dos votos dos nacionalistas o mesmo de que se aproveita a retrica de Sarkozy: o fato, deplorvel para mim e acredito que para voc tambm, que os franceses caminham para uma posio mais isolacionista em relao Europa e a aberturas de modo geral; e isso estimula prticas e idias muito ruins, de dio at, na poltica interna
(05:47:04) canuto: H algum grupo extremista que reivindica o incentivo aos ataques?
(05:50:24) Vinicius Mota: Canuto, voc tocou num ponto central. No h nenhuma relao identificada at agora entre o que ocorre na Frana e os grupos extremistas e terroristas islmicos; o que ocorre, friso, uma revolta social da juventude suburbana, em que as lideranas praticamente no existem, em que idias religiosas no vingam
(05:50:42) cheers: Vinicius, o que voce acha da comparacao que alguns jornais fazem dos banlieus com os "millets" otomanos?
(05:52:45) Vinicius Mota: Cheers, sinto desapont-la. Mas no fao a mnima idia.
(05:53:02) limma: Nesta briga pelas eleioes, como vc disse acima, o Dominique de Vellepin parecer estar na frente ao adotar falas mais conservadores sobre a onda de violencia nos suburbios?
(05:55:12) Vinicius Mota: Limma, no sei o que voc chama de "falas conservadoras", mas se quer dizer "conciliatrias", um caso ainda em aberto. S vamos ver mais frente quem saiu ganhando.
(05:55:31) jonatas: Se esses esses conflitos piorarem, pode haver a asceno de polticos de extrema direita na Frana? Polticos com inspiraes fascistas podem voltar a ter lugar na Europa do sculo XXI?
(05:57:34) Vinicius Mota: Jonatas, no iria to longe com os "fascistas"; mas uma das resultantes possveis dessa crise justamente um reforo da direita isolacionista europia; mas vamos esperar porque as cartas ainda esto sobre a mesa
(05:58:04) limma: quais medidas podem ser tomadas para frear os ataques na Frana?
(06:01:03) Vinicius Mota: Limma, acho que, como disse, essa crise tende a esfriar por si mesma; o toque de recolher pode ajudar; o anncio de reforo de programas sociais tambm; mas os motivos mais estruturais da crise no vo desaparecer, vo apenas hibernar espera da prxima fagulha. Aproveito essa ltima resposta para me despedir de todos os que participaram deste bate-papo.Um forte abrao
(06:03:06) Moderador: O Bate-papo UOL agradece a presena de Vinicius Mota e de todos os internautas. At o prximo!
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