(07:05:03) Guilherme: opa! tudo bem ziraldo?
(07:05:03) feia sem cam: oi
(07:05:05) mel: ola boa noite
(07:06:32) Adilson Gomes: Olá Boa Noite
(07:12:19) Ziraldo: Tudo o que faço se resume em escritor e cartunista, com isto eu faço a minha festa.
(07:12:19) Ziraldo: Esta coisa de internauta é engraçada, a pessoa ser internauta. Eu uso a internet porque é a maior dádiva que a humanidade recebeu neste século. É tão importante para a humanidade quanto a invenção do tipo móvel que o Gutenberg inventou, quer dizer, muda a relação do homem com a vida, com o mundo, com o próximo, com o seu trabalho, com tudo. É uma fonte tão infinita. Eu estava explicando para o meu neto a idéia de arquivo, por exemplo, a coisa do microfilme, agora podemos arquivar 2.000 informações, cem mil informações em microfilme. E com a internet podemos arquivar infinitamente tudo. Se hoje eu quiser colocar a biografia ou os dados completos de cada ser humano vivo na internet eu posso. Isto vai acabar acontecendo.
(07:12:48) Ziraldo: O Nelson Rodrigues era de direita e no Pasquim, que eu fazia com os meus amigos, falávamos muito mal da direita. E ele dizia que o Pasquim era como parede de banheiro, qualquer idiota podia entrar e escrever o que quisesse. E é o que acontece com a internet, ela é aberta para quem quiser colocar o que quiser. Como a maioria da humanidade é burra, ignorante, mal informada e má, a internet virou um espaço para toda esta gente se exercer. Este é o defeito da internet. Mas não existe o internauta, o cara que gosta de ficar na internet. O cara que gosta de ficar na internet o tempo todo tem que fazer análise porque se ele tem amigos, se tem uma mulher com que gosta de dormir, se tem um filho com quem gosta de sair, se tem um cachorro com quem gosta de passear, se tem uma série de atitudes humanas para ocupá-lo, ele pode passar um tempo ideal e não precisa ser chamado de internauta. Não existe esta função. Se existir eu acho um chato. Eu uso a internet com uma propriedade absoluta. Eu tenho todas as enciclopédias que se pode imaginar, tenho 50 enciclopédias, então qualquer informação que eu queira está nelas. E hoje não uso nenhuma delas. Como não sei mexer com a internet, tenho uma moça que mexe com a internet rapidamente, quando preciso de algo peço a ela. É inacreditável, tem qualquer letra de música que eu precise. Quer dizer, é uma coisa extraordinária. Eu não posso mais viver sem internet. A humanidade não tem salvação, a internet vai ter sempre um volume de coisas piores do que os de boa qualidade. Sempre os idiotas irão avacalhar com ela. É o cara que grafita o muro sem talento, o pichador. É um muro branco demais para o boboca não colocar uma frase boba. O que tem de bobagem na internet é assustador. Eu não gosto desta gente na internet e nem fora dela. A internet está baixando o nível de qualidade da criação mundial. Os grandes escritores e grandes poetas de nosso tempo não são encontrados na internet. Tudo o que já foi escrito no mundo encontramos lá, o Carlos Drummond de Andrade, o T. S. Eliot, o Shakespeare. E os que estão fazendo agora não usam a internet porque sabem que o que fica mesmo é a palavra gravada. Na internet são palavras ao vento. Ela não supera o livro, ele ainda é mais importante do que ela.
(07:11:39) jonas: voce acha que os livros vao acabar um dia?
(07:20:10) Ziraldo: jonas, a internet vai alterar alguma coisa na forma do livro, mas não há hipótese de que a grande literatura ou a grande poesia se exerça na internet. Porque tudo tem que passar pelo livro. O que fez o homem caminhar na história foi a palavra gravada na pedra consistentemente e palpavelmente. Para dar um exemplo, no ano zero o homem não se locomovia a não ser andando ou puxado por tração animal, passados 1.500 anos da era cristã e ele continuava se movendo por este método. Aí o Gutenberg inventou o tipo móvel e com isso o livro chegou a mão de todo mundo. Então em 500 anos o homem que tinha passado 1.500 anos na charrete saiu da charrete e chegou na lua, isto só por causa do livro. Quer dizer, o Gutenberg mudou a história do mundo com a possibilidade de fazer o livro ser popular. E a internet vai fazer com a humanidade a mesma coisa que o livro fez. Mas é muito difícil que esta palavra posta na internet substitua a palavra gravada. Então o livro é eterno porque tem que passar a página, tem que virar a página de sua vida, ele tem aquela coisa mágica, é o tempo e o espaço, quer dizer, o livro contém a própria vida. Agora, o que pode acontecer é acabar o papel, a tinta ou a gráfica, mas não tem como o ser humano abrir mão do livro com fundo branco e com a letra preta e o virar da página, senão morre a literatura e a poesia. Vai virar literatura por escrito e poesia falada. O livro ainda é um suporte que irá durar muitos anos. Talvez perca o cheiro de impressão, não vamos poder anotar do lado. Se pegarmos o livro do Olavo Bilac que o Coelho Neto leu, ele está todo assinalado. Quer dizer, não podemos perder isso. Então o livro tem esta coisa mágica, você pode guardar uma violeta dentro dele, deixar a marca de uma lágrima em um poema que você leu. O homem vai continuar romântico nesta medida. O livro é eterno.
(07:20:17) Ziraldo: O meu blog (ziraldo.blogtv.uol.com.br) irá ser de movimentação diária. Na internet podemos ter uma estação de televisão só nossa, quando me chamaram para fazer o blog eu disse que queria fazer uma estação de televisão, queria conversar, fazer show, tudo. O blog tem uma limitação enervante, mas o meu blog será de movimentação diária. Faz mais de 60 anos produzo coisas para a imprensa e como guardo tudo, tenho muito conteúdo, muita coisa que ainda quero mostrar e que ainda não mostrei direito. São cartazes, tiras do Menino Maluquinho, ilustrações etc. Mas o meu blog será um jornal diário, terá a edição da manhã, a manchete do dia e a charge do dia. A charge do dia se chamará O Bicho que Vai Dar e se baseará em um fato político. Eu fiz charge durante 30 anos, então tenho a charge de 30 anos atrás, será a Charge no Tempo. Depois tem o meu pensamento, artigo, a tira do Menino Maluquinho, o cartum. Irei postando coisas e tem todo o meu acervo, os meus cartazes. É um blog rico, cheio de coisas e está associado a um twitter.
(07:25:06) Ziraldo: Eu nem sei ligar o computador, ainda escrevo na máquina de escrever. Não cheguei nem na máquina elétrica. Agora, compro tudo o que for de máquina de escrever em bom estado que aparecer, porque não tem mais quem conserte. Eu tenho umas doze máquinas de escrever, porque quando uma enguiça coloco outra no lugar.
(07:07:50) malukete: oi ziraldo, passei minha infancia lendo seus livros, hoje tenho uma filha pequena e ela continua se encantar com os meus 'velhos livros do ziraldo'. como voce entrou nese mundo da literatura infantil?
(07:27:08) Ziraldo: malukete, a melhor coisa de entrar na literatura infantil é isto, o pai gosta de para o seu filho o livro que ele leu na infância. Se você conquista uma geração você dura muito tempo. Um dia eu vi uma vó toda feliz comprando a revista da Mônica do Maurício para dar para a sua neta e dizendo para a neta que era a revista que ela lia quando era menina. Então isto aconteceu comigo sem explicação. Eu já tinha feito história em quadrinhos, fazia o Pasquim. E quando os militares voltaram para os quartéis em 80 e o Pasquim que era um jornal de protesto perdeu o seu significado, pois não tínhamos mais a ditadura para protestar, eu fiquei meio sem saber o que fazer. Então fiz o livro "O Menino Maluquinho" que foi um sucesso. E fui fazendo mais livros e virei um autor para crianças.
(07:08:03) Rafael Iglesias: Boa noite, Ziraldo. É impossível deixar de falar de "O Menino Maluquinho". Como surgiu o projeto e como o iniciou?
(07:31:02) Ziraldo: Rafael Iglesias, na época do Pasquim no Brasil havia uma grande censura, então a sociedade estava muito mal informada, daí começaram a aparecer cursos de especialização para pessoas, principalmente para donas de casa. Então éramos muito convidados para dar palestras para estes cursos de atualização, para informar à sociedade o que estava acontecendo. E a gente acaba falando sobre tudo. E eu fui chamado para dar uma palestra na Ilha do Governador para pais e mestres, cheio de mães e professoras e começamos a falar sobre tudo. Mas havia uma falácia divulgada pelos militares chamada conflito de gerações, em que os país não entendiam as crianças e as crianças não entendiam os seus pais. Falava-se muito nisso, mas isto era uma conversa de direita, nenhum colega da faculdade tinha coragem de dizer que o seu pai era militar. Então havia uma dificuldade muito grande de relação entre os meninos e os seus pais militares. No que dizia respeito a gente, nada. A maioria da minha geração curtia, conseguia conversar sobre maconha, dava para conversar, dizia para não fumar. E os nossos filhos todos deram certo. Eu estava conversando sobre isso, que não havia dificuldade de relação, o jeito de criar filho que é deixar ele se exercer, ser feliz, assim há muita chance de ele ser um homem legal. A maior bobagem é achar que tem que preparar o seu filho para o futuro, não tem. O futuro é inexorável, vai chegar de qualquer maneira. Tem que preparar o seu filho para o presente. Ele tem que ser feliz hoje porque o futuro é feito de outro hoje, porque amanhã vai ser hoje. Sempre vai ser hoje. E se o seu filho for feliz hoje haverá chance de ele ser um bom sujeito. E a moça falou para eu fazer um livro sobre isso. Eu disse que aquilo era uma especulação, não podia afirmar. Mas literatura eu podia fazer, então fiz "O Menino Maluquinho" e deu certo.
(07:13:06) grafiti: quais sao as grandes influencias do seu traço? voce gosta de algum artista em especial?
(07:33:01) Ziraldo: grafiti, todo mundo, se for pintor eu gosto de muitos, Picasso, Francis Bacon. Da pintura moderna o Basquiat. Tem até um filme com ele. No humor a principal influência minha foi do Millôr Fernandes e três cartunistas estrangeiros chamados André François, Ronald Searle e Steinberg. Hoje a imprensa abandonou um pouco o cartum. Antigamente era a coisa mais fácil comprar álbuns de cartunistas e hoje tem poucos. A imprensa não usa mais. Eu ainda sonho, se arrumar um patrocinador, em fazer uma revista de cartum sem política, porque todas em que fiz política quebrei a cara. Então quero fazer uma revista só para aproveitar os 160 a 180 cartunistas brasileiros que desenhariam em qualquer publicação do mundo e estão sem espaço. Só aparecem nos salões de humor do Brasil. Dar espaço para uma revista do humor. Só que quero patrocinador, não quero ser dono dela não, faço de graça para quem quiser bancar.
(07:17:46) Tim de Guarulhos: Qual é a influencia da política nos seus quadrinhos ?
(07:34:17) Ziraldo: Tim de Guarulhos, nos quadrinhos do Menino Maluquinho e do Pererê e tal a política direta não tem muita influência, mas as atitudes de meus personagens são políticas porque todos passam a consciência do mundo em que vivem, de como viver melhor. Quer dizer, tudo isso já é política. Agora, a história no tempo em que vivi me obrigou muito a sair do cartum comportamental para ir para o cartum político que chamamos de charge. Durante a ditadura fizemos muita coisa contra os militares e sempre que pude fazer charge deixei bem claro qual era a minha opinião.
(07:17:56) marina: a sua familia é composta de muitos artistas, de varias áreas. como era a sua infancia, seus pais estimulavam isso?
(07:36:25) Ziraldo: marina, estimularam muito... Tenho uma história muito engraçada, um dia um amigo do meu pai perguntou para ele quantos filhos eu tenho e o meu pai respondeu que tenho três, duas meninas e um menino. A mais velha é a Daniela, faz teatro, traduz peças, faz cenários etc. A outra dirige televisão, comerciais de televisão, dirigiu "O Menino Maluquinho 2". E o menino faz música de cinema, fez a música de "Cidade de Deus", fez a música de "Terra Estrangeira" e "O Amor no Tempo do Cólera", é músico. Duas meninas mexem com teatro e o menino com música. E o cara falou: "mas você não tem nenhum neto útil?" Mas é impressionante como tem gente inútil na geração abaixo de mim.
(07:23:50)
Moderadora/UOL:
Ziraldo conversa com internautas sobre sua carreira e o lançamento de seu blog oficial no UOL (crédito: Flavio Florido/UOL) (07:25:00) Luiz: a maneira de se escrever patra as crianças mudou muito nos ultimos anos .. qual os eu ponto de vista se compararmos o tempo que escreveu o Menino maluquinho e se fosse para escreve-lo hoje .. ???
(07:41:04) Ziraldo: Luiz, do Menino Maluquinho para cá não mudou, no Brasil nós paramos, a literatura infantil que se faz no Brasil hoje é de muito boa qualidade. A maioria dos autores conseguiram compreender que criança não tem que ser tratada como "vir a ser", não tem que ficar com bonitinho, coitadinho e nem tem que ficar ensinando para menino e para menina. A Cecilia Meireles, por exemplo, fazia em seus livros elogios para o menino que voltava limpinho da escola. Eu digo que ela estava elogiando o menino mais chato do mundo. Aí o Monteiro Lobato inventou que o saci pererê tem as duas pernas, só que só os meninos bem comportados vem a outra. Hoje não temos esta preocupação de dar bons exemplos para as crianças, principalmente porque elas não gostam. Tem muita gente que escreve literatura de altíssimo nível no Brasil. Este é o único país em que o conjunto de seus autores infantis tem respeitabilidade. Os autores brasileiros conseguiram uma respeitabilidade em função da qualidade do que fazem. Eu sou politicamente incorreto ou "impoliticamente correto". O politicamente correto tende muito para a hipocrisia. Nasceu inclusive na nação mais hipócrita do mundo. O Brasil é único país do mundo que pelo menos nos grandes centros as pessoas respeitam em sua maioria a opção dos outros, só aqui uma moça pode sair pelada na Playboy, dizer que fez um trabalho belíssimo e casar com um senador. Temos esta coisa, o povo brasileiro em seu conjunto é menos hipócrita do que o pessoal do norte do mundo
(07:30:25) marcelo: as crianças atualemente estão amadurecendo mais rápido. como isso se reflete nas suas obras?
(07:42:41) Ziraldo: marcelo, elas amadurecem e se informam mais rápido, mas a cabecinha não muda, continua igual. Ela continuará sofrendo pelas mesmas razões que o menino Jesus sofreu ou que qualquer menino romano sofreu. Ninguém aguenta humilhação, carência, abandono, desprezo, dor. Todas as coisas que magoam o outro continuam ainda com a mesma intensidade. O homem continua amando pelas mesmas razões, morrendo e matando pelas mesmas razões, só muda as circunstâncias. O sentimento lá no fundo é o mesmo, o ser humano é imutável. Não existe esta coisa do novo homem, um homem capaz de compreender o outro.
(07:31:52) parquemaluquinho: Ziraldo, você já pensou em abrir um parque temático baseado na sua obra? Sou aficcionado por parques e por seus personagens e fiz um projeto do Parque Maluquinho...
(07:45:55) Ziraldo: parquemaluquinho, manda o projeto para mim, tem anos que quero fazer um parque lá em Curitiba, tem até a área. O parque temático fracassou no país. Só deu certo nos EUA e no Japão. O Japão com sua ocidentalização tem parques fantásticos assim como os EUA. Aqui todos fracassaram. Estamos tentando fazer um parque mais formativo, onde a criança em vez de consumir saia mais rica de informação. O espaço está no Paraná atrás de financiadores. Outra hipótese que surgiu agora é o Quitandinha em Petrópolis, RJ. Era o hotel mais luxuoso do mundo e virou uma sucata depois da proibição do jogo. Mas agora está tudo recuperado. O Sesc recuperou toda a base que é deslumbrante. É um prédio tão bem feito que parece novo depois de restaurado. E ali pode se fazer um espaço para crianças se divertir com o Flicts, o Menino Maluquinho, a Turma do Pererê etc. Eu tenho um mundo de personagens. O meu email é ziraldo@ziraldo.com.br.
(07:37:26) Garopaba: Ziraldo, e a revista Bundas! Não tem mais espaço para ela ou ficou pequena diante da realidade que vivemos onde os politicos perderam a vergonha?
(07:49:54) Ziraldo: Garopaba, a gente não se escandaliza mais com nada, mudou um pouco, não nos escandalizamos nem com a corrupção e a falta de vergonha. Eles abusam e não se lixam para a opinião pública. É uma coisa espantosa o que está acontecendo no Brasil, inclusive na questão da violência. A quantidade de informação de coisa errada vai criando uma crosta em nossa sensibilidade. Eu fiz a revista Bundas para fazer uma brincadeira com a revista Caras. Então eu precisava do dinheiro que a Caras tem para desmoralizar aquela fatuidade, aquela facilidade, aquele exibicionismo horroroso. Tinha muito motivo para fazermos uma revista anti-Caras, tanto que o slogan era: "Quem mostrou a Bunda em caras jamais irá mostrar a cara em Bundas". Mas como não tínhamos dinheiro, a revista em vez de um negócio comportamental foi tomando um caminho político e virou uma revista política contra o Fernando Henrique Cardoso na época, que não era vantagem nenhuma, mas aí não conseguíamos anúncios para ela. A Carla Peres colocou a sua bunda no seguro pelo banco Itaú, eles colocaram anúncio em todos os jornais do Brasil, mas fomos lá e disseram que não colocam anúncio em uma revista com este nome. Então a revista quebrou. Daí fiz o Pasquim 21, porque como já tinha uma equipe contra o FHC, transferi todo mundo para lá, mas os anúncios não entravam também. Eu faço grandes sucessos editoriais, a Bunda, a Palavra e o Pasquim 21 e todos os três são teses universitárias e muito elogiados como publicação, mas até hoje estou pagando dívidas deles. Mas ainda vou fazer uma revista sem política, somente humor comportamental para aproveitar os grandes cartunistas. O que tem de desenhista bom no Brasil. Somente a Inglaterra, os EUA e a Argentina que tem um conjunto melhor que o Brasil em cartunistas.
(07:38:44) boquinha98: Amigo, Ziraldo aqui é o velho josé Carlos não te vejjo desde 1998 pois tive um probleminha de saude e hoje não mais falo irmão, CA mas to bacana feliz de poder te mandar um beijo cheio de carinho
(07:50:48) Ziraldo: boquinha98, qual Zé Carlos? Não tem o sobrenome. Vou ter que perguntar para os meus amigos...
(07:38:46) marcão: seu cabelo é a coisa mais linda que posso vislumbrar!!
(07:12:19) Ziraldo: marcão, a minha cabeleira é uma cabeleira piscina, é cheia, mas dá para ver o fundo.
(07:37:49) esquerdo: queria que voce comentasse o caso da indenização que recebeu por conta da ditadura. tem muita gente que critica o episodio, e muita gente que achou que voce abriu um precedente importante. o que vc pensa sobre isso?
(07:55:22) Ziraldo: esquerdo, eu não abri precedentes, tem mais de 2.000 indenizações já autorizadas e já sendo postas. O sindicato dos jornalistas há 19 anos listou um número de colaboradores, inclusive, sendo a maioria deles do Pasquim, para receber esta indenização que é legal. Porque o Pasquim foi fechado 19 vezes, colocaram fogo nas bancas, o meu Cartum JS foi fechado, o Pererê acabou por causa do Golpe de 64. Quer dizer, eu nunca tive prejuízo porque eu nunca parei de trabalhar, mas quando saiu a lista do sindicato dos jornalistas eu assinei também, topei receber a indenização que é legal. Quem comandava era o Barbosa Lima Sobrinho, o presidente da ABI. Depois se descobriu que esta lista foi feita por um filho bastardo do Nelson Rodrigues que era jornalista, mas que colocou na lista a mãe dele, a tia dele, a irmã dele, a família toda. E isto desmoralizou muito esta lista e a imprensa caiu em cima. Eu, o Zuenir Ventura, o Sergio Augusto, o Jaguar, um bando de pessoas nunca mais pensamos nisso, esquecemos completamente. Há dois anos fui informado que o meu processo estava sendo julgado, nesta época o Cony recebeu uma indenização. E agora cheguei na ABI e eu estava na lista dos indenizados. Agora, ficam nos criticando, nós que corremos tudo o que é risco não temos direito? E virei o único indenizado do Brasil porque o Globo fez uma campanha durante um mês contra mim. Os atrasados deram R$ 1,2 milhão e nem sei quando vou receber. Estou recebendo R$ 4.000 por mês. A minha aposentadoria é de R$ 1.000. Depois de 60 anos de profissão recebo R$ 5.000 como aposentado. Os atrasados só Deus sabe se um dia eu recebo. Eu quero conhecer e cumprimentar quem em minha situação não iria querer receber este dinheiro.
(07:49:13) gamer: Qual é a sua postura diante dos desenhos, games e livros violentos de hoje? bem diferente dos desenhos do zé colméia de antigamente...
(07:56:53) Ziraldo: gamer, o mundo mudou, o Bob Esponja e estas coisas todas são muito divertidas, apesar que não gosto. Agora, o Popeye vivia dando porrada no Brutus, ele é muito mais violento que a turma do Bob Esponja. É um equívoco achar que a violência dos desenhos animados e estes desenhos japoneses fazem as crianças ficarem violentas. Elas precisam de fantasia, agora, se eles têm má índole ou se são muito infelizes em sua infância isto pode prejudicar. Se eles tiverem um lar onde os pais gostam deles, se o pai tem emprego, não tem problema algum. Deixa rolar, não se pode afastar o filho do mundo em que ele vive, não existe mundo ideal.
(07:51:42) AndréBH: olá Ziraldo! Um dos grandes livros os quais marcaram a minha infância é, sem dúvida, FLICTS. Uma questão: como situar Flicts no atual debate do sistema de cotas nas universidades públicas brasileiras?
(08:00:53) Ziraldo: AndréBH, obrigado por gostar do Flicts que por acaso também está fazendo 40 anos neste ano, ele foi escrito logo depois que os astronautas pisaram na lua. O Flicts é a cor verdadeira da lua, é uma cor que não tem primavera, que não tem lugar em um vaso de flor, nas bandeiras e ele acha o seu lugar. Agora, você tem que batalhar para achar o seu lugar, evidentemente o negro no Brasil em geral pertence a classe menos favorecida economicamente falando. Nos EUA quando libertaram os escravos cada negro recebeu 40 acres de terra e uma mula. Dois anos depois tinha negro milionário lá e negro pobre. Enquanto que aqui os libertaram e eles foram para a rua, no dia seguinte metade voltou para a senzala, onde eles iriam comer ou dormir. E a outra metade foi para o alto do morro, foi assaltar, foi brigar. Então a origem histórica da raça negra aqui é muito triste, não tiveram a oportunidade que as outras pessoas tiveram. Então me parece justo que haja um espaço para quem tiver qualidade e provar a sua origem miserável. Criar facilidades para que os pobres e os que têm mais dificuldade de estudar tenham espaço é muito justo porque se você não passar na universidade pública será muito caro estudar na universidade privada. Com cota ou não tem que se criar facilidades para que os menos dotados financeiramente possa estudar mais barato.
(08:01:56) Ziraldo: Estudar é muito importante, mas ler é muito mais importante do que estudar. Para não ficar na internet escrevendo em internetês achando que está inventando, mas que é por ser incompetente mesmo. Todos estes caras que escrevem assim é porque só sabem escrever assim mesmo. Eu ainda não vi nesta raça que escreve assim qualquer sinal de criatividade ou imaginação. É destes chamados internautas que quero distância.
(08:02:10) Ziraldo: Obrigado...
(08:02:10) Moderador UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Ziraldo e de todos os internautas. Até o próximo!